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A
SOCIEDADE
OCUPA A TV
O caso Direitos de Resposta
O caso Direitos de Resposta
e o controle público da mídia
e o controle público da mídia
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A sociedade ocupa a TV
O caso Direitos de Resposta
e o controle público da mídia
Intervozes
2007
44
EXPEDIENTE
FICHA
TÉCNICA
EDIÇÃO: Bia Barbosa e Giovanna Modé
REDAÇÃO: Bel Mercês, Cristina Charão,
Daniele Ricieri, Diogo Moyses e Michelle Prazeres
REVISÃO: Oona Castro
COLABORAÇÃO: Adriano de Angelis, Marcio Kameoka,
Rosário de Pompéia e Rogério Tomaz Jr.
CAPA, PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO: Miriam Duenhas
Intervozes
-
Coletivo Brasil de Comunicação Social
Rua Dr. Paulo Vieira, 134
-
01257-000
-
São Paulo
-
SP
www.intervozes.org.br
A Sociedade ocupa a TV: o caso Direitos de Resposta e
o controle público da mídia/ [edição Bia Barbosa e
Giovanna Modé] .
-
São Paulo: Intervozes
-
Coletivo
Brasil de Comunicação Social, 2007.
1. Comunicação de massa 2. Controle social
3. Democracia 4. Direito de resposta 5. Direitos humanos
6. Participação social I. Barbosa, Bia. II. Modé, Giovanna.
07-2564 CDD-302.2301
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Índices para catálogo sistemático:
1. Controle público na mídia: Comunicação social: Sociologia 302.2301
2. Mídia: Controle público: Comunicação social: Sociologia 302.2301
55
INDI
E
PREFÁCIO..............................................................................................06
APRESENTAÇÃO .................................................................................. 08
O PÚBLICO NO CONTROLE
O Poder da Mídia e o Poder do Público ..............................................13
O direito de exigir direitos .....................................................................24
DIREITOS DE RESPOSTA NO AR
O começo da história ............................................................................ 31
Muitas vozes na TV ...............................................................................42
Um novo programa ............................................................................... 54
UM PROGRAMA, UM PROCESSO
As respostas ao Direitos de Resposta ....................................................61
Da TV para as páginas de jornais ..........................................................69
MÍDIA, PARTICIPAÇÃO POPULAR E DEMOCRACIA
Monitorando as políticas de comunicação ..........................................85
O presente livro é licenciado por meio de uma licença Creative Commons
Atribuição - Não Comercial - Compartilhar Igual, versão 2.5, disponível em
http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.5/deed.pt. Os artigos que com-
põem a obra poderão ser reproduzidos, integral ou parcialmente, podendo ser,
inclusive, traduzidos, desde que sempre seja reconhecido o direito de atribuição e
referência aos nomes dos autores e desta obra, nos termos da licença. Adicionalmente,
caso o uso implique alteração, transformação, ou criação de outra obra com base
em qualquer dos artigos ou na obra completa, a obra resultante somente poderá ser
distribuída sob uma licença idêntica a esta. Qualquer uma destas condições podem ser
renunciadas, desde de que se obtenha permissão expressa do autor. O livro também
pode ser obtido em sua versão eletrônica, no site: www.intervozes.org.br.
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PREFÁCIO
SERGIO GARDENGHI SUIAMA
1
As páginas que se seguem contam uma história. Ou melhor, um
pedaço dela. A história é a da luta para garantir que um espaço
público seja ocupado por quem de direito - isto é, os cidadãos da
república -, e não por meia dúzia de corporações que, por não ter-
em mais muita coisa a dizer, limitam-se a repetir fórmulas e clichês
para uma platéia de milhões de brasileiros sem acesso a opções de
cultura, informação e lazer. No lugar de sujeitos de direitos, espe-
ctadores passivos de programas iguais uns aos outros, orientados
unicamente pela lógica autoritária do consumo.
Mais de meio século depois, o monopólio dos meios de comuni-
cação sobrevive graças ao patrimonialismo que caracteriza a re-
lação público/privado no Brasil. É notável a aliança anti-republicana
celebrada entre radiodifusores e os setores da burocracia encarre-
gados de zelar pela organização do espaço. Graças a essa aliança,
o espaço fi nito da radio-fre qüência foi cedido quase de graça à
exploração comercial das concessionárias do serviço, sem que o
Estado tivesse a menor preocupação de garantir o pluralismo políti-
co fundador da ordem constitucional democrática, ou seja, a con-
vivência instável e polêmica de múltiplas concepções de mundo no
mesmo espaço social.
Privatizado, o espaço televisivo brasileiro deixa de atender aos com pro-
missos pactuados na Constituição. No caso específi co que deu origem
ao “Direitos de Resposta”, a concessionária prestadora do serviço pú-
blico de radiodifusão achava-se no direito de, todos os dias, ganhar
dinheiro humilhando e ofendendo mulheres, pobres e homossexuais.
Legitimava, com isso, as práticas sociais de inferiorização da fi gura do
Outro, infelizmente comuns em nossa sociedade.
Foi então que, em fi ns de 2005, uma extraordinária conjunção de
fatores e o trabalho coletivo de algumas dezenas de pessoas pertur-
bou a ordem autoritária vigente e mostrou que, também na comu-
muni
que caracteriza a re-
liança anti-republicana
ifusores e os setores da burocracia encarre-
os de zelar pela organização do espaço. Graças a essa aliança,
spaço fi nito da radio-fre qüência foi cedido quase de graça à
loração comercial das concessionárias do serviço, sem que o
ado tivesse a menor preocupação de garantir o pluralismo políti-
fundador da ordem constitucional democrática, ou seja, a con-
vência instável e polêmica de múltiplas concepções de mundo no
esmo espaço social.
Privatizado, o espaço televisivo brasileiro deixa de atender aos com pro-
missos pactuados na Constituição. No caso específi co que
ao “Direitos de Resposta”, a concessionária prestadora do
blico de radiodifusão achava-se no direito de, todos os d
nheiro humilhando e ofendendo mulheres, pobres e homossexua
imava, com isso, as práticas sociais de inferiorização da fi gura do
nfelizmente comuns em nossa s
e, em fi ns de 2005, uma extraordinária conjunção de
es e o trabalho coletivo de algumas dezenas de pessoas pertur-
a ordem autoritária vigente e mostrou que, também na comu-
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ixa de atender aos com pro-
na Constituição. No caso específi co que deu origem
esposta”, a concessionária prestadora do serviço pú-
blico de radiodifusão achava-se no direito de, todos os dias, ganhar
dinheiro humilhando e ofendendo mulheres, pobres e homossexuais.
Legitimava, com isso, as práticas sociais de inferiorização da fi gura do
Outro, infelizmente comuns em nossa sociedade.
Foi então que, em fi ns de 2005, uma extraordinária conjunçã
fatores e o trabalho coletivo de algumas dezenas de pessoas p
bou a ordem autoritária vigente e mostrou que, também na c
se seguem contam uma história. Ou melhor, um
pedaço dela. A história é a da luta para garantir que um espaço
público seja ocupado por quem de direito - isto é, os cidadãos da
república -, e não por meia dúzia de corporações que, por não ter-
em mais muita coisa a dizer, limitam-se a repetir fórmulas e clichês
para uma platéia de milhões de brasileiros sem acesso a opções de
cultura, informação e lazer. No lugar de sujeitos de direitos, espe-
ctadores passivos de programas iguais uns aos outros, orientados
unicamente pela lógica autoritária do consumo.
Mais de meio século depois, o monopólio dos meios d
ão sobrevive graças ao patrimonialismo que caract
público/privado no Brasil. É notável a aliança anti-r
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Mais de meio século depois, o monopólio dos meios de comuni-
cação sobrevive graças ao patrimonialismo que caracteriza a re-
lação público/privado no Brasil. É notável a aliança anti-republ
celebrada entre radiodifusores e os setores da burocracia en
gados de zelar pela organização do espaço. Graças a essa al
o espaço fi nito da radio-fre qüência foi cedido quase de g
exploração comercial das concessionárias do serviço, sem
Estado tivesse a menor preocupação de garantir o pluralismo
co fundador da ordem constitucional democrática, ou seja,
vivência instável e polêmica de múltiplas concepções de mu
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O
SERGIO GARDENGHI SUIAMA
1
As páginas que se seguem contam uma história. Ou melhor, um
pedaço dela. A história é a da luta para garantir que
blico seja ocupado por quem de direito - isto é, os
lica -, e não por meia dúzia de corporações que
muita coisa a dizer, limitam-se a repetir fórm
platé
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nicação social, “um outro mundo é possível”. A história desse rico
processo está (bem) contada adiante. Quero apenas registrar minha
admiração pela enorme capacidade de trabalho de todos os com-
panheiros de luta - “intervozeanos” incluídos, evidentemente.
Gostaria também de ressaltar que, do ponto de vista jurídico,
mostrou-se perfeitamente possível a concessão de um “direito de
resposta coletivo” como instrumento válido para assegurar o “plu-
ralismo interno”, isto é, a “possibilidade de expressão e confronto
das diversas correntes de opinião – tomando opinião no sentido
mais amplo para abarcar quer a opinião política quer a religiosa e
losófi ca” – no interior da própria emissora.
O desafi o, agora, é reproduzir esse instrumento em outras ações
civis públicas, que podem ser ajuizadas pelo Ministério Público
e por organizações da sociedade civil. Oxalá isso ocorra. A con-
cepção de que o direito não é somente um instrumento de domi-
nação e que é possível uma atuação jurídica voltada à promoção
e defesa de direitos fundamentais orienta nossas ações. O mate-
rial relativo ao processo judicial pode ser acessado no endereço:
www.prsp.mpf.gov.br/prdc.
Até às próximas!
1. Procurador da República. Foi Procurador Regional dos Direitos do Cidadão em São Paulo,
entre 2005 e 2007, sendo responsável pela maioria dos procedimentos envolvendo a violação
dos direitos fundamentais por emissoras de rádio e TV em São Paulo – entre eles o caso que
resultou no programa Direitos de Resposta
dos Direitos do Cidadão em São Paulo,
oi Procurador Regio
. Procurador da Repú
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dos direitos fundamentais por emissoras de rádio e TV em São Paulo – entre eles o caso que
resultou no programa Direitos de Resposta
pelo Ministério Públi
Oxalá isso ocorra. A con
um instrumento de domi-
ção e que é possível uma atuação jurídica voltada à promoção
defesa de direitos fundamentais orienta nossas ações. O mate-
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www.prsp.mpf.gov.br/prdc.
Até às próximas!
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entre 2005 e 2007, sendo responsável pela maioria do
dos direitos fundamentais por emissoras de rádio e TV
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Gostaria também de ressaltar que, do ponto de vista jurídico,
mostrou-se perfeitamente possível a concessão de um “direito de
resposta coletivo” como instrumento válido para assegurar o “plu-
ralismo interno”, isto é, a “possibilidade de expressão e confronto
das diversas correntes de opinião – tomando opinião no sentido
mais amplo para abarcar quer a opinião política quer a religiosa e
losófi ca” – no interior da própria emissora.
O desafi o, agora, é reproduzir esse instrumento em outr
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organizações da sociedade civil. Oxalá isso ocor
de que o direito não é somente um instrument
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O desafi o, agora, é reproduzir esse instrumento em outras ações
civis públicas, que podem ser ajuizadas pelo Ministério Público
e por organizações da sociedade civil. Oxalá isso ocorra. A con-
cepção de que o direito não é somente um instrumento de domi-
nação e que é possível uma atuação jurídica voltada à prom
e defesa de direitos fundamentais orienta nossas ações. O
rial relativo ao processo judicial pode ser acessado no en
www.prsp.mpf.gov.br
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ial, “um outro mundo é possível”. A história desse rico
processo está (bem) contada adiante. Quero apenas registrar minha
admiração pela enorme capacidade de trabalho de todos os com-
panheiros de luta - “intervozeanos” incluídos, evidentemente.
ostaria também de ressaltar que, do ponto de vista jurídic
trou-se perfeitamente possível a concessão de
ta coletivo” como instrumento válido para a
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s correntes de opin
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APRESENTAÇÃO
A HISTÓRIA DE UMA CONQUISTA
No fi nal de 2005, um grupo de organizações não governamentais, em
parceria com o Ministério Público Federal, se dispôs a escrever um
novo capítulo na história da televisão brasileira. Diante das constantes
violações de direitos humanos praticadas no programa de um conhe-
cido apresentador, optou por sair de uma posição passiva e interferir
naquele que é hoje o espaço público por excelência em nosso país,
apesar de controlado e monopolizado por tão poucos: a TV aberta.
Moveram contra o programa Tarde Quente e seu apresentador João
Kléber uma ação civil pública que pedia, entre outros pontos, um di-
reito de resposta aos grupos e comunidades agredidos pelas conheci-
das “pegadinhas” que iam ao ar diariamente, às 16h, e eram assistidas,
em seus picos de audiência, por mais de 20 milhões de telespectado-
res, segundo os dados da própria emissora. Como tantos outros que
ainda persistem na televisão brasileira em busca do lucro fácil, o pro-
grama tinha como marca a exploração da miséria humana e o desres-
peito a minorias; seu suposto “humor” estava baseado na exibição de
cenas preconceituosas contra mulheres, homossexuais, pessoas com
defi ciência. Provocava, portanto, um riso bastante duvidoso, que, no
mínimo, reforçava e perpetuava a discriminação.
Em se tratando de um espaço público, pertencente a todos os cidadãos,
o Estado e a sociedade civil não permaneceram omissos. O que as
seis entidades e a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão do
Ministério Público Federal em São Paulo fi zeram, na prática, foi exer-
cer, sobre os meios de comunicação, o controle público – algo hoje
já consolidado em políticas públicas nas áreas de saúde, educação e
moradia, mas ainda distante da realidade da radiodifusão brasileira.
Conseguiram essa vitória na Justiça. A contra-propaganda deu origem
ao programa Direitos de Resposta, que, de dezembro de 2005 a ja-
neiro de 2006, levou a telespectadores debates sobre a promoção e
defesa dos direitos humanos. Em 30 programas de uma hora de du-
8
99
ração, a sociedade brasileira vivenciou um verdadeiro processo de
ocupação da TV. Além de ter se transformado em um espaço aberto a
vozes cotidianamente excluídas dos meios de comunicação, o Direi-
tos de Resposta colocou no ar dezenas de produções audiovisuais que
também não encontram canais de divulgação na mídia tradicional. Era
um espaço de todos.
Mais do que o programa em si, o caso trouxe à tona uma discussão
importante sobre o papel da televisão na formação dos valores e da
cultura, sobre como o espaço público mediatizado pode e precisa ser
ocupado por um número cada vez maior de vozes, sobre como essas
vozes têm direito de opinar sobre a televisão que querem. De forma
que este processo refl ita a pluralidade e a diversidade tão presentes
no país, de forma que contribua para a construção de uma sociedade
mais democrática e igualitária.
Mais de um ano depois, a história ainda repercute. São inúmeros os
debates pelo país acerca desta iniciativa. Outras, promovidas por ou-
tras organizações da sociedade civil, motivadas pela conquista obtida
neste caso, se multiplicaram. Reportagens e artigos relataram a expe-
riência. Em 2007, os episódios do Direitos de Resposta passaram a ser
exibidos em outros canais de TV brasileiros, comunitários, universitá-
rios, públicos. Em breve, estarão disponíveis para bibliotecas, escolas,
universidades, movimentos sociais e defensores de direitos humanos,
como uma ferramenta de trabalho e luta por um outro mundo pos-
sível. Essas vozes, antes caladas, poderão, então, se fazer ouvir.
Para o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, organi-
zação que luta pela efetivação do direito humano à comunicação e
uma das protagonistas deste processo, o Direitos de Resposta e toda a
ação que culminou nos 30 programas de TV não são apenas uma bela
história a ser contada. São a comprovação de que, se organizada, a
população brasileira consegue obter conquistas importantes na reivin-
dicação e exigibilidade de seus direitos; consegue mostrar que a tele-
visão que temos hoje não precisa ser preconceituosa e discriminatória,
nem excluir tantas vozes para ser interessante, para experimentar no-
vas linguagens, para promover outros valores.
E consegue, principalmente, deixar claro que somente a efetiva par-
ticipação popular no cenário da comunicação brasileira
-
em frente
às câmeras e por trás delas – possibilitará mudanças na mídia que
9
10101
0
10
temos hoje e garantirá o exercício do direito humano à comunicação.
Afi nal, somente num espaço onde todos e todas tenham voz, acesso
aos meios de produção e veiculação de informação e condições de
participação na formulação e monitoramento de políticas de comuni-
cação os demais direitos humanos poderão ser conhecidos, reconhe-
cidos, protegidos, defendidos, reivindicados e efetivados.
É essa a história que pretendemos contar neste livro. Que as pági-
nas que seguem inspirem outras lutas, outras ocupações. Que seja o
começo de novas belas histórias.
SOBRE O INTERVOZES
O Intervozes iniciou suas atividades em 2002, reunindo ativistas, profissionais e
estudantes de Comunicação Social. Em 2003, o coletivo tornou-se uma associação
civil sem fins lucrativos e conta atualmente com 60 membros distribuídos em 15
estados brasileiros.
Nos últimos anos, o Intervozes tem perseguido três objetivos estratégicos:
- Trabalhar pela formulação, difusão e disputa de um ambiente regulatório e políti-
cas públicas – em especial de um sistema nacional de comunicações –, que materi-
alizem o interesse público e a democracia e que respeitem, promovam e protejam
o direito humano à comunicação.
- Trabalhar pelo fortalecimento do movimento pelo direito humano à comunicação,
em articulação e mobilização com diferentes atores.
- Construir um diálogo com os movimentos sociais e segmentos organizados da
sociedade a partir do compartilhamento de demandas, interesses e pautas.
Para isso-se envolveu profundamente nos debates acerca da implantação da TV
digital no país, com intensa mobilização de seus associados e o diálogo com outras
organizações e redes. O processo contou com atividades de formação inter-
O PÚBLICO NO CONTROLE
1111
na, sensibilização da sociedade, produção de material de referência, diálogo
com a academia e com os consórcios responsáveis pelo desenvolvimento do
SBTVD (Sistema Brasileiro de TV Digital), realização de audiências públicas,
relação com a imprensa, interlocução com os representantes do Estado e do
Ministério Público Federal, entre outras iniciativas, com destaque para a for-
mação da Frente Nacional por um Sistema Democrático de Rádio e TV Digital.
Dentro deste processo, o Intervozes criou e mantém um blog sobre o assunto:
intervozes.org.br/blogdatvdigital.
Desde novembro de 2005, o Intervozes também desenvolve o Centro de Referência
para o Direito à Comunicação. O objetivo central deste projeto é contribuir para a
criação de um ambiente favorável para a luta pelo direito à comunicação, oferecen-
do aos atores deste campo referências concretas que potencializem sua atuação.
A estas iniciativas, soma-se a atuação do Intervozes na construção dos projetos de
comunicação compartilhada (Fórum de TVs e Fórum de Rádios) do V Fórum Social
Mundial, realizado em Porto Alegre em 2005, e do VI Fórum Social Mundial, reali-
zado em 2006 em Caracas, Venezuela.
Soma-se também o programa Vozes na TV, veiculado semanalmente, desde novem-
bro de 2006, na página da AllTV na Internet (www.alltv.com.br). O programa é ins-
pirado na iniciativa do Direitos de Resposta e tem como temática a democratização
da mídia e o direito à comunicação no Brasil.
Em dezembro de 2006, em parceria com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo,
o Intervozes publicou o livro Vozes da Democracia – Histórias da Comunicação na
Redemocratização do Brasil, que resgata experiências de resistência à ditadura
militar pouco conhecidas no país. A obra é o primeiro livro de uma editora estatal
publicada sob licença Creative Commons.
Atualmente, o coletivo está envolvido ainda na construção e na consolidação
de redes regionais em defesa da democratização e do direito à comunicação.
É o caso da Rede pela Democratização da Comunicação, de Brasília; da Rede de
Comunicação e Articulação Popular do Espírito Santo (RECAPES); do Fórum Per-
nambucano de Comunicação (Fopecom) e da Rede Paulista pela Democratização
da Comunicação e da Cultura.
O Intervozes também integra a CRIS Brasil – Articulação Nacional pelo Direito à
Comunicação, o Fórum de Entidades Nacionais de Direitos Humanos (FENDH) e a Mo-
bilização por uma Reforma Política Ampla, Democrática e Participativa.
.
11
O PÚBLICO NO CONTROLE
1212
O público no controle
12
O PÚBLICO NO CONTROLE
1313
O PODER DA MÍDIA E
O PODER DO PÚBLICO
Vendas de aparelhos de ginástica milagrosos, jóias, remédios para
dietas revolucionárias. Exploração da miséria, exposição de mulhe-
res como mercadorias, cenas de humor humilhantes e pegadinhas.
A televisão comercial brasileira superou todos os limites e se tor-
nou moral e eticamente indefensável. Sua programação é basica-
mente composta por novelas, telejornais expressos – que dão notí-
cias em 30 segundos e mal permitem a digestão do que está sendo
mostrado –, programas humorísticos que exploram a violação dos
direitos humanos e brincam com a dignidade das pessoas para
produzir um riso sem a mínima graça.
No nosso dia-a-dia, assistimos na TV aberta a um monólogo de em-
presários que, em público, vestem a máscara da responsabilidade
social, mas que, para manter seu poder, movem-se em busca do
lucro. Neste processo, determinam quem pode ou não ser ouvido
pela sociedade. Tratam a informação como mercadoria e abusam
da liberdade de expressão, que se materializa na violação dos di-
reitos humanos, no desrespeito às pessoas, na criminalização dos
movimentos sociais e populares e na exploração do mundo-cão.
Para usar um termo que se tornou bastante popular nos últimos
anos, a tônica dessa desafi nada sinfonia é a baixaria.
Isso tudo ocorre num espaço pelo qual os concessionários de TV
deveriam zelar, produzindo e veiculando uma programação que
contemplasse a diversidade, que atendesse aos interesses públicos
e contribuísse para a formação de uma sociedade mais democrá-
tica e justa – e não perpetuasse o preconceito e reforçasse as mar-
cantes desigualdades do país.
O respeito e o zelo por este espaço devem existir pelo fato de ele
ser público. Ao contrário de um entendimento comum de que os
concessionários são donos dos canais que operam, o direito de
O PÚBLICO NO CONTROLE
1414
explorar uma freqüência e transmitir conteúdo (ganhando dinheiro
com isso) é concedido pelo Estado brasileiro, em nome do povo, ou
seja, de cada um de nós. Isso acontece, em primeiro lugar, porque
o espectro eletromagnético é um bem escasso, cuja exploração
precisa ser organizada para que este espaço seja ocupado da me-
lhor forma. Além disso, o papel do Estado na regulação do setor se
faz necessário quando compreendemos a radiodifusão como um
espaço fundamental para o exercício de direitos humanos, como a
liberdade de expressão e o acesso à informação e à cultura, entre
outros.
Diante da atual centralidade da mídia em nossa sociedade, desde a
formação de valores até a conformação da opinião pública, há de-
veres constitucionalmente estabelecidos que os concessionários de TV
devem cumprir sob pena da perda da concessão. Entre eles, o respeito
À DIGNIDADE HUMANA, À HONRA, À LIBERDADE E À PRIVACIDADE ALHEIAS.
No Brasil, a importância do cumprimento desses deveres se faz ainda
maior, em função de um cenário em que o poder da televisão, como
veículo de informação e entretenimento, é quase absoluto. Presente
em 90,3% dos domicílios brasileiros (IBGE/PNAD, 2005) – número
que supera o de casas com geladeira e as atendidas por serviços de
saneamento básico – o acesso à TV é infi nitamente superior àquele aos
meios impressos: 39% dos brasileiros não lêem revistas ou têm acesso
a elas menos de uma vez por trimestre; 48% os brasileiros não lêem
jornal ou só têm acesso ao veículo menos de uma vez por semana. A
tiragem do maior jornal do país não chega a um milhão e a internet
chega a somente 15% da população.
Num país onde ainda existem 15 milhões de analfabetos e 33 milhões
de analfabetos funcionais, pode-se dimensionar o potencial da tele-
visão e do rádio na criação e manutenção de valores na sociedade.
Numa ponta desta comunicação, então, está a maioria esmagadora
dos brasileiros. Do outro, estão grandes empresários, que usam a con-
cessão que detêm para defender seus interesses políticos e econômi-
cos. Este mercado, de R$ 3 bilhões, é dominado atualmente por seis
redes privadas nacionais, através de 138 grupos afi liados, que con-
trolam 668 veículos (TVs, rádios e jornais) – instrumentos de poder
regional e nacional. Enquanto esses empresários detêm o poder da
fala, 180 milhões de brasileiros se calam.
Veja o artigo 221 da
Constituição, pág. 22
O PÚBLICO NO CONTROLE
1515
Papel do Estado e ação da sociedade civil
A promoção e a proteção dos direitos humanos, além de estabelecidas
na Constituição, são compromissos fi rmados internacionalmente pelo
Brasil. Se esses direitos são agredidos, CABE AO ESTADO AGIR DIANTE DAS VIO-
LAÇÕES – inclusive se forem praticadas pelos meios de comunicação.
No entanto, durante dois anos, a Rede TV! e o apresentador João Kle-
ber valeram-se da omissão do Estado para disseminar mensagens de
intolerância e preconceito em seus programas. O não cumprimento
de suas obrigações legais atingiu níveis inaceitáveis, violando explícita
e reiteradamente os direitos fundamentais não apenas de um ou outro
indivíduo, mas da população como um todo. Da mesma forma, o pro-
grama Zorra Total, produzido e veicu lado pela Rede Globo, explora e
menospreza as mulheres, julga e discrimina homossexuais e exibe um
preconceito declarado em relação a negros e pobres. Isso sem falar nas
novelas, em que este preconceito é, muitas vezes, velado e contribui
fortemente para a perpetuação do preconceito e da discriminação.
De maneira mais ampla, também podem ser incluídos na lista de vio-
ladores os programas religiosos. Algumas igrejas ganharam terreno na
televisão brasileira com programas que ferem o direito à liberdade de
crença e liberdade religiosa de cada telespectador, na medida em que
ocupam um espaço público para, muitas vezes, ferir a crença alheia.
Diante da omissão do Estado, a sociedade decidiu não mais se calar.
Cada vez mais, a população tem buscado formas de conter tais vio-
lações, exercendo sobre estes meios um controle democrático. Sua
programação, portanto, tem sido constantemente objeto de controle
público
1
e são diversas as iniciativas que mostram como a sociedade
civil vem se apropriando desse espaço.
Veja texto
página 24
O PÚBLICO NO CONTROLE
1. O termo “controle” por si só pode remeter, equivocadamente, à censura. Nos âmbitos da
gestão pública, da academia e da sociedade civil, são diversas as nomenclaturas usadas para
falar sobre a possibilidade de a sociedade intervir nas políticas públicas, monitorar e denun-
ciar violações de seus direitos. Controle social, controle público, controle público democrático
são as expressões mais usuais. Além delas, são usados termos como gestão democrática ou
participação popular (nas políticas). Usamos a expressão “controle público” parte em função
da retomada do sentido de público que ela carrega (em oposição ao privado e relacionada
ao interesse público), parte porque afi rma o poder da sociedade em relação ao que é público
(no caso da comunicação) e a necessidade de intervir neste espaço.
1616
2. Disponível em http://www.eticanatv.org.br/pagina.php?id_pag=150&idioma=0
Um marco da luta pelo controle público dos meios de comuni-
cação no Brasil é a Campanha Quem Financia a Baixaria é Contra
a Cidadania, promovida pela Comissão de Direitos Humanos e Mi-
norias da Câmara dos Deputados, com participação de inúmeras
entidades da sociedade civil organizada. Criada em 2002, a inicia-
tiva tem como estratégia responsabilizar as empresas patrocinado-
ras dos programas ofensivos à dignidade humana denunciando-os
como fi nanciadores de ações contra a cidadania. As denúncias
são divulgadas em um ranking, enviado às próprias emissoras e
também ao Ministério Público Federal.
No fi nal de 2005, a Campanha divulgou um ranking de denúncias
2
em que o programa Tarde Quente, de João Kleber, aparecia em
segun do lugar. Das 5.449 denúncias recebidas no período de 04
de junho a 10 de novembro, o programa somava 344, por horário
impróprio e exposição das pessoas ao ridículo. O primeiro lugar
era do programa Pânico na TV, também da Rede TV!, com 3.189
denúncias. Em segui da ao Tarde Quente, vinham Casseta e Planeta
(Rede Globo), com 102 denúncias; a novela América (também da
Rede Globo) com 72 denúncias e o programa do Ratinho (SBT),
com 41 denúncias.
Ranking da baixaria na TV
PROGRAMA
Pânico na TV (Rede TV!)
Big Brother Brasil 6 (Rede Globo)
Super Pop (Rede TV!)
Minissérie JK (Rede Globo)
Domingo Legal (SBT)
DENÚNCIAS FUNDAMENTADAS
325
197
105
98
77
*entre 11/11/2005 e 27/04/2006
O PÚBLICO NO CONTROLE
1717
Outra iniciativa da sociedade civil que merece destaque é o
Ombuds
-
PE, realizado pela organização não-governamental
Centro de Cultura Luiz Freire (CCLF), de Olinda (PE). Trata-se de
um acompanhamento diário da mídia pernambucana que nasceu
em 2004 para atender à necessidade de diálogo entre os movi-
mentos sociais e a grande mídia local. Diariamente, a equipe
acompanha os três maiores jornais do estado e procura, através
de notas publicadas num sítio da internet e de um bloco semanal
no programa “Sopa Diário”, da TV Universitária local, estimular
a discussão acerca da maneira como os direitos humanos são
tratados nesses veículos.
É importante citar também as denúncias de violação que, mesmo de
forma isolada, chegam ao Ministério Público, e os esforços deste órgão
em encaminhá-las por meio de ações judiciais com o objetivo de coi-
bir manifestações de desrespeito a direitos fundamentais. Por fi m, lem-
bramos das contribuições aos debates sobre classifi cação indicativa,
que está sob a alçada do Ministério da Justiça, e que têm como obje-
tivo proteger os direitos das crianças e adolescentes.
PROGRAMA
João Kleber (Rede TV!)
Senhora do Destino (Rede Globo)
América (Rede Globo)
Pânico na TV (Rede TV!)
A Lua me disse (Rede Globo)
DENÚNCIAS FUNDAMENTADAS
144
74
70
43
19
*10/01/2005 e 03/06/2005
O PÚBLICO NO CONTROLE
PROGRAMA
Pânico na TV (Rede TV!)
João Kleber (Rede TV!)
Casseta e Planeta (Rede Globo)
América (Rede Globo)
Programa do Ratinho (SBT)
DENÚNCIAS FUNDAMENTADAS
3189
344
102
72
41
*entre 04/06/2005 e 10/11/2005
1818
O que você tem a ver com isso?
Encarado como agente estimulador da diversidade, da criatividade e
da experimentação, o controle público da mídia deve agir como um
sensor (com S), captando as necessidades existentes que possam ser
atendidas pelos meios eletrônicos de comunicação, num processo
permanente de consultas e pesquisas
3
. O princípio é válido para os
veículos de comunicação em geral, mas se faz central em se tratando
de radiodifusão e, mais fundamentalmente, de emissoras públicas.
No entanto, ainda há um longo caminho a ser percorrido no que diz
respeito ao monitoramento da comunicação no Brasil. Em outros cam-
pos dos Direitos Humanos, são comuns mecanismos e instrumentos de
participação da sociedade civil nas políticas públicas. São conselhos na-
cionais, estaduais e municipais, conselhos temáticos, comitê gestores e
conferências que, apesar de sofrerem duras críticas, estão consolidados
e compõem um ambiente favorável ao controle público democrático.
Para se ter uma idéia, uma pesquisa do IBGE mostrou que no Brasil exis-
tem quase 27 mil conselhos, uma média de 4,9 por cidade – 99% dos
municípios brasileiros têm conselhos de saúde, 91% de educação e de
assistência e ação social e 71% de crianças e adolescentes.
OPINIÃO SOBRE COMO O POVO EXERCE O SEU PODER
Não sabe/
não opinou
Não exerce poder
Exerce poder
30%
26%
44%
IBOPE Opinião/2003
O PÚBLICO NO CONTROLE
3.A televisão sob controle público”. Laurindo Leal Filho, 2005.
1919
DISPOSIÇÃO EM PARTICIPAR DE PRÁTICAS
CAPAZES DE INFLUENCIAR AS POLÍTICAS PÚBLICAS
Gostaria de
participar
Não gostaria
de participar
44%
56%
IBOPE Opinião/2003
RAZÕES PARA NÃO TER PARTICIPADO DE PRÁTICAS
CAPAZES DE INFLUENCIAR AS POLÍTICAS PÚBLICAS
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100
Não tem nenhuma infor-
mação a respeito dessas
práticas
Não tem tempo
sufi ciente para participar
Não gosta dessas
práticas/são chatas
A sua participação
nao iria fazer diferença
Não acha importante
Outras/nenhuma destas
Não sabe/não opinou
IBOPE Opinião/2003
O PÚBLICO NO CONTROLE
2020
4. Pesquisa de opinião pública sobre conhecimento e prática do controle social de políticas
públicas no Brasil. IBOPE/Observatório da Educação, 2003.
5. Foram ouvidas 2 mil pessoas em todo Brasil.
Isso não quer dizer, entretanto, que a sociedade brasileira tenha
forte participação na vida pública e nos assuntos que dizem res-
peito à coletividade. Um estudo realizado pelo IBOPE, encomen-
dado pelo Observatório da Educação, da ONG Ação Educativa
4
,
aponta que apenas 44% dos entrevistados
5
acreditam exercer
algum poder na vida pública do país, enquanto 30% acreditam
não exercer poder algum e 26%, pouco mais de um quarto da
população, sequer soube opinar, mostrando que essa questão está
muito distante de seu cotidiano.
O levantamento da Ação Educativa aponta ainda que 44% dos
entrevistados gostariam de se envolver com práticas capazes de in-
uenciar as políticas públicas e que o motivo da não participação,
para 35% dos entrevistados, é o completo desconhecimento dos
mecanismos, o que reforça o argumento de que é preciso pro-
mover uma cultura ampla de controle, que passa pela informação
sobre as possibilidades de intervenção.
Se mecanismos de participação – institucionais ou não – em cam-
pos de direitos já consolidados como a educação e a saúde são
desconhecidos e pouco apropriados e ocupados pela população,
quando a questão é a comunicação no Brasil o cenário é ainda
mais crítico e o caminho a ser percorrido, bem maior. Sem tais
espaços institucionalizados, a sociedade se limita a participar das
decisões acerca das comunicações quando o governo abre con-
sultas públicas à população. Ainda assim são consultas limitadas,
realizadas via Internet, e que funcionam somente como um le-
vantamento de posições da sociedade, sem qualquer garantia de
que estas sejam ouvidas. O outro lado da moeda é que são raros
os movimentos sociais e organizações civis do campo da comu-
nicação que possuem propostas estratégicas ou discutem regular-
mente a importância da existência de instrumentos de participação
popular na
FORMULAÇÃO E MONITORAMENTO DE POLÍTICAS PARA O SETOR.
Leia também o capítulo
sobre “Mídia, participação
popular e democracia”
O PÚBLICO NO CONTROLE
2121
Veja mais
pág 26
Direito à Comunicação
Todos os instrumentos de controle público dos meios ganham novo signifi -
cado quando os entendemos como uma das formas de efetivação do direi-
to humano à comunicação. Numa sociedade efetivamente democrática,
a comunicação pertence ao povo. Assumir a COMUNICAÇÃO COMO UM DIREITO
FUNDAMENTAL signifi ca, portanto, reconhecer o direito de todo ser humano
ter voz, de se expressar neste espaço público midiático. Signifi ca, ainda,
compreender que, se este espaço é necessariamente público, o único
poder legítimo para regular suas práticas deveria emanar da coletividade.
Ou seja, a população é quem, através do controle público, deveria decidir
sobre as questões relacionadas ao tema.
Infelizmente, dentro desta concepção mais ampla, podemos afi rmar
que o exercício pleno do direito à comunicação, uma evolução dos
conceitos de liberdade de expressão e do direito à informação, ainda
é um horizonte longínquo no Brasil. Além de não ser reconhecido
legalmente como tal, o direito à comunicação ainda carece de maior
lastro social, inclusive nos movimentos sociais e nas organizações
civis
6
. Enquanto a luta pela garantia de outros direitos sociais parte do
pressuposto já enraizado na sociedade de que tais questões são de fato
direitos humanos, o mesmo não acontece com a comunicação.
Há muito para se avançar neste campo até se conquistar mecanismos
efetivos de controle público dos meios. Enquanto isso, a aliança entre
sociedade civil e Ministério Público tem se mostrado um bom caminho
para evitar que abusos da liberdade de expressão continuem ocorrendo
7
,
enquanto os concessionários de rádio de TV não entenderem, de uma vez
por todas, que violações aos direitos humanos não devem ser toleradas.
Não importa o horário, não importa com que objetivo, a televisão não
pode ser um instrumento de promoção da barbárie. O caso do Di-
reitos de Resposta abriu um importante precedente neste sentido. Ele
não é o m de um processo. É apenas o princípio. Uma nova porta que
se abre na luta por uma mídia mais democrática.
6. Direitos Humanos no Brasil 2004. Relatório da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.
7. Trecho de “Direitos de Resposta: a sociedade civil ocupa a TV!”. Bia Barbosa, Diogo
Moyses e Rodrigo Savazoni. Em “Classifi cação Indicativa no Brasil: desafi os e perspectivas.
Ministério da Justiça. Brasília, 2006.
O
PÚBLICO NO CONTROLE
2222
Controle público no mundo
EM OUTROS PAÍSES, UMA VARIEDADE DE EXPERIÊNCIAS DE CONTROLE PÚBLICO
E SOCIAL DA MÍDIA SENDO IMPLEMENTADAS E CONSOLIDADAS. A LISTA PASSA POR
CONSELHOS DE IMPRENSA E CÓDIGOS DE ÉTICA JORNALÍSTICA, PUBLICAÇÕES ESPE-
CIALIZADAS EM CRÍTICA DE MÍDIA, OMBUDSMAN/MEDIADORES/OUVIDORES, CRÍTICOS
INTERNOS, PESQUISAS ACADÊMICAS QUE VISAM A CONTRIBUIR COM O APERFEIÇOA-
MENTO DA MÍDIA, CAMPANHAS E MOVIMENTOS DECONSUMIDORES DE MÍDIAETC.
NO REINO UNIDO, A HISTÓRIA DO CONTROLE PÚBLICO CONFUNDE-SE COM A
PRÓPRIA HISTÓRIA DA RADIODIFUSÃO. DESDE OS ANOS 1920, NAQUELE PAÍS,
UM ACOMPANHAMENTO PERMANENTE DO PARLAMENTO SOBRE O RÁDIO
E, POSTERIORMENTE, INSTITUIU-SE O MONITORAMENTO DA TELEVISÃO. NA
ALEMANHA E NA ÁUSTRIA, EXISTEM MECANISMOS SEMELHANTES
8
. NA FRANÇA,
O CONSELHO SUPERIOR DO AUDIOVISUAL (CSA) OUTORGA AS LICENÇAS DE
FUNCIONAMENTO DAS EMISSORAS E TEM PODER PARA MUL-LAS E CASSÁ-LAS
CASO INFRINJAM OS TERMOS DOS CONTRATOS DE CONCESSÃO E AS LEIS GERAIS
DO PAÍS. NA SUÉCIA, O ÓRGÃO REGULADOR DECIDIU BANIR QUALQUER TIPO
DE PUBLICIDADE PARA CRIANÇAS NA TV.
NO BRASIL, APESAR DA PROFUSÃO DE REGRAMENTOS, A TV ABERTA PRATICAMENTE
NÃO SOFRE QUALQUER TIPO DE CONTROLE PÚBLICO NESSES MOLDES. AO CONTRÁRIO
DOS PAÍSES DITOS DESENVOLVIDOS, O BRASIL NÃO CONTA COM REGRAS DE REGIONA-
LIZAÇÃO DA PRODUÇÃO ARTÍSTICA E JORNALÍSTICA OU COM ÍNDICES OBRIGATÓRIOS
PARA A PRODUÇÃO INDEPENDENTE. MESMO QUE FORMALMENTE UMA OUTORGA DE
TV POSSA SER CASSADA, NÃO REGISTRO DE QUE ISSO TENHA OCORRIDO, APESAR
DOS NOTÓRIOS DESVIOS ÉTICOS EXISTENTES NO SETOR.
Legislação
“A PRODUÇÃO E A PROGRAMAÇÃO DAS EMISSORAS DE RÁDIO E TELEVISÃO ATEN-
DERÃO AOS SEGUINTES PRINCÍPIOS: PREFERÊNCIA A FINALIDADES EDUCATIVAS,
ARTÍSTICAS, CULTURAIS E INFORMATIVAS; PROMOÇÃO DA CULTURA NACIONAL E
REGIONAL E ESTÍMULO À PRODUÇÃO INDEPENDENTE QUE OBJETIVE SUA DIVUL-
GAÇÃO; REGIONALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO CULTURAL, ARTÍSTICA E JORNALÍSTICA,
CONFORME PERCENTUAIS ESTABELECIDOS EM LEI; RESPEITO AOS VALORES ÉTICOS
E SOCIAIS DA PESSOA E DA FAMÍLIA”. CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA
DO BRASIL, ARTIGO 221.
2222
O PÚBLICO NO CONTROLE
8. Trechos de A Televisão sob Controle Público”. Laurindo Leal Filho, 2005.
Q
Q
Q
2323
Controle público não é censura
O PROCESSO DE RETIRADA DO AR DO PROGRAMA TARDE QUENTE, A ENTRADA NO AR
DO DIREITOS DE RESPOSTA COMO CONTRAPROPAGANDA E A INTERRUPÇÃO TEMPORÁRIA
DO SINAL DA REDE TV! QUE NÃO FOI PLEITEADA INICIALMENTE PELAS ORGANIZAÇÕES
E PELO MPF, MAS OCORREU POR DESCUMPRIMENTO DE DECISÃO JUDICIAL POR PARTE
DA REDE TV! – FORAM CONSIDERADOS, POR ALGUNS, UMA DECISÃO ARBITRÁRIA,
INJUSTIFICÁVEL NUM PAÍS COM ASPIRAÇÕES DEMOCRÁTICAS. OS ACUSADORES, TEMEROSOS
COM O DESPERTAR DA SOCIEDADE BRASILEIRA PARA O USO INDEVIDO, POR PARTE DE
ALGUNS RADIODIFUSORES, DO BEM PÚBLICO ESPECTRO ELETROMAGNÉTICO, PREGAM QUE
A DECISÃO DA JUSTIÇA FOI UM ATO DE CENSURA.
PREVENDO TAL EQUÍVOCO NA INTERPRETAÇÃO DE SUA DECISÃO, A PRÓPRIA JUÍZA
ROSANA FERRI VIDOR DEIXOU CLARO, NA LIMINAR QUE CONCEDEU, QUETAL PEDIDO
NÃO IMPLICA A INTERFERÊNCIA NA LIBERDADE DE EXPRESSÃO DA EMISSORA OU DOS
PRODUTORES DO REFERIDO PROGRAMA, UMA VEZ QUE AS LIBERDADES INDIVIDUAIS DE-
VEM SER EXERCIDAS POR CADA UM DE MODO A NÃO INTERFERIR NA ESFERA DE LIBERDADE
DO OUTRO. SÃO COMO LINHAS PARALELAS, QUE DEVEM SEGUIR SEM SE ATINGIREM.
A PARTIR DO MOMENTO EM QUE UMA FERE A OUTRA, OU SEJA, QUE UM INDIVÍDUO
USA SUA LIBERDADE DE MODO QUE INTERFIRA NA ESFERA DOS DIREITOS DOS OUTROS,
HAVENDO PROVOCAÇÃO, O ESTADO JUIZ DEVE INTERFERIR”. A JUÍZA AFIRMA AINDA QUE
DIFERE A INTERFERÊNCIA DO ESTADO DE MODO A RECONDUZIR A ATUAÇÃO DE UM
INDIVÍDUO DE VOLTA À SUA ESFERA DE ATIVIDADE QUE NÃO AGRIDA A SOCIEDADE, DA
CENSURA, QUE É A ATUAÇÃO ESTATAL QUE FERE A LIBERDADE DO INDIVÍDUO QUE ATUA
DENTRO DE SUA ESFERA, SEM ATINGIR A DE OUTREM”.
MESMO DIANTE DO RECONHECIMENTO PÚBLICO DA IMPORTÂNCIA HISTÓRICA DESTA
INICIATIVA, É PERTINENTE UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE O CONTEÚDO DO PEDIDO
ACATADO PELO JUDICIÁRIO, PARA QUE NÃO RESTEM DÚVIDAS DE QUE A DECISÃO NÃO
PODE SER CONFUNDIDA COM UM ATO DE CENSURA.
BASEADA NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL, A SUSPENSÃO DO SINAL DA EMISSORA POR
APROXIMADAMENTE 25 HORAS FOI, NA VERDADE, UM ATO DE ANTICENSURA, QUE
BUSCOU ÚNICA E EXCLUSIVAMENTE GARANTIR QUE O CIDADÃOQUE HOJE TEM ACESSO
A UM ÚNICO PONTO DE VISTA, PRECONCEITUOSO E RACISTA, NO PROGRAMA DE JOÃO
KLEBERPUDESSE ASSISTIR A UMA OUTRA TELEVISÃO, QUE LHE OFERECESSE INFOR-
MAÇÕES DIVERSAS E NOVOS OLHARES NÃO SOMENTE SOBRE A QUESTÃO HOMOSSEXUAL
FOCO DA AÇÃO CIVIL –, MAS SOBRE O RESPEITO AOS DIREITOS HUMANOS COMO
UM TODO. MAIS DO QUE ISSO, A DECISÃO DA JUSTIÇA BUSCOU GARANTIR O INTERESSE
PÚBLICO SOBRE ALGO QUE PERTENCE À POPULAÇÃO: AS CONCESSÕES DE TELEVISÃO. TAL
FATO NADA MAIS REPRESENTA DO QUE A DEFESA DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO
E, PORTANTO, DA NOSSA DEMOCRACIA.
Veja a história completa
a partir da página 31
2323
O PÚBLICO NO CONTROLE
2424
O DIREITO DE EXIGIR DIREITOS
À medida que passar a compreender a comunicação como um di-
reito humano, a sociedade não apenas tende a reivindicar mecanis-
mos de controle público e social da mídia como também a tratar a
comunicação como objeto de ações de exigibilidade. Em poucas
palavras, exigibilidade signifi ca a possibilidade de os titulares de
um direito demandarem e cobrarem efetivamente as responsabili-
dades do Estado – o respeito, a proteção, a promoção e o provi-
mento – sobre determinado direito. Neste conceito, também está
incluído, além do direito de reclamar, o de ter uma resposta e ação
por parte do poder público no tempo apropriado.
É sobre este princípio que boa parte da luta pela efetivação dos di-
reitos humanos tem se baseado. Não por acaso, um número cada
vez maior de entidades tem trabalhado para popularizar e fazer
com que a sociedade se aproprie do princípio da exigibilidade
como forma de prevenir e reparar violações aos direitos humanos.
A lógica é simples: quanto mais pessoas exigirem seus direitos, de
forma organizada e constante, maior será a pressão para que o Es-
tado responda a estas demandas e cumpra seu papel, garantindo a
todos os habitantes da nação a fruição dos direitos coletivos e indi-
viduais de forma igualitária e sem qualquer tipo de impedimento.
Isso acontece, por exemplo, quando se organizam campanhas
para a aprovação de determinada lei considerada fundamental
para garantir a universalização do ensino fundamental, ou o
tratamento de determinada doença ou ainda o acesso à mora-
dia decente. Ou quando entidades da sociedade civil cobram
politicamente do Executivo a realização de um programa pú-
blico que atenda o direito à alimentação ou combata formas
de discriminação. Ou ainda, quando, diante da violação de
um direito (seja por um indivíduo, um grupo de pessoas ou o
próprio Estado), elas acionam o Judiciário.
O PÚBLICO NO CONTROLE
2525
Problemas e limites
Independentemente da forma escolhida para pressionar o Estado,
uma questão importante para a compreensão da exigibilidade é
que ela pode e deve ser aplicada em relação a qualquer direito
que seja reconhecido como tal pela sociedade
-
esteja ele for-
malmente ou não no sistema legal do país. Este é um fundamento
importante de ser ressaltado, visto que a grande maioria das ações
de exigibilidade se dá através do Judiciário e, em determinados
setores da Justiça, ainda persiste a idéia formalista e equivocada de
que um direito, para ser reconhecido como tal, precisa ter cober-
tura da Lei. Durante muito tempo, foi essa a visão que prevaleceu, por
exemplo, em relação ao direito ao meio-ambiente. Reconhecido na
sociedade, ele demorou a fazer parte do ordenamento jurídico de
muitos países, só vindo a ser reivindicado judicialmente com base
na legislação internacional, em acordos, tratados e convenções.
Outro limite imposto pela organização do Estado às ações de exigibi-
lidade é o princípio da “discricionaridade” dos três Poderes, ou seja,
a independência que Executivo, Legislativo e Judiciário têm um em
relação ao outro na hora de decidir ações prioritárias. Isso signifi ca,
por exemplo, que uma ação na Justiça que obrigue a União a contratar
técnicos para acelerar os processos de reforma agrária não será, neces-
sariamente, atendida no tempo ou mesmo na amplitude prevista na
sentença, porque o Executivo Federal pode alegar que seu orçamento
está comprometido com outras ações igualmente importantes. É por
esta razão que a exigibilidade deve ser compreendida não apenas no
seu aspecto jurídico, mas também como um processo constante de
pressão política sobre o Estado.
Uma questão que difi culta a cobrança de direitos por parte da
população é que as organizações da sociedade civil nem sempre
estão preparadas para lidar com as exigências deste processo. No
campo jurídico, uma difi culdade constante é o fato das entidades
e movimentos sociais não incluírem em seus estatutos um artigo
que permite que sejam requerentes de ações legais. Por esta razão,
a imensa maioria das ações de defesa ou reparação de direitos tem
sido levada a cabo pelo Ministério Público, algumas vezes por
demanda da sociedade civil. Se por um lado esta aproximação é
benéfi ca, porque democratiza uma instituição governamental, por
O PÚBLICO NO CONTROLE
2626
outro signifi ca que a sociedade brasileira está pouco preparada
para tomar coletivamente, em suas mãos, a cobrança pelos seus
direitos. Basta ver o enorme número de processos judiciais relacio-
nados à garantia de direitos motivado por ações individuais, como
as movidas por pessoas que exigem compensações por terem tido
difi culdade de acesso ao tratamento de uma doença.
Por um lado, estas ações ajudam a delimitar a exigibilidade do
direito, porque criam referências jurídicas sobre o que pode e
não pode ser cobrado. Este detalhe é especialmente importante
quando diz respeito aos direitos não positivados na legislação. Em
contrapartida, há efeitos colaterais signifi cativos: ações individuais
tendem a fragmentar a noção de direito (que deixa de ser com-
preendido como algo coletivo ou concernente a toda a sociedade),
rompem com o princípio da igualdade (porque podem criar dife-
rentes níveis de acesso dos cidadãos a um programa ou política
pública) e não garantem a universalização (ou seja, o atendimento
do direito de todos, em igual proporção).
A exigibilidade no campo da comunicação
Para além desses limites, as particularidades do campo da comu-
nicação oferecem desafi os específi cos à exigibilidade do direito à
comunicação. Primeiro, é preciso considerar que se trata de um
direito humano tanto individual como coletivo. Ao mesmo tempo
em que cada um tem direito a sua liberdade de expressão, há ga-
rantias coletivas em jogo quando falamos, por exemplo, da repre-
sentação de grupos nos canais de televisão, ou do acesso à Internet
por determinada comunidade ou vilarejo. Neste caso, é importante
compreender que, como todos os demais, o direito à comunicação
só se efetiva quando atendido em todos os seus aspectos, e, por
isso, ele é exigível em todas as suas dimensões.
Essa característica aponta para um segundo desafi o imposto por
nossa legislação. Hoje, o direito à comunicação está descrito na
Constituição Federal de forma ainda limitada. A Carta Magna con-
templa apenas o direito à liberdade de expressão e o acesso à
informação entre as garantias fundamentais do cidadão brasileiro,
ignorando, justamente, o aspecto coletivo do direito. Esta des cri-
ção parcial, no entanto, não deve ser impeditiva à exigibilidade do
O PÚBLICO NO CONTROLE
2727
direito como um todo – assim como acontece com os demais di-
reitos que carecem de uma especifi cação legal mais aprofundada.
Tudo aquilo que a sociedade entender como barreira à fruição do
direito à comunicação ou como política pública necessária para
sua universalização pode e deve ser exigido, até mesmo para con-
formar em termos práticos e legais os limites deste direito. Por isso,
é importante que toda a sociedade esteja mobilizada e pronta para
exigir o seu direito à comunicação, individual (quando, por exem-
plo, o conteúdo de alguma declaração que circule na mídia seja
ofensivo a alguém) e coletivamente.
Foi exatamente o que aconteceu no caso da Ação Civil Pública
contra a Rede TV! e o programa do apresentador João Kléber que
resultou na veiculação do Direitos de Resposta. No caso, como os
efeitos do conteúdo veiculado pelo Tarde Quente recaíam sobre
grupos sociais como um todo – e não somente às pessoas que
eram vítimas das “pegadinhas” – a ação trabalhou com a con-
cepção do “direito de resposta coletivo” como garantia do direito
à comunicação dessa parcela da população.
Outras ações já tinham sido levadas adiante sob o mesmo princí-
pio – como a movida pelo Ministério Público Federal e o Instituto
Nacional de Cultura e Tradição Afro-Brasileira (Intecab) contra a
Rede Record por conta da veiculação de mensagens que depre-
ciavam as religiões de origem africana nos programas evangéli-
cos apresentados pela emissora. A ação recebeu parecer favorável
em primeira instância em 2005 mas ainda enfrenta recursos. Do
mesmo modo,
NOVAS AÇÕES DE EXIGIBILIDADE FORAM INSPIRADAS APÓS a
conquista histórica do Direitos de Resposta.
Como se mostra
na pág. 61
O PÚBLICO NO CONTROLE
Luta progressiva
Importante é ressaltar que a consolidação desta idéia do direito
de resposta coletivo é parte de um processo de amadurecimento
não apenas dos instrumentos legais, mas também da compreen-
são da população sobre os seus direitos em relação à ação da mí-
2828
dia. Assim, o Direitos de Resposta e as demais ações inscrevem-se no
princípio de progressividade da realização dos direitos humanos e das
lutas reivindicatórias por eles. A Ação Civil Pública contra a Rede TV!
provavelmente não existiria se não houvesse, desde 2002, uma cam-
panha de monitoramento da mídia na qual o programa do João Kléber
gurasse seguidamente no
TOPO DOS MAIS DENUNCIADOS.
Dentro deste mesmo princípio da progressividade, pode-se dizer que
a sociedade já tem acúmulo para avançar ainda mais na exigibilidade
do direito à comunicação. Em especial, destacam-se as iniciativas que
apontam para uma expansão do campo de ação para além da questão
do conteúdo veiculado pela mídia.
Exemplo disso ocorreu no Rio Grande do Sul, quando a Associação
Americana de Juízes, em parceria com o Conselho Regional de Radio-
difusão Comunitária, questionou a atuação da Agência Nacional de
Telecomunicações (Anatel) no fechamento de emissoras comunitárias
no Estado. A Ação Civil Pública afi rma que a Anatel viola o direito à
comunicação e a democracia ao lacrar o equipamento das emissoras
e pede que a agência cumpra suas funções e publique os relatórios se-
mestrais sobre a FORMAÇÃO DE MONOPÓLIOS E OLIGOPÓLIOS na radiodifusão,
o que é vedado pela Constituição. A ação foi vitoriosa em primeira
instância – o que revogou o fechamento de várias rádios no RS –, mas
aguarda julgamento de recurso impetrado pela Anatel.
Outro caso ocorreu no fi nal de 2005, quando o Tribunal de Contas da
União (TCU) realizou auditoria sobre a não utilização do Fundo de
Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) pelo governo
federal, fato que vinha comprometendo os programas de inclusão digi-
tal. Dentre outras recomendações, o TCU determinou que o Ministério
das Comunicações deveria apresentar, no prazo máximo de 180 dias,
diagnóstico da necessidade de universalização de telecomunicações
no Brasil e apontar políticas, diretrizes e prioridades para sua aplicação,
indicando os programas governamentais que receberão os recursos.
Começa, portanto, a se fortalecer a idéia de que as demandas em re-
lação ao direito à comunicação devem estar referenciadas na exigência
de políticas públicas que modifi quem o quadro do atendimento a este
direito, individual e coletivo, em todo o país.
Veja as tabelas nas
páginas 16 e 17
Veja sobre a formação de
Oligopólios na pág. 86
O PÚBLICO NO CONTROLE
2929
O PÚBLICO NO CONTROLE
Legislação
“TODO O HOMEM TEM DIREITO À LIBERDADE DE OPINIÃO E EXPRESSÃO; ESTE DIREITO INCLUI
A LIBERDADE DE, SEM INTERFERÊNCIAS, TER OPINIÕES E DE PROCURAR, RECEBER E TRANSMITIR
INFORMAÇÕES E IDÉIAS POR QUAISQUER MEIOS, INDEPENDENTEMENTE DE FRONTEIRAS”.
ARTIGO 19 DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS (1948)
“TODA PESSOA TERÁ O DIREITO À LIBERDADE DE EXPRESSÃO; ESSES DIREITO INCLUIRÁ A LIBER-
DADE DE PROCURAR, RECEBER E DIFUNDIR INFORMAÇÕES E IDÉIAS DE QUALQUER NATUREZA,
INDEPENDENTEMENTE DE CONSIDERAÇÕES DE FRONTEIRAS, VERBALMENTE OU POR ESCRITO,
DE FORMA IMPRESSA OU ARTÍSTICA, OU POR QUALQUER MEIO DE SUA ESCOLHA”.
ARTIGO 19 DO PACTO INTERNACIONAL DE DIREITOS CIVIS E POLÍTICOS (1966).
“NÃO SE PODE RESTRINGIR O DIREITO DE EXPRESSÃO POR VIAS E MEIOS INDIRETOS, TAIS
COMO O ABUSO DE CONTROLES OFICIAIS OU PARTICULARES DE PAPEL DE IMPRENSA, DE
FREQÜÊNCIAS RADIOELÉTRICAS OU DE EQUIPAMENTOS E APARELHOS USADOS NA DIFUSÃO DE
INFORMAÇÃO, NEM POR QUAISQUER OUTROS MEIOS DESTINADOS A OBSTAR A COMUNI-
CAÇÃO E A CIRCULAÇÃO DE IDÉIAS E OPINIÕES”.
ARTIGO 13 DA CONVENÇÃO AMERICANA DE DIREITOS HUMANOS (1969).
“A LEI DEVE PROIBIR TODA PROPAGANDA A FAVOR DA GUERRA, BEM COMO TODA
APOLOGIA AO ÓDIO NACIONAL, RACIAL OU RELIGIOSO QUE CONSTITUA INCITAMENTO À
DISCRIMINAÇÃO, À HOSTILIDADE, AO CRIME OU À VIOLÊNCIA”.
ARTIGO 13 DA CONVENÇÃO AMERICANA DE DIREITOS HUMANOS (1969).
“TODA PESSOA, ATINGIDA POR INFORMAÇÕES INEXATAS OU OFENSIVAS EMITIDAS EM
SEU PREJUÍZO, POR MEIOS DE DIFUSÃO LEGALMENTE REGULAMENTADOS E QUE SE DIRI-
JAM AO PÚBLICO EM GERAL, TEM DIREITO A FAZER, PELO MESMO ÓRGÃO DE DIFUSÃO,
SUA RETIFICAÇÃO OU RESPOSTA, NAS CONDIÇÕES QUE ESTABELEÇA A LEI”.
ARTIGO 14 DA CONVENÇÃO AMERICANA DE DIREITOS HUMANOS (1969).
O PÚBLICO NO CONTROLE
2929
3030
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
Direitos de Resposta no ar
3131
O COMEÇO DA HISTÓRIA
A história a ser contada a seguir trata de um fato inédito na tele-
visão brasileira. Em outubro de 2005, o Ministério Público Fede ral
(MPF) e seis entidades da sociedade civil organizada moveram uma
AÇÃO CIVIL PÚBLICA contra a Rede TV!
1
, por conta do programa Tarde
Quente, apresentado por João Kleber
2
. O motivo eram as rei teradas
violações de direitos humanos naquele espaço, sobretudo a discrimi-
nação contra homossexuais cometidas por um quadro de ofensivas e
humilhantes “pegadinhas”. Exigiam que fosse banida a veiculação dos
conteúdos discriminatórios no programa e que houvesse, como forma
de reparação à sociedade, um período de contrapropaganda, com pro-
gramas de caráter educativo, veiculados no mesmo dia e horário anteri-
or. Pediam, ainda, uma indenização à União e a cassação da concessão
da emissora.
Não foi a primeira vez que entidades tentaram agir contra ofensas e
desrespeito às minorias na TV – mas, na grande maioria das vezes, seus
processos terminam parados na lentidão da Justiça brasileira. No dia 4
de novembro, porém, o curso de uma história que sempre privilegiou o
poder político dos “donos da mídia” mudou: o parecer da juíza federal
Rosana Ferri Vidor, da 2
a
Vara Federal de São Paulo, foi favorável.
1. No ar desde 15 de novembro de 1999, a TV Ômega Ltda (razão social da Rede TV!) tem
concessões no Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Fortaleza e Belo Horizonte.
2. Começou a carreira no rádio em 1979 e se tornou popular fazendo imitações. Trabalhou
durante 18 anos na rede Globo redigindo programas humorísticos com pequenas partici-
pações, antes de seguir como apresentador para a Rede TV!.
D
IREITO DE RESPOSTA NO AR
Parceria contra a baixaria
Reunidas em setembro de 2005 em São Paulo para a organização da
quarta edição da Semana Nacional pela Democratização da Comu-
nicação – evento com atividades e debates sobre o tema que ocorre
Saiba o que á uma
ACP na pág. 38
O COMEÇO
3232
Saiba mais
na pág 15
O que é TAC,
na pág. 38
sempre na semana de 17 de outubro –, representantes de diversas
entidades, entre elas o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação
Social, traçavam um planejamento de estratégias para a sensibilização
da sociedade e propostas práticas que viabilizassem a luta em defesa
de uma comunicação mais democrática e plural.
Uma das idéias era justamente entrar com uma ação na Justiça
contra um dos vários programas da televisão brasileira que desres-
peitam a cidadania violando diretos humanos através de quadros
de humor bastante questionáveis.
Em paralelo a esse processo, o MPF já preparava a concepção de
ação similar contra a Rede TV!, por entender como manifestações
de homofobia as ofensas e agressões cometidas nos quadros de
pegadinhas do programa Tarde Quente. Os dois programas apre-
sentados por João Kleber na emissora (Tardes Quentes e Eu Vi na
TV) apareciam, desde 2004, na lista de campeões de reclamações da
CAMPANHA QUEM FINANCIA A BAIXARIA É CONTRA A CIDADANIA, principal-
mente em função do supostamente montado “Teste de Fidelidade”,
em que maridos ou mulheres assistiam, no palco, às gravações
de seus parceiros os traindo. Por diversas vezes, o quadro exibia
cenas de agressões entre os casais. As denúncias de humilhações
vinham sendo apuradas há mais de três anos e o Ministério Pú-
blico tentava com insistência um TERMO DE AJUSTAMENTO DE CONDUTA
com a Rede TV! para suspender a exibição das pegadinhas que
violavam direitos fundamentais. Não houve resultados.
Entendendo a TV como um espaço público fundamental para a
formação de valores, em que direitos humanos devem ser pro-
movidos e não violados, juntaram-se as forças: o Intervozes e mais
cinco entidades de promoção e defesa dos direitos humanos e da
diversidade sexual – Ação Brotar pela Cidadania e Diversidade
Sexual (ABCDS); Associação da Parada do Orgulho dos Gays,
Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros de São Paulo; Associação de
Incentivo à Educação e Saúde de São Paulo (AIESSP); Centro de
Direitos Humanos (CDH); Identidade – Grupo de Ação pela Ci-
dadania Homossexual – aceitaram o desafi o de apresentar junto
ao Ministério Público, em 24 de outubro do mesmo ano, a Ação
Civil Pública que pedia a cassação da concessão da Rede TV!.
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
3333
O que dizia a Ação Civil Pública
A que não obrigas os corações humanos, ó fome maldita de ouro”
(Virgílio, Eneida II, 57)
Assim como o Pato Donald nas histórias em quadrinhos, os des-
graçados na vida real recebem a sua sova para que os espectado-
res possam se acostumar com a que eles próprios recebem”.
(Adorno e Horkheimer, Dialética do Esclarecimento)
“Queria dizer ao telespectador que mais de 22 milhões
de pessoas estão vendo a gente”
(João Kleber, durante exibição do programa Eu Vi na TV)
As frases acima abriam a Ação Civil Pública movida contra a Rede
TV! e o apresentador João Kleber, redigida pelo Procurador Re-
gional dos Direitos do Cidadão de São Paulo, Sergio Gardenghi
Suiama. A ação pedia a cassação da concessão pública usada
pela Rede TV! para violar direitos humanos em sua programação
e o pagamento pela emissora e pelo apresentador de uma indeni-
zação à sociedade por dano moral coletivo, no valor de R$ 20
milhões – cerca de 10% do faturamento bruto anual declarado
pela própria emissora. Essa indenização, que tem como princípio
reparar um dano causado a toda a população ofendida pelo tipo
de programação veiculada pelo programa, seria paga na forma de
uma multa ao Fundo de Defesa de Direitos Difusos, que fi nancia
projetos na área de promoção dos direitos humanos.
Liminarmente, a Ação Civil Pública pedia ainda que a Justiça de-
terminasse a suspensão imediata do programa e requeria, como
direito de resposta aos ofendidos, que fosse exibido, no mesmo
horário do Tarde Quente, durante 60 dias, uma programação sobre
direitos humanos e contra a discriminação por orientação sexual,
com custos arcados pela própria emissora. Tratava-se, portanto, de
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
3434
contrapropaganda – com a fi nalidade de garantir o acesso dos
titulares do direito no caso lesado àquele espaço. Assim, seria as-
segurada uma outra visão dos fatos para que os telespectadores
pudessem então formar sua opinião. Diante da falta de mecanis-
mos mais apropriados de participação social nos meios de comu-
nicação, como o direito de antena
3
, o direito de resposta coletivo
pode representar um remédio efi caz para assegurar a liberdade de
expressão de todos os setores nos meios de comunicação.
A emissora de TV é uma concessão pública e como tal deve obe-
decer preceitos estabelecidos pela Constituição Federal. Humi-
lhar pessoas comuns do povo e submetê-las ao constrangimento
é algo intolerável num Estado Democrático de Direito, que deve
assegurar o direito à igualdade. Este é um humor que não causa
riso”, afi rmou Suiama. “No caso dos homossexuais, esse tipo de
veiculação reforça uma conduta preconceituosa e homofóbica. É
uma forma de inferiorizar os homossexuais, que são as vítimas
preferenciais dos programas humorísticos. Trata-se, portanto, da
violação dos direitos de milhões de cidadãos; do direito dos teles-
pectadores não serem agredidos por sua orientação sexual e na
sua dignidade humana”, considerou o procurador.
Junto à ação, a Justiça Federal recebeu um DVD com uma com-
pilação de duas horas do quadro que fazia as tais “pegadinhas”.
Entre os programas gravados, estão cenas em que atores que repre-
sentam os homossexuais são humilhados e terminam punidos com
socos e pontapés pelos passantes. Mas não só os homossexuais são
desrespeitados pelo programa. As pessoas abordadas pelos atores
são gratuitamente chamadas de “trouxas”, “fedidos”, “aleijados”,
“cornos”, “otários”, “escrotos” e “galinhas”.
3. O direito de antena consiste na faculdade concedida a organizações não governamentais,
sindicatos e partidos políticos de usar uma parte do tempo das rádios e TVs - públicas ou
privadas - para a divulgação de suas idéias. Está previsto, por exemplo, no art. 40 da Consti-
tuição Portuguesa nos seguintes termos: “1. Os partidos políticos e as organizações sindicais,
profi ssionais e representativas das atividades econômicas, bem como outras organizações
sociais de âmbito nacional, têm direito, de acordo com a sua relevância e representatividade
e segundo critérios objetivos a defi nir por lei, a tempos de antena no serviço público de
rádio e televisão”. No art. 20, 3, da Constituição espanhola, a previsão é a seguinte: “La ley
regulará la organización y el control parlamentario de los medios de comunicación social
dependientes del Estado o de cualquier ente público y garantizará el acceso a dichos medios
de los grupos sociales y políticos signifi cativos, respetando el pluralismo de la sociedad y de
las diversas lenguas de España”. No Brasil, só há direito de antena assegurado aos partidos
políticos, por força do disposto na Lei n.º 9.096/95.
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
3535
O dia em que a TV saiu do ar
No dia 4 de novembro de 2005, veio a primeira resposta da Justiça: a
juíza federal Rosana Ferri Vidor concedeu liminar suspendendo por 60
dias a veiculação do programa Tarde Quente, permitindo sua exibição
apenas a partir do dia 5 de janeiro do próximo ano e somente depois
das 23h30. A juíza concordou com a argumentação da ação e afi rmou
na liminar que os quadros apresentados pelo humorista apresentavam
atitudes claramente depreciativas, preconceituosas e deturpadas de
estereótipos de minorias, tais como os homossexuais, idosos, mulhe-
res, pessoas com defi ciência física e crianças. Para ela, a reiteração
constante desse tipo de comportamento num meio de comunicação
de massa banalizava esse tipo de atitude e contribuía para a “dese-
ducação” da sociedade, sobretudo num horário em que milhares de
crianças e adolescentes estariam assistindo à televisão.
Rosana afi rmou ainda que no programa Tarde Quente verifi cava-se a
sistemática utilização de personagens estereotipados, comentários vulga-
res, palavreado chulo, violência e humilhações aos participantes, ridi-
cularizando minorias sociais. Pela liminar, a emissora também deveria
reservar, durante 60 dias em sua grade de programação, um horário para
a exibição de programas de contra-propaganda, começando pelo dia 14
daquele mesmo mês de novembro – portanto, dez dias depois.
Com poucos dias para a produção do primeiro programa que con-
gurava nosso direito de resposta e sem nenhuma verba assegurada,
as ORGANIZAÇÕES correram contra o tempo para preparar o mate-
rial. A solução mais imediata foi construir um letreiro simples,
como os que aparecem no horário eleitoral quando um candidato
é punido, explicando ao público todo o processo e o porquê de es-
tarmos ocupando como sociedade civil aquele espaço. Ao menos um
telespectador desavisado saberia os motivos pelos quais aquele pro-
grama estava fora do ar.
Alegando não ter sido informada ofi cialmente, a emissora transmitiu
o programa Tarde Quente normalmente nos dias seguintes à decisão
da juíza. No dia 14, um ofi cial de Justiça entregou pessoalmente à
Rede TV! o material com o primeiro programa, mas os funcionários
recusaram-se a recebê-lo.
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
Veja quem são as organi-
zações na pág 59
3636
4. Dias depois, foi acordado entre as partes que o programa mais tarde batizado de Direitos
de Resposta teria início no dia 12 de dezembro e seria transmitido das 17h às 18h.
A contra-propaganda não foi ao ar. Assim, uma ordem judicial havia
sido violada duas vezes.
Sergio Suiama redigiu, então, uma petição à juíza Rosana solici-
tando interrupção imediata do sinal da emissora. “Não se trata tão-
somente de assegurar o direito dos autores à contra-propaganda.
Trata-se, isso sim, de preservar a seriedade da função jurisdicional
do Estado brasileiro, contra a prestadora de um serviço público
delegado que se recusa a cumprir uma ordem judicial legítima e
proferida nos estritos limites da legalidade”, afi rmou Suiama.
A expectativa era grande, já que pela primeira vez a Agência Na-
cional de Telecomunicações (Anatel), acostumada a fechar com
truculência rádios comunitárias, teria de lacrar a antena de uma TV
comercial. A petição foi acatada imediatamente, houve o despa-
cho pela Justiça Federal e a Anatel lacrou a antena da emissora,
que fi cou fora do ar por mais de 24 horas. Quem ligou a televisão
na Rede TV! no dia 14, a partir das 21h, encontrou apenas uma
tela sem imagens e com chiados. Nesse dia, a emissora foi trans-
mitida apenas na TV a cabo, o que baixou seu índice de audiência
a quase zero ponto.
Por fim, o acordo
No feriado de 15 de novembro, por fi m – diante inclusive das
pressões de anunciantes que tinham tido a veiculação de suas
propagandas prejudicadas com o corte do sinal –, diretores da
Rede TV! procuraram o Ministério Público e as seis entidades sig-
natárias da Ação Civil Pública com uma proposta de acordo. Du-
rante encontro para a negociação, o clima de confl ito era claro,
mas não impeditivo. Com certa liberdade para exigir aquilo que
acreditávamos ser justo, chegamos a um resultado positivo.
Assim, a TV Ômega Ltda. teve de se comprometer a veicular, du-
rante 30 dias úteis – de 5 de dezembro a 13 de janeiro de 2006
4
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
3737
– uma série de programas sobre direitos humanos, que seriam
produzidos pelas seis entidades em conjunto com o Ministério
Público, caracterizando o direito de resposta daqueles que foram
violados e desrespeitados. Além de transmitir os programas, a emis-
sora teve de destinar R$ 200 mil para fi nanciar sua produção, e
depositar uma multa de R$ 400 mil para o Fundo de Defesa de
Direitos Difusos. A Rede TV! também assegurou não mais ofender
as pessoas nem violar os direitos humanos em sua programação e
atender à
CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA do Ministério da Justiça. Em con-
trapartida, a ação pincipal que pedia a cassação da emissora e o
pagamento de danos morais foi retirada.
E o que aconteceu com João Kleber? No dia 21 de novembro, o
segundo programa do apresentador, Eu Vi na TV, foi tirado do ar
pela Rede TV!. Segundo funcionários da própria emissora, com o
corte das pegadinhas e do teste de fi delidade, determinados pela
Justiça, sobrava pouco material. Não valia a pena manter no ar.
Em meados de dezembro, a emissora rescindiu seu contrato. Ele
alegou ter tido sua liberdade artística violada através de censura e
prometeu entrar na Justiça.
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
Saiba mais sobre clas-
sificação indicativa no
www. mj.gov.br
3838
O QUE É
UM TERMO
UM TERMO
DE AJUSTAMENTO DE CONDUTA – TAC
DE AJUSTAMENTO DE CONDUTA – TAC
É UM COMPROMISSO, FIRMADO PELAS PARTES, DE COLABORAR COM O INTERES-
SE COLETIVO, OBEDECENDO AO QUE DETERMINA A LEI. QUANDO O ACORDO
É DESCUMPRIDO, PENALIDADES, SEMPRE FIXADAS NO PRÓPRIO TERMO. O
TERMO DE AJUSTAMENTO DE CONDUTA, QUE TEM VALOR LEGAL E PODE SER
PROPOSTO POR ÓRGÃOS PÚBLICOS TAMBÉM LEGITIMADOS A PROPOR UMA ACP,
É UMA MANEIRA DE O MINISTÉRIO PÚBLICO RESOLVER CONFLITOS EXTRAJU-
DICIALMENTE, OU SEJA, SEM QUE SEJA NECESSÁRIO O AJUIZAMENTO DE AÇÃO,
TORNANDO O PROCESSO MAIS RÁPIDO E EFICAZ.
SEGUNDO O MINISTÉRIO PÚBLICO, O TAC DEVE SER PRIORIZADO EM RELAÇÃO
À AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR APRESENTAR VANTAGENS SOBRE ESTA, INCLUINDO
UMA MAIOR RAPIDEZ NA SOLUÇÃO DOS CONFLITOS.
O QUE É
UMA AÇÃO
UMA AÇÃO
CIVIL PÚBLICA - ACP
CIVIL PÚBLICA - ACP
É UM MECANISMO PROCESSUAL QUE VEM SENDO MUITO UTILIZADO PELO
MINISTÉRIO PÚBLICO E PELA SOCIEDADE CIVIL VISANDO A IMPEDIR PREJUÍZOS
AO MEIO AMBIENTE, AO CONSUMIDOR, A BENS E DIREITOS DE VALOR ARTÍSTICO,
ESTÉTICO, HISTÓRICO, TURÍSTICO E PAISAGÍSTICO DO PATRIMÔNIO PÚBLICO E
SOCIAL E A OUTROS INTERESSES DIFUSOS E COLETIVOSCOMO É O CASO DA
COMUNICAÇÃO VIA RADIODIFUSÃO.
PODE SER PROPOSTA PELO PRÓPRIO MINISTÉRIO PÚBLICO OU POR ASSOCIAÇÃO
QUE ESTEJA LEGALMENTE CONSTITUÍDA PELO MENOS UM ANO (REQUISITO
QUE EM ALGUNS CASOS PODERÁ SER DISPENSADO) E INCLUA ENTRE SUAS FINALI-
DADES A DEFESA DOS INTERESSES E DIREITOS SOCIAIS.
A AÇÃO CIVIL PÚBLICA, PREVISTA NA LEI 7.347/85, PODE OBRIGAR A OUTRA
PARTE A FAZER, DEIXAR DE FAZER OU INDENIZAR. A LEI QUE REGULAMENTA A ACP
PREVÊ A POSSIBILIDADE DE CONCESSÃO DE LIMINAR PARA QUE A DEMORA DO
PROCESSO JURISDICIONAL NÃO ATRAPALHE A CONSECUÇÃO DOS RESULTADOS.
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
38
3939
A Ação Civil Pública
CONFIRA ABAIXO PEQUENOS TRECHOS DO DOCUMENTO. A VERSÃO
COMPLETA ESTÁ DISPONÍVEL EM WWW.DIREITOSDERESPOSTA.COM.BR
A OFENSACONVÉM REPETIRCONSISTE EM CATEGORIZAR,
INFERIORIZAR E RIDICULARIZAR TODOS CUJA ORIENTAÇÃO DO
DESEJO ESTÁ VOLTADA PARA PESSOAS DO MESMO SEXO. PARA TAIS
SERES,“CUJO ÚNICO CRIME É NÃO TER OS MESMOS GOSTOS QUE
VÓS”, O PROGRAMA LEVADO AO AR PELOS RÉUS RESERVA TODA A
SORTE DE XINGAMENTOS E AGRESSÕES FÍSICAS (“BICHA ATREVIDA FAZ
PEDESTRE SE PASSAR POR GAY E APANHA”, “BICHAS FAZEM FESTA NO
BANHEIRO, IRRITAM AS PESSOAS E APANHAM”).
N
ÃO SÃO OS GAYS OS ÚNICOS A SEREM HUMILHADOS DIANTE DA
MULTIDÃO ÁVIDA POR CONSTRUIR A PRÓPRIA IMAGEM EM NEGATIVO.
T
AMBÉM PESSOAS COMUNS DO POVO SÃO VÍTIMAS DE HUMILHAÇÕES
E CONSTRANGIMENTOS NO PROGRAMA “TARDE QUENTE”. PASSANTES
SÃO GRATUITAMENTE ADJETIVADOS DETROUXAS”, “DROGAS”,
FEDIDOS”,“ALEIJADOS”, “CORNOS”, “OTÁRIOSEESCROTOS”.
I
NDAGAMOS A VOSSA EXCELÊNCIA QUE DIREITO TÊM OS RÉUS REDE
TV
E JOÃO KLEBER DE USAR UMA CONCESSÃO DO POVO PARA
ENRIQUECER À CUSTA DA HUMILHAÇÃO FEITA A PESSOAS COMUNS. O
PODER-DEVER DE EXPLORAR O SERVIÇO PÚBLICO DE RADIODIFUSÃO
(CR,
ART. 21, XII, “A”) ACASO CONFERE À CONCESSIONÁRIA O
DIREITO DE AVILTAR A BOA E A DIGNIDADE ALHEIAS,EM NOME DA
MAIS DESPREZÍVEL DAS AMBIÇÕES? COMO EM QUALQUER OUTRA
CONCESSÃO, NÃO NORMAS DE OBSERVÂNCIA OBRIGATÓRIA PELA
EMPRESA QUE EXPLORA O SERVIÇO?
NÃO RESTOU AO MINISTÉRIO PÚBLICO, PORTANTO, OUTRO MEIO
SENÃO VIR A JUÍZO PEDIR A AÇÃO PROTETORA DO ESTADO EM
DEFESA DOS MAIS ALTOS VALORES DESTA REPÚBLICA.
COMO SE SABE, O ARTIGO 5º, CAPUT, DA CONSTITUIÇÃO DECLARA O
DIREITO GERAL DE IGUALDADE NOS SEGUINTES TERMOS: “TODOS SÃO
IGUAIS PERANTE A LEI, SEM DISTINÇÃO DE QUALQUER NATUREZA”.
T
ALVEZ NEM SEJA PRECISO LEMBRAR QUE O ARTIGO 3°, INCISO IV, DA
C
ONSTITUIÇÃO ESTABELECE, COMO OBJETIVO FUNDAMENTAL DA REPÚBLICA,
A PROMOÇÃO DO BEM DE TODOS “SEM PRECONCEITOS DE ORIGEM, RAÇA,
SEXO, COR, IDADE E QUAISQUER OUTRAS FORMAS
DE DISCRIMINAÇÃO.”
39
4040
A BUSCA DOS AUTORES É PELO RECONHECIMENTO DO DIREITO DE
MILHÕES DE BRASILEIROS A UMA PROGRAMAÇÃO TELEVISIVA QUE
RESPEITE OS DIREITOS FUNDAMENTAIS.
O
DIREITO AQUI INVOCADO É DE NATUREZA INDIVISÍVEL TAMBÉM
POR OUTRO MOTIVO: FUNDA-SE NO PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE
COMO DEVER JURÍDICO FUNDAMENTAL. A DISCRIMINAÇÃO E AS
HUMILHAÇÕES EXIBIDAS PELOS RÉUS NÃO ATINGEM APENAS UM OU
OUTRO INDIVÍDUO OU GRUPO SOCIAL. OS LESADOS SOMOS TODOS.
O
U O ESTADO BRASILEIRO CONTINUA A ASSISTIR PASSIVAMENTE AO
FESTIVAL DE VIOLAÇÕES A DIREITOS FUNDAMENTAIS PATROCINADOS
PELA REDE TV!, OU ENTÃO, CORAJOSAMENTE, OBRIGA A EMISSORA
A CUMPRIR AS NORMAS DE DIREITO PÚBLICO QUE INCIDEM SOBRE A
CONCESSÃO, FAZENDO CESSAR, IMEDIATAMENTE, OS PRECONCEITOS E
OFENSAS EXIBIDOS PELO PROGRAMA “TARDE QUENTE”.
A
SUSPENSÃO DEFINITIVA DA VEICULAÇÃO DO PROGRAMA E DE SUAS
FAMIGERADASPEGADINHASÉ MEDIDA IMPRESCINDÍVEL, PORÉM
INSUFICIENTE PARA COMBATER O MAL CAUSADO PELA REPETIÇÃO,
DURANTE ANOS, DAS MENSAGENS PRECONCEITUOSAS E OFENSIVAS
TRANSMITIDAS PELOS RÉUS.
É
OBRIGATÓRIO, TAMBÉM, PROPICIAR O QUE JORGE MIRANDA
DENOMINOU DEPLURALISMO INTERNO”, ISTO É, A “ POSSIBILIDADE
DE EXPRESSÃO E CONFRONTO DAS DIVERSAS CORRENTES DE OPINIÃO
TOMANDO OPINIÃO NO SENTIDO MAIS AMPLO PARA ABARCAR QUER
A OPINIÃO POLÍTICA QUER A RELIGIOSA E FILOSÓFICA” – NO INTERIOR
DA PRÓPRIA EMISSORA.
D
URANTE ANOS OS DOIS PRIMEIROS RÉUS VÊM SE VALENDO DA
OMISSÃO DO PODER CONCEDENTE PARA DISSEMINAR MENSAGENS
DE INTOLERÂNCIA E PRECONCEITO. SERIA INJUSTO PERMITIR QUE
A EMISSORA EM QUESTÃO SIMPLESMENTE SUBSTITUA O PROGRAMA
T
ARDE QUENTE POR OUTRO DO MESMONÍVEL”, SEM QUE
SEJA ASSEGURADO À SOCIEDADE CIVIL ORGANIZADA O DIREITO
DE, AO MENOS DURANTE ALGUMAS SEMANAS, FAZER A DEVIDA
CONTRAPROPAGANDA, DE FORMA A PERMITIR QUE O PÚBLICO FORME
SUAS CONVICÇÕES A PARTIR DO CONFRONTO DE IDÉIAS, E NÃO DO
MONÓLOGO DA EMISSORA.
4141
DECISÃO LIMINAR
Confi ra abaixo pequenos trechos do documento. A versão completa
está disponível em www.direitosderesposta.com.br
“N
ÃO SE TRATA DE HUMOR LÚDICO, MAS VISA ALCANÇAR O RISO DAQUELE QUE O
ASSISTE ATRAVÉS DO ESCÁRNIO. ESCÁRNIO, NO DICIONÁRIO AURÉLIO, REMETE AO
VERBETEZOMBARIA”, QUE TEM COMO DEFINIÇÃOA MANIFESTAÇÃO INTENCIONAL,
MALÉVOLA, IRÔNICA OU MALICIOSA, POR MEIO DO RISO, DE PALAVRAS, ATITUDES
OU GESTOS, COM QUE SE PROCURA LEVAR AO RIDÍCULO OU EXPOR AO DESDÉM OU
MENOSPREZO UMA PESSOA, INSTITUIÇÃO, COISA ETC, E ATÉ OS SENTIMENTOS’”.
“T
AL PEDIDO NÃO IMPLICA A INTERFERÊNCIA NA LIBERDADE DE EXPRESSÃO DA
EMISSORA OU DOS PRODUTORES DO REFERIDO PROGRAMA, UMA VEZ QUE AS
LIBERDADES INDIVIDUAIS DEVEM SER EXERCIDAS POR CADA UM DE MODO A NÃO
INTERFERIR NA ESFERA DE LIBERDADE DO OUTRO. SÃO COMO LINHAS PARALELAS,
QUE DEVEM SEGUIR SEM SE ATINGIREM. A PARTIR DO MOMENTO EM QUE UMA
FERE A OUTRA, OU SEJA, QUE UM INDIVÍDUO USA DE SUA LIBERDADE DE MODO
QUE INTERFIRA NA ESFERA DOS DIREITOS DOS OUTROS, HAVENDO PROVOCAÇÃO,
O ESTADO JUIZ DEVE INTERFERIR
“D
IFERE A INTERFERÊNCIA DO ESTADO DE MODO A RECONDUZIR A ATUAÇÃO DE UM
INDIVÍDUO DE VOLTA À SUA ESFERA DE ATIVIDADE QUE NÃO AGRIDA A SOCIEDADE,
DA CENSURA, QUE É A ATUAÇÃO ESTATAL QUE FERE A LIBERDADE DO INDIVÍDUO
QUE ATUA DENTRO DE SUA ESFERA, SEM ATINGIR A DE OUTREM.”
“A
REITERAÇÃO DA DEMONSTRAÇÃO DESSE TIPO DE COMPORTAMENTO, EM MEIO
DE COMUNICAÇÃO DE MASSA, CRIA, EM QUEM ASSISTE, A BANALIZAÇÃO DESSA
ATITUDE, ALÉM DA CONVICÇÃO DE QUE NÃO EXISTE UM ERRO EM AGIR-SE DESSA
FORMA. EFETUADESEDUCAÇÃODA SOCIEDADE. TAL NÃO SE PODE ADMITIR,
AINDA MAIS EM HORÁRIO EM QUE MILHÕES DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES TÊM
ACESSO A ESSAS INFORMAÇÕES.”
“A
S EMISSORAS DE TELEVISÃO, AO SE UTILIZAREM DE CONCESSÃO ESTATAL PARA
O EXERCÍCIO DE SUAS ATIVIDADES, DEVEM TER COMO VETOR DE ORIENTAÇÃO
NA CONSECUÇÃO DE SEUS OBJETIVOS, NÃO O LUCRO FÁCIL, MAS TAMBÉM A
CONSCIÊNCIA DE FORMAÇÃO EDUCACIONAL, MORAL E CÍVICA DA POPULAÇÃO
QUE A ASSISTE
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
41
4242
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
MUITAS VOZES NA TV
O acordo assinado no dia 15 de novembro de 2005 com a Rede TV!
criou um fato inédito na história do país: entidades e movimentos
sociais que defendem e promovem os direitos humanos ocupariam,
por 30 dias, o espaço de uma emissora de TV comercial, de trans-
missão nacional, para exercerem seu legítimo direito de resposta.
Seria produzido um programa diário, com uma hora de duração. O
prazo pra colocá-lo no ar: 20 dias. Taquicardia. Nenhuma das enti-
dades signatárias da ação praticava a produção audiovisual. Como
aquele espaço seria ocupado? O que veicular em 30 horas na TV
aberta? Estávamos diante de uma grande oportunidade e também
de um grande desafi o.
De antemão, havia a decisão de que aquele espaço seria usado
para defender e promover os direitos humanos. Ali se poderia
cons truir uma mídia mais plural e diversa. Seria um lugar onde
todos caberíamos; um lugar para atores e vozes pouco ouvidas
nos meios de comunicação. Seria também um espaço para a
veiculação da rica produção audiovisual independente que rara-
mente encontra espaço na TV aberta.
Queríamos realizar a televisão que sempre desejamos ver como
telespectadores. Produções criativas e diversifi cadas, de diferentes
regiões e origens, dos mais diversos formatos e linguagens, abor-
dando os mais variados assuntos. Para que todos tivessem a pos-
sibilidade de conhecer novos lugares, costumes, vozes, idéias e
pontos de vista.
Não é novidade que muito do que se produz em vídeo Brasil afora
NÃO TEM ESPAÇO DE EXIBIÇÃO. Algumas iniciativas da sociedade civil
no âmbito da comunicação já haviam apontado para um quadro
de demanda reprimida. Um exemplo é o Fórum de TVs, projeto
de uma Central Pública Audiovisual que nasceu no âmbito do
Fórum Social Mundial. O Intervozes havia participado do proces-
so de construção do Fórum de TVs e conhe cia o incrível potencial
criativo de realizadores independentes, TVs comunitárias e uni-
versitárias, movimentos sociais e ativistas. Sabíamos também da
difi culdade em distribuir e exibir este material para além de suas
comunidades, escolas ou redes.
Sobre esse tema, veja
artigo na pág. 47
4343
Muitas vezes, afoitos por uma oportunidade, vencendo com difi cul-
dades a falta de apoio para a produção, estes realizadores esbar-
ram na falta de interlocutores. Com exceção de festivais e algumas
iniciativas isoladas da programação a cabo, a dura verdade é que a
maior parte das produções independentes não consegue a contra-
cena. Lançam mensagens na garrafa à espera de uma oportunidade
de exibição. Não exercem em sua plenitude o seu direito humano
à comunicação: criam discursos, inovam esteticamente, produzem,
mas, salvo poucas exceções, ecoam em gavetas e arquivos.
Havia, portanto, um verdadeiro e plural exército silenciado, ca-
paz de resistir através da arte, de produzir e criar alternativas
audiovisu ais na contra-mão da estética e do conteúdo hegemô-
nicos. Um continente de pensamentos capazes de romper com
o discurso único e monológico de nosso tempo. As seis ONGs
signatárias da Ação Civil Pública e o Ministério Público tinham,
portanto, nas mãos a oportunidade de abrir uma janela para esta
diversidade na televisão comercial – um espaço, como já dito,
público, que pertence a todos.
Mosaico midiático
Poucos dias depois do acordo, foi lançado um CHAMADO NACIONAL
à sociedade civil organizada e aos realizadores audiovisuais inde-
pendentes, para que enviassem suas produções. “A ocupação desse
horário na TV é uma vitória de todos os defensores dos direitos
humanos e esta carta é um convite para que a sua entidade par-
ticipe desta ocupação conosco, para mostrarmos ao telespectador
brasileiro que é possível fazer programas de TV de qualidade, sem
baixaria, e que refl itam a diversidade e a pluralidade do Brasil. Se
você ou sua organização tem documentários, entrevistas, debates
ou qualquer outra produção para TV que aborde a temática dos di-
reitos humanos, entre em contato conosco.” Para produzir o organi-
zar esse processo, foi formado um Conselho Editorial – composto
por representantes das seis ONGs e do Ministério Público.
Apesar do pouco tempo e das limitações do chamado, que circulou
somente na Internet, as produções começaram a chegar. Às dúzias,
de todos os tipos, formatos, de todos os cantos: material sufi ciente
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
Veja o chamado
completo na pág. 48
4444
Veja lista dos produtores
na pág. 50
para meses de programação. Em um mês, foram enviados mais de
400 vídeos, de aproximadamente 200 diferentes fontes pro-
dutoras em todo o país. Do interior do Ceará a Porto Alegre. De
movimentos sociais, centros culturais, ONGs, prefeituras, universi-
dades e institutos. Feitos por militantes, mulheres, crianças, jovens,
jornalistas e artistas, índios, negros e homossexuais.
Desde a fi cção “Para que time ele joga”, sobre confl itos de um
jovem homossexual até o documentário que denuncia o desgaste do
solo no cultivo monocultor do eucalipto, “Cruzando o Deserto Verde”.
Produzidas por instituições como o Centro de Cultura Luiz Freire, de
Pernambuco; a Fundação Oswaldo Cruz, do Rio de Janeiro; o Instituto
Paulo Freire, de São Paulo; o Conselho Indigenista Missionário (CIMI).
As
PRODUÇÕES vinham também de coletivos como o Centro de Mídia
Independente e as Loucas de Pedra Lilás. Alguns programas chega-
ram de canais universitários, como a TVPUC e TV UNICSUL. Também
foram vários os vídeos produzidos por órgãos públicos, como o Minis-
t é rio Público do Trabalho, a Secretaria Municipal de Assistência Social
de Colatina (ES), a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. E, é claro,
produções bastante experimentais, como o vídeo mineiro “Jardim de
Lírios” e a experiência cearense do “Memorial do Homem do Kariri”
A grande preocupação do Conselho Editorial foi com o tratamento
dado à seleção destes materiais. A dúvida vinha da tensão exis tente no
equilíbrio entre se mediar a ocupação do espaço e entre fi gurarmos
como juízes do que deveria ou não ser exibido. Como assistir a uma
obra sem juízo de valor, sem colocar a lente do que individualmente
consideramos bom esteticamente e ideologicamente? Como sairmos
dos valores hegemônicos que nos formam o gosto e o olhar?
Alguns critérios para a exibição foram estabelecidos: o recorte
foi temático (necessariamente, os vídeos deveriam tratar de direi-
tos humanos), jurídico (os vídeos deveriam vir acompanhados do
termo de cessão de direito autoral) e de qualidade técnica (sem
problemas graves de som e imagem). O que passasse nesta se-
leção iria ao ar, já que difi cilmente veríamos na TV comercial um
documentário sobre direitos sexuais e reprodutivos das mulhe res
negras; ou a história da ocupação de um prédio contada pelo
próprio movimento de moradia; ou mesmo um vídeo feito por
jovens da periferia de São Paulo ou produzido por crianças do
sertão do nordeste sobre a importância de se fazer comuni-
cação comunitária.
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
4545
No entanto, diante da quantidade de vídeos recebidos, não seria
possível exibir todos na íntegra. Seriam necessários meses e mais
meses de programa. A opção foi então incluir o máximo possível
de diferentes produções que, somadas, construíssem uma repre-
sentação midiática dos anseios e opiniões dos mais distintos gru-
pos sociais brasileiros. Para contemplar a maioria dos realizadores,
seriam selecionados trechos dessas produções, que seriam “cos-
turados” com debates em estúdio acerca dos diferentes direitos
humanos abordados, diariamente, no programa.
Foi uma ocupação democrática, diversa e plural da televisão bra-
sileira. Ocupação que deu voz a pessoas, temas e formatos que
não têm vez no cenário atual da mídia brasileira. Mas que reafi r-
mou o fato de que os 30 capítulos do nosso programa seriam in-
sufi cientes para atender a toda a demanda reprimida por anos de
exclusão. A vitória obtida pelo acordo era parcial em termos de
espaço, mas a partir dali poderia se criar um movimento para a
ocupação permanente da televisão aberta.
Brincando com o termo jurídico presente na Ação Civil Pública e
com o desejo de colocar no ar um programa que promovesse os
direitos humanos, em todos os seus aspectos, nascia o nome do
programa: Direitos de Resposta.
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
4646
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
46
46
4747
A vez da produção independente e regional
1
A PUJANÇA DO SETOR AUDIOVISUAL NA ECONOMIA DOS PAÍSES DESENVOLVIDOS É SINTOMA
DE O QUANTO ESTE CAMPO É LEVADO A SÉRIO. NOS ESTADOS UNIDOS, POR EXEMPLO, O
SETOR ECONÔMICO MAIS IMPORTANTE É JUSTAMENTE A ECONOMIA DA CULTURA E DO AUDIO-
VISUAL. NO BRASIL, AO IGNORAR A DEMANDA REPRIMIDA POR VEICULAÇÃO DE DIFERENTES
FONTES DE PRODUÇÃO AUDIOVISUAL (ESPECIALMENTE A INDEPENDENTE E REGIONAL), DES-
PERDIÇAMOS UMA OPORTUNIDADE DE PROMOVER O DESENVOLVIMENTO DE UM SETOR QUE É
MUITO IMPORTANTE E PODE GERAR MAIS EMPREGOS QUALIFICADOS EM MÉDIO PRAZO.
ESTE DEBATE É IGNORADO PORQUE TOCA NO MODELO DE EXPLORAÇÃO DA TELEVISÃO ABERTA
NO PAÍS, QUE, SE SEGUIR COMO ESTÁ, PODE MANTER O BRASIL COMO REFÉM DE UMA PRO-
GRAMAÇÃO HOMOGENEIZADA, BASEADA EM MATERIAL IMPORTADO E PRODUZIDO QUASE QUE
EXCLUSIVAMENTE NAS PRÓPRIAS EMISSORAS. A DIGITALIZAÇÃO SERIA UMA OPORTUNIDADE
IMPORTANTE PARA REVERTER ESTE QUADRO; NO ENTANTO, O GOVERNO BRASILEIRO SINALIZA
EM OUTRO CAMINHO.
É IMPORTANTE LEMBRAR QUE, DESDE QUE EXISTEM, AS EMISSORAS NÃO DÃO ESPAÇO NEM
PARA 5% DO QUE O PAÍS PRODUZ. NO ANO PASSADO, A TV BRASILEIRA EXIBIU SOMENTE UM
DOS 45 FILMES PRODUZIDOS NACIONALMENTE. O PAÍS AINDA POSSUI OUTRA DISTORÇÃO:
A MAIORIA DAS EMISSORAS, EM VEZ DE ABRIR ESPAÇOS PARA NOVOS PROJETOS OU COMPRAR
PRODUÇÕES INDEPENDENTES, ACABA VENDENDO ESPAÇO NA GRADE DE PROGRAMAÇÃO PARA
IGREJAS E PROMOTORES DE VENDA.
DIVERSIFICAR PARA DESENVOLVER
PARA OS MOVIMENTOS QUE LUTAM PELA DEMOCRATIZAÇÃO DAS COMUNICAÇÕES, A SAÍDA
É APOSTAR NA VEICULAÇÃO DESTA PRODUÇÃO, INCENTIVANDO A FRUIÇÃO DOS BENS CUL-
TURAIS POR TODA A POPULAÇÃO E, CONSEQÜENTEMENTE, O DESENVOLVIMENTO DO SETOR
AUDIOVISUAL NO PAÍS. O DINAMISMO DESSA INDÚSTRIA DEPENDE DA CRIAÇÃO DE NOVOS
INSTRUMENTOS LEGAIS PARA O SETOR, QUE CONTEMPLEM PRECEITOS CONSTITUCIONAIS COMO
O ESTÍMULO À PROGRAMAÇÃO REGIONAL E À VEICULAÇÃO DA PRODUÇÃO INDEPENDENTE
BRASILEIRA NAS EMISSORAS PÚBLICAS E COMERCIAIS.
A OPÇÃO APRESENTADA NÃO É NOVA, E A RESISTÊNCIA A ELA, TAMBÉM NÃO. DESDE 1991,
TRAMITA NO CONGRESSO UM PROJETO DE LEI (PL 59/2003) QUE OBRIGA AS EMISSORAS
A VEICULAREM PERCENTUAIS VARIÁVEIS DE PROGRAMAÇÃO REGIONALIZADA, DEVENDO UMA
PARTE DELA SER INDEPENDENTE. A PROPOSTA SEGUE CONGELADA NO SENADO A PEDIDO DAS
EMISSORAS, QUE AFIRMAM NÃO HAVER ALTERNATIVA AO MODELO DE PRODUÇÃO CONCEN-
TRADA NAS CABEÇAS-DE-REDE.
MESMO CONTRA A LÓGICA DE MERCADO, SEM INCENTIVO NEM APOIO (AFINAL, COMO IN-
VESTIR SABENDO QUE NÃO COMO ESCOAR A PRODUÇÃO?), A PRODUÇÃO DESCENTRALI-
ZADA CRESCE, SENDO O CAMINHO MAIS CURTO PARA DESENVOLVER O SETOR AUDIOVISUAL
BRASILEIRO. AS EMISSORAS DE TV, EM SUA POLARIZAÇÃO COM AS COMPANHIAS DE TELE-
COMUNICAÇÕES, TENTAM NOS FAZER CRER QUE A DEFESA DE SEUS INTERESSES É A DEFESA
DO INTERESSE NACIONAL. MAS AO MANTER UM MERCADO FECHADO E COM ESSAS ENORMES
BARREIRAS DE ENTRADA, O BRASIL SUFOCA A SUA PRÓPRIA CULTURA.
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
47
1. Artigo de Jonas Valente, Michelle Prazeres e Diogo Moysés, membros do Intervozes.
4848
48
O chamado por produções
“Direitos de Resposta” na Rede TV!
CAROS E CARAS COLEGAS DE TODO O BRASIL,
COMO MUITOS DE VOCÊS SABEM, A JUSTIÇA BRASILEIRA DETERMINOU A INTERRUPÇÃO DO
PROGRAMA TARDES QUENTES, DO APRESENTADOR JOÃO KLÉBER, VEICULADO DIARIAMENTE PELA
REDE TV!. O PROGRAMA EXIBIAPEGADINHASQUE HUMILHAVAM PESSOAS E REFORÇAVAM O
PRECONCEITO CONTRA HOMOSSEXUAIS.
APÓS A EMISSORA DESCUMPRIR A DETERMINAÇÃO JUDICIAL QUE ORDENAVA A EXIBIÇÃO DE PRO-
GRAMAS DE DIREITOS HUMANOS NO MESMO ESPAÇO OCUPADO PELO APRESENTADOR, A JUSTIÇA
ORDENOU A INTERRUPÇÃO DO SINAL DA EMISSORA, PELO PRAZO DE 48 HORAS. A MEDIDA FOI
CUMPRIDA NA NOITE DO DIA 14 DE NOVEMBRO. NO DIA SEGUINTE, A EMISSORA SE DISPÔS A
NEGOCIAR COM OS AUTORES DA AÇÃO PARA CONSEGUIR O RETORNO DAS SUAS TRANSMISSÕES.
CELEBRAMOS, ENTÃO, ACORDO JUDICIAL HISTÓRICO, PELO QUAL A REDE TV! SE COMPROME-
TE, DENTRE OUTRAS COISAS, A EXIBIR, A TÍTULO DE CONTRAPROPAGANDA, 30 PROGRAMAS DE
DIREITOS HUMANOS PRODUZIDOS PELAS ORGANIZAÇÕES AUTORAS, QUE IRÃO AO AR ENTRE OS
DIAS 05 DE DEZEMBRO E 13 DE JANEIRO DE 2006, DAS 17H ÀS 18H, EM REDE NACIONAL, SEM
INTERVALOS COMERCIAIS.
ESTA É A RAZÃO DESTE COMUNICADO. A OCUPAÇÃO DESSE HORÁRIO NA TV É UMA VITÓRIA DE
TODOS OS DEFENSORES DOS DIREITOS HUMANOS E ESTA CARTA É UM CONVITE PARA QUE A SUA
ENTIDADE PARTICIPE DESTA OCUPAÇÃO CONOSCO, PARA MOSTRARMOS AO TELESPECTADOR BRA-
SILEIRO QUE É POSSÍVEL FAZER PROGRAMAS DE TV DE QUALIDADE, SEM BAIXARIA, E QUE REFLITAM
A DIVERSIDADE E A PLURALIDADE DO BRASIL.
SE VO OU SUA ORGANIZAÇÃO TEM DOCUMENTÁRIOS, ENTREVISTAS, DEBATES OU QUALQUER
OUTRA PRODUÇÃO PARA TV QUE ABORDE A TEMÁTICA DOS DIREITOS HUMANOS, ENTRE EM
CONTATO CONOSCO. VAMOS CONSTRUIR O “DIREITOS DE RESPOSTAA PARTIR DE PROGRAMAS
AUDIOVISUAIS PRODUZIDOS PELA SOCIEDADE, QUE TRATEM DE TEMAS DE DIREITOS HUMANOS
TAIS COMO DIVERSIDADE CULTURAL, REFORMA AGRÁRIA, TRABALHO ESCRAVO, IGUALDADE RACIAL,
DE GÊNERO E ORIENTAÇÃO SEXUAL, EXCLUSÃO SOCIAL, VIOLÊNCIA, CRIANÇA E ADOLESCENTE,
EDUCAÇÃO, SAÚDE, DEMOCRACIA, ENTRE OUTROS.
COMO VAMOS AO AR A PARTIR DO DIA 5 DE DEZEMBRO, O PRAZO PARA O RECEBIMENTO
DESTES MATERIAIS É O DIA 28 DE NOVEMBRO (SEGUNDA-FEIRA). NÃO SERÃO CONSIDERADAS AS
PRODUÇÕES ENVIADAS APÓS ESTA DATA DE POSTAGEM. O MATERIAL RECEBIDO SERÁ SELECIONA-
S
AIBA
COMO
A
SUA
ORGANIZAÇÃO
PODE
PARTICIPAR
!
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
4949
49
DO POR UM COMITÊ FORMADO PELO MINISTÉRIO PÚBLICO E PELAS ENTIDADES QUE ASSINARAM
A AÇÃO CIVIL PÚBLICA QUE RESULTOU NO DIREITO DE RESPOSTA. SÃO ELAS: AÇÃO BROTAR PELA
CIDADANIA E DIVERSIDADE SEXUAL (ABCDS), ASSOCIAÇÃO DA PARADA DO ORGULHO DOS
GAYS, LÉSBICAS, BISSEXUAIS E TRANSGÊNEROS DE SÃO PAULO, ASSOCIAÇÃO DE INCENTIVO À
EDUCAÇÃO E SAÚDE DE SÃO PAULO (AIESSP), CENTRO DE DIREITOS HUMANOS (CDH),
I
DENTIDADE - GRUPO DE AÇÃO PELA CIDADANIA HOMOSSEXUAL E INTERVOZES - COLETIVO
BRASIL DE COMUNICAÇÃO SOCIAL.
N
ÃO COMO GARANTIR QUE TODO MATERIAL ENVIADO SERÁ EXIBIDO, DEVIDO ÀS LIMITAÇÕES
DE TEMPO A SEREM RESPEITADAS. A QUALIDADE DAS PRODUÇÕES, PRINCIPALMENTE DE SOM E
IMAGEM, SERÁ UM DOS CRITÉRIOS DE SELEÇÃO. JUNTO COM AS FITAS, É NECESSÁRIO QUE SEJAM
ENVIADAS AS SEGUINTES INFORMAÇÕES DE CADA PROGRAMA:
T
ÍTULO - SINOPSE BÁSICA - FORMATO SUPORTE - DURAÇÃO (NO CASO DE PROGRAMAS MAIS
LONGOS, É FUNDAMENTAL QUE O TRECHO SELECIONADO SEJA INDICADO COM O RESPECTIVO
TIME CODE, DURAÇÃO DO BLOCO E DURAÇÃO TOTAL DO PROGRAMA) - ANO DA PRODUÇÃO
- R
EALIZADORES
TAMBÉM É IMPRESCINDÍVEL O ENVIO DE DUAS VIAS DO TERMO DE CESSÃO DE DIREI-
TOS AUTORAIS (EM ANEXO) ASSINADO POR UM REPRESENTANTE DA ENTIDADE OU DO PRODUTOR
INDEPENDENTE. NÃO HAVERÁ NENHUMA FORMA DE REMUNERAÇÃO POR ESSAS PRODUÇÕES.
TODAS SERÃO UTILIZADAS EXCLUSIVAMENTE PELO “DIREITOS DE RESPOSTA”.
O
S VÍDEOS DEVEM SER ENVIADOS NOS FORMATOS BETACAM, DVCAM OU MINI DV (FITAS
VHS NÃO SERÃO CONSIDERADAS EM FUNÇÃO DA BAIXA QUALIDADE PARA REPRODUÇÃO) PARA
O ENDEREÇO:
I
NTERVOZES - COLETIVO BRASIL DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
RUA REGO FREITAS, 454, 8º ANDAR
CEP 01220-010, VILA BUARQUE - SÃO PAULO, SP
AS ENTIDADES OU PRODUTORES QUE SOLICITAREM O MATERIAL DE VOLTA TERÃO SUAS PRODUÇÕES
DEVOLVIDAS ATÉ O DIA 31 DE JANEIRO DE 2006. OS VÍDEOS RESTANTES SERÃO UTILIZADOS
PARA A FORMAÇÃO DE UMA VIDEoteca que funcionará como um centro de referên-
cia de produções audiovisuais relacionadas aos direitos humanos.
QUALQUER DÚVIDA, ESCREVAM OU LIGUEM PRA GENTE:
DIREITOSDERESPOSTA@INTERVOZES.ORG.BR
ESPERAMOS AS SUAS PRODUÇÕES E CONTAMOS COM SUA COLABORAÇÃO
PARA OCUPARMOS ESTE ESPAÇO TÃO IMPORTANTE PARA A SOCIEDADE BRASILEIRA.
UM GRANDE ABRAÇO,
AÇÃO BROTAR PELA CIDADANIA E DIVERSIDADE SEXUAL (ABCDS)
ASSOCIAÇÃO DA PARADA DO ORGULHO DOS GAYS, LÉSBICAS, BISSEXUAIS E TRANSGÊNEROS DE SÃO PAULO
ASSOCIAÇÃO DE INCENTIVO À EDUCAÇÃO E SAÚDE DE SÃO PAULO (AIESSP)
CENTRO DE DIREITOS HUMANOS (CDH)
IDENTIDADE - GRUPO DE AÇÃO PELA CIDADANIA HOMOSSEXUAL
INTERVOZES - COLETIVO BRASIL DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
49
DO POR UM COMITÊ FORMADO PELO MINISTÉRIO PÚBLICO E PELAS ENTIDADES QUE ASSINARAM
A AÇÃO CIVIL PÚBLICA QUE RESULTOU NO DIREITO DE RESPOSTA. SÃO ELAS: AÇÃO BROTAR PELA
CIDADANIA E DIVERSIDADE SEXUAL (ABCDS), ASSOCIAÇÃO DA PARADA DO ORGULHO DOS
GAYS, LÉSBICAS, BISSEXUAIS E TRANSGÊNEROS DE SÃO PAULO, ASSOCIAÇÃO DE INCENTIVO À
EDUCAÇÃO E SAÚDE DE SÃO PAULO (AIESSP), CENTRO DE DIREITOS HUMANOS (CDH),
I
DENTIDADE - GRUPO DE AÇÃO PELA CIDADANIA HOMOSSEXUAL E INTERVOZES - COLETIVO
BRASIL DE COMUNICAÇÃO SOCIAL.
N
ÃO COMO GARANTIR QUE TODO MATERIAL ENVIADO SERÁ EXIBIDO, DEVIDO ÀS LIMITAÇÕES
DE TEMPO A SEREM RESPEITADAS. A QUALIDADE DAS PRODUÇÕES, PRINCIPALMENTE DE SOM E
IMAGEM, SERÁ UM DOS CRITÉRIOS DE SELEÇÃO. JUNTO COM AS FITAS, É NECESSÁRIO QUE SEJAM
ENVIADAS AS SEGUINTES INFORMAÇÕES DE CADA PROGRAMA:
T
ÍTULO - SINOPSE BÁSICA - FORMATO SUPORTE - DURAÇÃO (NO CASO DE PROGRAMAS MAIS
LONGOS, É FUNDAMENTAL QUE O TRECHO SELECIONADO SEJA INDICADO COM O RESPECTIVO
TIME CODE, DURAÇÃO DO BLOCO E DURAÇÃO TOTAL DO PROGRAMA) - ANO DA PRODUÇÃO
- R
EALIZADORES
TAMBÉM É IMPRESCINDÍVEL O ENVIO DE DUAS VIAS DO TERMO DE CESSÃO DE DIREI-
TOS AUTORAIS (EM ANEXO) ASSINADO POR UM REPRESENTANTE DA ENTIDADE OU DO PRODUTOR
INDEPENDENTE. NÃO HAVERÁ NENHUMA FORMA DE REMUNERAÇÃO POR ESSAS PRODUÇÕES.
TODAS SERÃO UTILIZADAS EXCLUSIVAMENTE PELO “DIREITOS DE RESPOSTA”.
O
S VÍDEOS DEVEM SER ENVIADOS NOS FORMATOS BETACAM, DVCAM OU MINI DV (FITAS
VHS NÃO SERÃO CONSIDERADAS EM FUNÇÃO DA BAIXA QUALIDADE PARA REPRODUÇÃO) PARA
O ENDEREÇO:
I
NTERVOZES - COLETIVO BRASIL DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
RUA REGO FREITAS, 454, 8º ANDAR
CEP 01220-010, VILA BUARQUE - SÃO PAULO, SP
AS ENTIDADES OU PRODUTORES QUE SOLICITAREM O MATERIAL DE VOLTA TERÃO SUAS PRODUÇÕES
DEVOLVIDAS ATÉ O DIA 31 DE JANEIRO DE 2006. OS VÍDEOS RESTANTES SERÃO UTILIZADOS
PARA A FORMAÇÃO DE UMA VIDEoteca que funcionará como um centro de referên-
cia de produções audiovisuais relacionadas aos direitos humanos.
QUALQUER DÚVIDA, ESCREVAM OU LIGUEM PRA GENTE:
DIREITOSDERESPOSTA@INTERVOZES.ORG.BR
ESPERAMOS AS SUAS PRODUÇÕES E CONTAMOS COM SUA COLABORAÇÃO
PARA OCUPARMOS ESTE ESPAÇO TÃO IMPORTANTE PARA A SOCIEDADE BRASILEIRA.
UM GRANDE ABRAÇO,
AÇÃO BROTAR PELA CIDADANIA E DIVERSIDADE SEXUAL (ABCDS)
ASSOCIAÇÃO DA PARADA DO ORGULHO DOS GAYS, LÉSBICAS, BISSEXUAIS E TRANSGÊNEROS DE SÃO PAULO
ASSOCIAÇÃO DE INCENTIVO À EDUCAÇÃO E SAÚDE DE SÃO PAULO (AIESSP)
CENTRO DE DIREITOS HUMANOS (CDH)
IDENTIDADE - GRUPO DE AÇÃO PELA CIDADANIA HOMOSSEXUAL
INTERVOZES - COLETIVO BRASIL DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
5050
Nome dos produtores e seus contatos
REALIZADOR CONTATO
1. CARE INTERNACIONAL BRASIL FLANG@BR.CARE.ORG
2. CENTRO DE CULTURA LUIS FREIRE COMUNICACAO@CCLF.ORG.BR
3. REDE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO WWW.FUNDABRINQ.ORG.BR
4. ABIA JOSIAS@ABIAIDS.ORG.BR
5. Abrinq WWW.REDEH.ORG.BR
6. AÇÃO EDUCATIVA COMUNICACAO@ACAOEDUCATIVA.ORG
7. ACTION AID BRASIL ACTIONAID@ACTIONAID.ORG.BR
8. ACTIVIST MEDIA PROJECT WWW.ACTIVISTMEDIAPROJECT.NET
9. ADRIANO DE ANGELIS E MAX GONÇALVES MAXJORNALISMO@YAHOO.COM.BR
10. AFONSO JR. FERRERIA DE LIMA FORUMDETVS@GOOGLEGROUPS.COM
11. AGÊNCIA CARTA MAIOR REDACAO@CARTAMAIOR.COM.BR
12. AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO MARÉ ALTA - PROJETO ARRASTÃO WWW.ARRASTAO.ORG.BR
13. AGÊNCIA VIRAJOVEM DE NOTÍCIAS/ FÓRUM DE TVS FSM 2005 FORUMDETVS@GOOGLEGROUPS.COM
14. ALINE SESAHARA E MARIA LUISA MENDONÇA SASAHARA@AMBRAS.COM.BR
15. ANAMATRA - ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS MAGISRADOS DO TRABALHO IMPRENSA@ANAMATRA.ORG.BR
16. ÂNGELA BASTOS ANGBASTOS@UOL.COM.BR
17. ANIS F. PARANHOS@ANIS.ORG.BR
18. ANNA PAULA NOVAES, RAQUEL BARROS, ROSEVANYA ALBUQUERQUE RAQUELBARROS@UOL.COM.BR
19. APREMAVI INFO@APREMAVI.COM.BR
20. ARTÉRIA FILMES WWW.ARTERIAFILMES.COM.BR
21. ARTHUR BONICONTE ARTHURBONICONTE@YAHOO.COM
22. ARTICULAÇÃO DO SEMI-ÁRIDO BRASILEIRO - ASA/ ASSOCIAÇÃO
PROGRAMA UM MILHÃO DE CISERNAS PARA O SEM-ÁRIDO ASA@ASABRASIL.ORG.BR
23. ARTICULAION FEMINISTA MARCOSUR WWW.MUJERESDELSUR.ORG.UY
24. ASSOCIAÇÃO DAS PRIMEIRAS DAMAS DO ESTADO DO CEARÁ - APDMCE APDMCE@APDMCE.COM.BR
25. ASSOCIAÇÃO IMAGEM COMUNITÁRIA AIC@AIC.ORG.BR
26. ASSOCIAÇÃO STOP À DESTRUIÇÃO DO MUNDO VERA@STOP.ORG.BR
27. ATLAS INTERACTIVE GONLINEEDITOR@UOL.COM.BR
28. AVAPE AVAPE@AVAPE.ORG.BR
29. BEL MERCÊS BEL.MERCES@GMAIL.COM
30. BIOKAM PRODUÇÕES BIOKAM@TERRA.COM.BR
31. BOCA DE FILMES BOCADEFILME@YAHOO.COM.BR
32. BRUNA BARELLA, JÚLIA AGUIAR, MARCELO MACHADO,RENATA
HEINZ E Y ARA BUENO FORUMDETVS@GOOGLEGROUPS.COM
33. CAETANO CARUSO CAETANOCARUSO@HOTMAIL.COM
34. CAMPANHA NACIONAL PELO DIREITO À EDUCAÇÃO WWW.CAMPANHAEDUCACAO.ORG.BR
35. CAMPANHA VIVA RIO VIVARIO@VIVARIO.ORG.BR
36. CANAL ZERO FORUMDETVS@GOOGLEGROUPS.COM
37. CARDES AMÂNCIO CARDES@GMAIL.COM
38. CARLOS JORDAKY SIQUEIRA, FELIPE SOUZA DE PINTO E
PRISICILA CARDOSO/ FÓRUM DE TVS FSM FORUMDETVS@GOOGLEGROUPS.COM
39. CAROLINA NEGRÃO BALDONI CAROLBALDONI@YAHOO.COM.BR
40. CASA DE CINEMA POA DISTRIBUIDORA@CASACINEPOA.COM.BR
41. CASA MACUNAÍMA FSB 2003 FORUMDETVS@GOOGLEGROUPS.COM
42. CATARS E COLETIVO DE COMUNICAÇÃO/ FÓRUM DE TVS FSM 2005 CATARSE@TERRA.COM.BR
43. CATÓLICAS PELO DIREITO DE DECIDIR CDDBR@UOL.COM.BR
50
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
5151
51
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
44.
C
EERT
C
EERT
@C
EERT.
O
R
G
.BR
45. CEMINA
C
EMINA@CEMINA.ORG.BR
46.
C
ENTRO
C
ULTURAL
U
F
MG
C
CULT-DIR
@
PROEX.UFMG.BR
47.
C
ENTRO DE
C
OMUNICA
Ç
ÃO
(C
EDE
COM)
- UF
MG
C
EDE
CO
M
@
REIT
O
RIA.
U
FM
G
.BR
48. CENTRO DE CONVIVÊNCIA INFANTIL
C
CICASADEAPOIO@TERRA.COM.BR
5
9.
C
ENTRO DE
C
ULTURA LUIZ FREIRE
C
OMUNICACAO
@
CCLF.ORG.BR
60.
C
ENTRO DE DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS DE PETRÓPOLIS
C
DDH
@C
DDH.
O
R
G
.BR
62. CENTRO DE ESTUDOS MIGRATÓRIOS
C
EMSP@UOL.COM.BR
63. CFEMEA, COM APOIO FIG
/
CIDA
C
FEMEA
@
CFEMEA.ORG.BR
64.
C
HECK-UP
N
EWS BEL_JORNALISTA
@
YAHOO.COM.BR
65. CMI BRASIL
C
ONTATO@MIDIAINDEPENDENTE.ORG
66.
C
OLETIVO DE LOS LOCOS DE LA HUMANITÁ NILONETO
@
BRTURBO.COM.BR
67.
C
OMUNICA LAZARO
C
OMUNICA_LAZARO
@
YAHOO.COM.B
R
68. CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO NACIONAL@CIMI.ORG.BR
69. CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA 9A REGIÃO GO
/
TO
C
RP09DIR@TERRA.COM.BR
70.
C
ORTE
S
ECO ED
U
ABAD
@UO
L.
CO
M.BR
71. CRISTINA MULLER FORUMDETVS@GOOGLEGROUPS.COM
72. DANIEL MASSARANDUBA
/
GUILHERME RIBEIRO SANDUBA666@HOTMAIL.COM
73. DIRETORIA DE EDUCA
Ç
ÃO
A
MBIENTAL
C
ID
@
MMA.
GO
V.BR
74.
D
OMBALI DOMBALI@UOL.COM.BR
75. ECOAR
/
TV PUC ADMINISTRACAO
@
TVPUC.COM.BR
76. ECOM: ECOLOGIA E COMUNICA
Ç
ÃO
/
INSTITUTO ECOAR PATRA CIDADANIA FALE@ECOAR.ORG.BR
77. E
NC
I
N
E ENCINE
@
ENCINE.ORG.BR
78. ENID ROCHA
A
NDRADE DA
S
ILVA E
LUSENI MARIA CORDEIRO DE A
Q
UINO DIREITOSDERESPOSTA@INTERVOZES.ORG.BR
79. ESCOLA DE
G
ENTE ESCOLADEGENTE
@
ATTGLOBAL.NE
T
80. E
S
P
N
M_POCCIA
@
HOTMAIL.COM
81
.
E
STÚDIO
P
RETO E
B
RANCO
MULTIBRÁS FALECONOSCOBRASIL
@
CONSULADODAMULHER.COM.BR
8
2. FÁBRICA DO FUTURO
J
ULIOROD
@
PLUGNET.COM.BR
83. FES
-
F
UNDAÇÃO
F
RIEDRICH
E
BERT FERNANDA@FES.ORG.BR
84.
F
ILMAGENS
P
ERIFÉRICAS FILMAGENSPERIFERICAS
@
HOTMAIL.COM
85
. FÓRUM DE DEFESA DOS DIREITOS INDÍGENAS
Q
UESTAOINDIGENA
@
LISTS.RISEUP.NET
86.
F
ÓRUM DE
TV
S FORUMDETVS@GOOGLEGROUPS.COM
87. FÓRUM DE TVS F
S
M 2005 FORUMDETVS
@
GOOGLEGROUPS.COM
88. FÓRUM
N
ACIONAL PARA REFORMA
A
GRÁRIA F
O
R
U
MREFA
G
RARIA
@
YAWL.
CO
M.BR
89. FÓRUM ONGS HSH
/
COORDENAÇÃO ESTADUAL DIREITOSDERESPOSTA@INTERVOZES.ORG.B
R
DST
/
AIDS- SP
9
0. FUNDA
Ç
ÃO
C
ASA
G
RANDE
C
ASAGRANDE
@
BAYDEJBC.COM.BR
9
1. FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ RSANTOS@CICT.FIOCRUZ.BR
9
2. FUNDA
Ç
ÃO TELEFONICA FM
ON
TA
NS@
TELEF
ON
I
C
A.
O
R
G
.BR
9
3. FUNDO CRISTÃO PARA CRIANÇA PATRICIA@FUNDOCRISTAO.ORG.BR
9
4.
G
ABRIEL
C
UNHA E MARINA TORRE FORUMDETVS
@
GOOGLEGROUPS.COM
9
5.
G
AIA PRODUTORA
G
AIAPR
O
D
@UO
L.
CO
M.BR
9
6. GERAL FILMES DIREITOSDERESPOSTA@INTERVOZES.ORG.B
R
9
7.
G
REENPEACE
C
RISTINA.BODAS
@
BR.GREENPEACE.ORG
9
8.
G
RUPO DE TEATRO LOUCAS DE PEDRA LILÁS L
OUC
A
S@
EL
OG
I
C
A.
CO
M.BR
9
9. GUSTAVO BRIGATTO
,
PAULO RANIERI
,
THIAGO DOMENICI DIREITOSDERESPOSTA@INTERVOZES.ORG.BR
1
00.
G
USTAVO
O
HARA E
C
AROLINA
M
OTOKI
C
AROLMOTOKI
@
YAHOO.COM.BR
1
01. HELENA
A
NGÉLICA DE
M
ES
Q
UITA HELE
N
A
@
W
GO
.
CO
M.BR.
1
02. IBASE
J
CRUZ@IBASE.BR
5252
103. IMAGENS LIVRES F.PARANHOS@ANIS.ORG.BR
104. INCUBADORAS DE COOPERAIVAS POPULARES DA USP CECAE@USP.BR
105. INSTITUTO CRIAR DE TV E CINEMA CLAUDIA.ALCANTARA@GMAIL.COM
106. I
NSTITUTO ECOAR PARA CIDADANIA FALE@ECOAR.ORG.BR
107. INSTITUTO EQUIT WWW.EQUIT.ORG.BR
108. INSTITUTO NOSSO CHÃO MARCO@DATERRANET.COM.BR
109. INSTITUTO PAPAI PAPAI@PAPAI.ORG.BR
110. INSTITUTO PARADIGMA FLAVIA.R@IPARADIGMA.ORG.BR
PAULA.PIERRI@ECCOPRESS.COM.BR
111. INSTITUTO PAULO FREIRE IPF@PAULOFREIRE.ORG
112. INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL ISA@SOCIOAMBIENTAL.ORG
113. INSTITUTO VOZ DIREITOSDERESPOSTA@INTERVOZES.ORG.BR
114. INTERNATIONAL CENTER FOR JOURNALISTS EDITOR@ICFJ.ORG
115. INTITUTO PAPAI PAPAI@PAPAI.ORG.BR
116. ISTITUTO PATRÍCIA GALVÃO IPGALVAO@UOL.COM.BR
117. ITAÚ CULTURAL WWW.ITAUCULTURAL.ORG.BR
118. JANETE RIBEIRO E LUCINANA LIMA FORUMDETVS@GOOGLEGROUPS.COM
119. JOICE RODRIGUES, JULIANA LESSA E SÉRGIO VILAÇA FORUMDETVS@GOOGLEGROUPS.COM
120. JORNAL BOCA DE RUA JBECHLER@IG.COM.BR
121. LABORATÓRIO DE MÍDIA ELETRÔNICA DA UFMG- LABMÍDIA GLAUCIENE_LARA@YAHOO.COM.BR
122. LIGIA SANCIO FASEES@TERRA.COM.BR
123. MARCELO BONFÁ UMOLHAR@GMAIL.COM
124. MARCELO BRAGA E JULIA AGUIAR FORUMDETVS@GOOGLEGROUPS.COM
125. MARCELO MACHADO FORUMDETVS@GOOGLEGROUPS.COM
126. MÁRCIO YONAMINE MARCIOY@USP.BR
127. MARCOS NOGUEIRA DIREITOSDERESPOSTA@INTERVOZES.ORG.BR
128. MARIANA READE E PAULO NOGUEIRA MARIANA.READE@TVGLOBO.COM.BR
129. MASTER E ISA WWW.SOCIOAMBIENTAL.ORG
130. MGM - MOVIMENTO GAY DE MINAS MOSTARDA@MOSTARDAPROPAGANDA.COM.BR
VINICIUS@MOSTARDAPROPAGANDA.COM.BR
131. MÍDIA INDEPENDENTE CONTATO@MIDIAINDEPENDENTE.ORG
132. MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO - EUNICE ASSESSORIA DE IMPRENSA DIREITOSDERESPOSTA@INTERVOZES.ORG.BR
133. MIRAÇÃO MIRACAOFILMES@UOL.COM.BR
134. MONTE AZUL WWW.MONTEAZUL.ORG.BR
135. MOVIMENTO DOS TRABALHADORES SEM TETO, BRIGADA DE GUERRINHA
CULTURAL DO SETOR
CULTURA E FORMAÇÃO POLÍTICA,
NICOLAU BRUNO, FERNANDO MASTROCOLLA, JEFF MTST@RISEUP.NET
136. MOVIMENTO MINISTÉRIO PÚBLICO DEMOCRÁTICO MIRELLACONSOLINI@YAHOO.COM.BR
137. MUCCA- MUDANÇA COM CONHECIMENTO, CINEMA E ARTE DOUGVIDA@HOTMAIL.COM
138. NERAMA- NÚCLEO DE ESTUDOS E
REALIZAÇÃO AUDIOVISUAL MONTE AZUL ANJOS.LUCIANO@IG.COM.BR
139. NOS DO CINEMA ANA@NOSDOCINEMA.ORG.BR
140. NÚCLEO BARTOLOMEU DE DEPOIMENTOS E LUAA GABANINI TMIGUEZ@UOL.COM.BR
141. OBORÉ OBORE@OBORE.COM
142. OIT
-
ORGANIZAÇÃO INERNACIONAL DO TRABALHO BRASILIA@OITBRASIL.ORG.BR
143. OLHAR PERIFÉRICO ANDRE@OLHARPERIFERICO.COM.BR
144. OZ PRODUTORA/ SÃO CARLOS CONTATO@OZPRODUTORA.COM.BR
145. PREFEITURA MUNICIPAL DE BH E CRAV ACERVO@PBH.GOV.BR
52
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
146. PROCRIA COMUNICAÇÃO E PANGEA
-
C
ENTRO DE ESTUDOS SOCIOAMBIENTAIS
147. P
RODUTORA SOCIAL NOVO OLHAR COMUNICA
148. P
ROGRAMA DE COMBATE AO RACISMO INSTITUCIONAL E DFID F-LOPES@DFID.GOV.UK
COOPERATIVACAEC@YAHOO.COM.BR
ASSOCIACAO@NOVOLHAR.ORG.BR
5353
149. PROGRAMA NOVO OLHAR ASSOCIACAO@NOVOLHAR.ORG.BR
150. PROGRAMA ZUMBI E SECRETARIA
MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE ARACATI - CE DIREITOSDERESPOSTA@INTERVOZES.ORG.BR
151. PUC MINAS SÃO GABRIEL COORDLAB.SG@PUCMINAS.BR
152. REDE BRASIL DIREITOSDERESPOSTA@INTERVOZES.ORG.BR
153. REDE RUA DE COMUNICAÇÃO REDERUA@UOL.COM.BR
154. R
EDE SESC SENAC DE TELEVISÃO STV@REDESTV.COM.BR
155. RENATA HEINZ, JÚLIA AGUIAR, BRUNA BARELLA FORUMDETVS@GOOGLEGROUPS.COM
156. RICARDO DANTAS/ MUSEU NACIONAL/ UFRJ/ LACED MUSEU@MN.UFRJ.BR
157. RICARDO SÁ FASEES@TERRA.COM.BR
158 ROCINANTE PRODUÇÕES TAISCBASTOS@YAHOO.COM.BR
159. RUBENS CRUZ/ VINÍCIUS D’ARCÁDIA CRUZ/ NOELI PIRES BUENO/
JOÃO GABRIEL DA SILVA CÂNDIDO E LUTÉRCIO ALV ES DA SILVASEC
EDUCAÇÃO PREFEITURA MUNICIPAL DE ASSIS COMUNICACAO@ASSIS.SP.GOV.BR
160. SABRINA JARZINSKI SABRINA.JARZINSKI@HOTMAIL.COM
161. SCALABRINI COMUNICAÇÕES DIREITOSDERESPOSTA@INTERVOZES.ORG.BR
162. SEC EDUCAÇÃO PREFEITURA MUNICIPAL DE ASSIS COMUNICACAO@ASSIS.SP.GOV.BR
163. SECRETÁRIA DE EDUCAÇÃO DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO HTTP://EDUCACAO.PREFEITURA.SP.GOV.
164. SECRETARIA MUNICIPAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL DE COLATINA- ES ASOCIAL@COLATINA.ES.GOV.BR
165. SESC RIO PRETO/ TEATRO DE ANÔNIMO/ TVE BRASIL ANONIMO@TEATRODEANONIMO.COM.BR
166. SOF E MARCHA MUNDIAL DAS MULHERES SOF@SOF.ORG.BR
167. SOS CORPO SOS@SOSCORPO.ORG.BR
168. SOU DA PAZ SOUDAPAZ@SOUDAPAZ.ORG
169. SPHC SCENE E TORO PRODUÇÕES CADU@DATORO.COM
170. SPM- SERVIÇO PASTORAL DOS MIGRANTES SPM.NAC@TERRA.COM.BR
171. SUBSECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS DA SECRETARIA-GERAL DA
PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA VALERIA.RABELO@SEDH.GOV.BR
172. SUPERFILMES ECOFALANTE@ECOFALANTE.ORG.BR /
SUPER@SUPERFILMES.COM.BR
173. SYLVIE DELEULE FER.GIANNASI@TERRA.COM.BR
174. TÂNIA LAMARCA ELIZAHRODRIGUES@YAHOO.COM.BR
175. THE KEY JOAOFRANCISCO@THEKEY.COM.BR
176. TV CULTURA BRASÍLIA FILOCARMOBRAGA@YAHOO.COM.BR
177. TV PUC ADMINISTRACAO@TVPUC.COM.BR
178. TV TAGARELLA, ATREVER, AKKRAAK TVTAGARELA@IG.COM.BR
179. TV UNICSUL UNICSUL@UNICSUL.BR
180. TV UNIMEP TVUNIMEP@UNIMEP.BR
181. TV VIVA TVVIVA@CCLF.ORG.BR
182. TVE BRASIL/ FUNDAÇÃO BANCO DO BRASIL MARCO PIVA TVEBRASIL.COM.BR
183. VCT/ AÇÃO EDUCATIVA MICHELLE.PRAZERES@ACAOEDUCATIVA.ORG
184. VÍDEO FAU VIDEOFAU@USP.BR
185. VISÃO MUNDIAL BRASIL WWW.VISAOMUNDIAL.ORG.BR
186. VITAE CIVILIS MMATOS@VITAECIVILIS.ORG.BR /
CORPHEO@VITAECIVILIS.ORG.BR
187. VIVA RIO CHRISMAGNAVITA@VIVARIO.ORG.BR
188. WILQ V ICENTE E DANIEL FAGUNDES DIREITOSDERESPOSTA@INTERVOZES.ORG.BR
53
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
5454
Um novo programa
As tardes dos dias da semana são exploradas pelos canais comercias de
forma bastante semelhante: novelas, fi lmes, programas de auditório e fofo-
ca. Abusos da liberdade de expressão aparecem com freqüência, violando
direitos humanos e o respeito às minorias. O Tarde Quente era baseado nas
“pegadinhas”, nas quais eram comuns o espancamento de homossexuais,
as ofensas às mulheres, xingamentos aos homens supostamente traídos, e
humil hação de pessoas com defi ciência. Esta era a opção de lazer daque-
les que assistiam à Rede TV! das 16h às 17h: majoritariamente os desem-
pregados, os donos e donas de casa, crianças e adolescentes. Formado
nesta estética e bombardeado por opiniões preconceituosas, este seria o
público do Direitos de Resposta.
Diante desse cenário, não era possível prever como os telespectadores rea-
giriam a uma programação totalmente alternativa e experimental. Havia
ainda o receio de que o senso comum rejeitasse completamente o novo
programa. No entanto, era fundamental quebrar o argumento preconceitu-
oso de que “existe baixaria na televisão porque é disso que o povo gosta”.
A refl exão de que seria importante equilibrar ineditismo com elementos
convencionais, ainda que de conteúdo radical, e dar uma unidade estética
e de linguagem ao programa foi decisiva para que o Conselho Editorial
optasse pela contratação de uma PRODUTORA PROFISSIONAL.
O acordo judicial previa que a Rede TV! custeasse a produção dos 30
programas. Para tanto, foram destinados R$ 200 mil, verba muito baixa
para os padrões televisivos, mas que permitiu o aluguel de um estúdio
e de equipamentos e a profi ssionalização da produção, roteirização,
direção, apresentação e edição do Direitos de Resposta. A linha edito-
rial, assim como o contato com os realizadores audiovisuais, a seleção
dos entrevistados e o levantamento de reportagens externas, fi caria a
cargo do Conselho Editorial, formado por representantes das entidades
signatárias da Ação Civil Pública.
O fi o condutor do Direitos de Resposta era um debate em estúdio com
dois convidados, apresentado pela atriz e cantora Anelis Assumpção, cedi-
da pela TV Cultura. A cada dia, debates praticamente ausentes na televisão
brasileira, acerca de um direito humano específi co: educação, saúde, mo-
radia, comunicação, diversidade sexual, igualdade racial, igualdade de
gênero, terra, liberdade religiosa, direito das crianças e dos adolescentes,
Veja depoimento da
produtora na pág. 58
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
5555
segurança pública, humor, esporte, acesso à Justiça, participação popular,
exclusão social, imigrantes e refugiados, trabalho, meio ambiente, questão
indígena, direitos sexuais e reprodutivos, diversidade cultural.
Até então, era quase inimaginável assistir, à tarde, em um canal comer-
cial, uma discussão sobre os direitos dos imigrantes, ou sobre a luta dos
trabalhadores rurais sem-terra, dos transexuais, dos negros. Ou sobre
como divertir sem ofender e divergir sem excluir. Salvo os temas da di-
versidade sexual e de gênero, todos os demais foram tratados em um dia
de programação. Em função de as mulheres, os homossexuais, bixessuais,
transexuais e transgêneros serem os mais agredidos pelo programa de João
Kleber, percebeu-se que era preciso dedicar mais tempo do Direitos de
Resposta para a devida reparação dos direitos desses grupos. Para este
público, não bastava tirar as ofensas do ar. Como ação afi rmativa, foram
produzidos três programas sobre cada um
1
.
Outra característica chave foi o perfi l dos convidados. Sempre que pos-
sível, um deles representava o próprio grupo que tinha seu direito violado.
Abriu-se espaço para que esses sujeitos políticos tivessem voz na TV. Foi
assim que o programa sobre questão indígena contou com a participação
de um índio e o que abordou liberdade religiosa foi debatido por um pai de
santo. Os telespectadores ouviram que os movimentos sociais são crimi-
nalizados da voz de uma pessoa sem-teto. Já o segundo convidado, em
geral, abordava o tema sob a ótica de quem estuda o tema ou milita pela
efetivação de determinado direito. Entraram em cena representantes de or-
ganizações da sociedade civil, movimentos sociais e defensores de direitos
humanos.
O Direitos de Resposta tinha também quadros fi xos. No “Tele-visão”, o
então Procurador Regional dos Direitos do Cidadão em São Paulo, Sérgio
Suiama, a apresentadora Soninha e o jornalista Eugênio Bucci se reveza-
vam em análises sobre o papel da televisão e sua atuação em relação ao
tema do dia em debate. “Fala-povo” era o espaço em que as pessoas na rua
falavam sobre a qualidade da programação televisiva. Este quadro debatia
com a sociedade, os legítimos donos daquele espaço, o que deveríamos
ver na TV. Ambos tinham por trás de sua concepção a utilização de algo
raro na mídia brasileira: falar da televisão na televisão.
1. O tema do direito à comunicação também foi abordado em três programas, como uma
discussão transversal a todos os demais direitos. O objetivo desses programas foi, justamente,
demonstrar à população a importância do controle social da mídia e da participação popular
nas políticas de comunicação para que a televisão não mais viole os direitos humanos no
espaço público.
D
IREITO DE RESPOSTA NO AR
5656
As produções recebidas pelo chamado nacional foram separadas de acor-
do com os temas dos programas. Os vídeos que falavam, por exemplo, so-
bre o direito à água, sobre as difi culdades dos moradores de áreas atingidas
por barragens ou sobre a poluição do ar entraram no programa que tratou
do direito ao meio ambiente. Os trechos selecionados das produções fo-
ram exibidas de duas formas: como “interferências” ao longo do debate
em estúdio ou ao fi nal do programa.
Como o programa estava dividido em blocos, nos intervalos do Direitos
de Resposta eram divulgadas vinhetas de campanhas de utilidade pública
produzidas por ONGs e instituições que promovem os direitos humanos.
Ou seja, em vez de produtos, o telespectador do novo programa, durante
os “breaks”, foi informado sobre a importância do desarmamento, do fi m
da violência contra as mulheres, dos direitos das crianças e adolescentes,
da preservação do meio ambiente, entre outros temas.
A emoção da estréia
Direitos de Resposta estreou na televisão no dia 12 de dezembro de 2005.
O primeiro programa discutiu Direitos Humanos de forma mais ampla. No
estúdio estavam o escritor Ferréz, morador do Capão Redondo, bairro da
periferia de São Paulo com altos índices de violência, e o jurista e defensor
de direitos humanos Oscar Vilhena. Ambos falaram sobre a gravidade das
violações de direitos no Brasil, sobre o descumprimento da lei no que se
refere à garantia desses direitos, sobre diversidade e a importância de se dar
voz às minorias, sobre a qualidade da programação da TV brasileira.
Neste dia 12, pessoas se reuniram em todo o país para acompanhar este
momento histórico da TV brasileira. O momento de estréia de um pro-
grama que falava de direitos humanos; que era janela de vozes excluídas e
várias vezes marginalizadas pela mídia; que abriu espaço para produções
sem o tratamento dramático cunhado pelas novelas; que era plural, sim-
ples e democrático. E um programa que teve, todos os dias, cerca de um
milhão de telespectadores em todo o Brasil, segundo a própria Rede TV!,
desconstruindo o mito propagado pelos grandes radiodifusores de que o
responsável pela qualidade questionável da nossa programação aberta é
o telespectador.
O tema “direitos dos telespectadores”, aliás, foi abordado no 30
o
e úl-
timo programa, exibido no dia 20 de janeiro de 2006 , e resultou numa
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
5757
espécie de síntese de todo o preocesso. No estúdio, Sérgio Suiama, do
ministério Público Federal e Diogo Moysés, integrante do Intervozes, repre-
sentando as organizações signatárias da Ação Civil Pública discutiram a
violação de direitos humanos na TV brasileira e também possibilidades de
o público enterferir e participar desse cenário, tendo como principal ex-
emplo o próprio Direitos de Respostas. Essse programa fi nal trouxe ainda
cenas de bastidores do processo, fruto de um marking of feito por produ-
tores independentes que acompanharam a produção para futuramente
realizarem um documentário.
A experiência do Direitos de Resposta mostrou que não há lógica que jus-
tifi que tratar os telespectadores como consumidores. Que é preciso reafi r-
mar o direito a uma televisão aberta de qualidade. Que não há lógica em
manter uma televisão – espaço público dessa sociedade midiática – que
contemple os interesses de poucos, que dê voz a grupos tão restritos. Que
é possível e preciso construir uma programação alternativa, que respeite os
direitos de todos. E que é necessário – e urgente – se indignar. Sempre.
DIREITO DE RESPOSTA NO AR
Os 30 Direitos de Resposta
01. DIREITOS HUMANOS
02. CRIANÇA E ADOLESCENTE
03. QUESTÃO RACIAL
04. PESSOAS COM DEFICIÊNCIA
05. DIVERSIDADE SEXUAL I
06. DIREITO À COMUNICAÇÃO I
07. DIREITO À TERRA
08. GÊNERO I
09. SEGURANÇA PÚBLICA/ VIOLÊNCIA POLICIAL
10. LIBERDADE RELIGIOSA
11. DIREITO À EDUCAÇÃO
12. DIREITO À MORADIA
13. JUVENTUDE
14. DIREITO À COMUNICAÇÃO II
15. DIREITO À CULTURA
16. QUESTÃO INDÍGENA
17. MEIO AMBIENTE
18. DIVERSIDADE SEXUAL II
19. DIREITO AO TRABALHO
20. DIREITOS SEXUAIS E REPRODUTIVOS
21. PARTICIPAÇÃO POPULAR
22. EXCLUSÃO SOCIAL
23. DIREITO À SAÚDE
24. IMIGRANTES E REFUGIADOS
25. DIREITO AO ESPORTE
26. HUMOR
27. DIVERSIDADE SEXUAL III
28. ACESSO À JUSTIÇA
29. GÊNERO II
30. DIREITOS DO TELESPECTADOR
5858
58
58
Nos bastidores
Nos bastidores
Como a equipe da Gaia, que produziu e dirigiu o Direitos de Resposta,
desenvolveu um programa que falava de direitos humanos com uma
linguagem inovadora, um formato pouco usual na TV aberta e que tinha
como desafi o dar voz a tantos excluídos da mídia.
Depoimento: Sergio Gambier, diretor da Gaia Produções ao lado de Giu
Zanelatto
“Foram inúmeros os desafi os na produção do Direitos de Resposta. O
primeiro deles era justamente conseguir encontrar um formato e uma
cara de programa que fosse interessante para um público que não es-
tava, a priori, interessado no tema. Queríamos mostrar ao telespectador
que os direitos humanos estavam presentes na vida dele, que não eram
discussões distantes da sua vida.
Outro grande desafi o foi encontrar uma solução para a demanda das
ONGs de incluir os vídeos que estavam chegando de todo o país. Tivemos
a idéia de colocá-los não como quadros tão organizados mas como
uma espécie de interferência que entraria de uma maneira intertextual,
costurada com as falas dos convidados no estúdio. Tinha muito a ver com
o próprio acontecimento em si, afi nal, aquilo era uma interferência na
programação tradicional da Rede TV!
O formato também foi pouco usual para televisão. Atualmente, predomina
na TV uma visão de linguagem limitada. Os produtores acham que as
pessoas não vão entender, por exemplo, se você usar um corte sem
avisar. Não é verdade. Há outras formas de passar a mensagem. Bus-
camos costurar as falas de maneira que importasse tanto o que o cara do
Greenpeace trazia como a colocação do morador de rua.
Ao fi nal, conseguimos muitos estímulos para o telespectador: o cenário,
que tentava passar um pouco do clima pulsante da rua, um debate
dinâmico, os quadros na rua, os vídeos que eram bastante diversos.
Conseguimos fazer um jogo interessante entre eles. A idéia era incluir
várias vozes e isso se confi gurou no programa. Esses vários discursos
combinados deixaram o programa mais dinâmico e deram a sensação de
uma voz mais plural. Funcionou.
59595
9
59
Seis entidades e uma luta: os direitos humanos
Junto ao Ministério Público Federal, seis entidades da sociedade civil assi-
naram a Ação Civil Pública e participaram da produção e realização dos
programas exibidos na Rede TV! Essas organizações têm algo em comum:
a luta pela promoção e defesa dos direitos humanos. Especifi camente, en-
tretanto, cada uma tem peculiaridades e enxerga no processo Direitos de
Resposta diferentes ângulos de uma mesma vitória.
O DIREITOS DE RESPOSTA DEMONSTROU QUE ATRAVÉS DA ALIANÇA ENTRE SETORES PRO-
GRESSISTAS DO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, ORGANIZAÇÕES DE DIREITOS HUMANOS E DA
LUTA CONTRA AS OPRESSÕES, UMA OUTRA MÍDIA É POSSÍVEL”.
PAULO MARIANTE, IDENTIDADE - GRUPO DE AÇÃO PELA CIDADANIA DE LÉSBICAS, GAYS,
TRAVESTIS, TRANSEXUAIS E BISSEXUAIS
“O PROGRAMA É TAMBÉM FRUTO DA LUTA POR UM BRASIL SEM HOMOFOBIA, SEM DIS-
CRIMINAÇÃO, QUE RESPEITE A COMUNIDADE DE GAYS , LÉSBICAS, BISSEXUAIS, TRAVESTIS E
TRANSEXUAIS. HOJE EM DIA, A TELEVISÃO BRASILEIRA TEM UM EXEMPLO DO QUE É RESPEITO
ÀS MINORIAS, E A POPULAÇÃO SABE QUE DEVE EXIGIR UMA PROGRAMAÇÃO COM RESPONSA-
BILIDADE SOCIAL, QUE SEJA COMPROMETIDA COM TODOS OS CIDADÃOS BRASILEIROS”.
MARCELO GIL, AÇÃO BROTAR PELA CIDADANIA E DIVERSIDADE SEXUALABCD’S
“TIVEMOS UM GRANDE GANHO COM A SUSPENSÃO DO PROGRAMA. A REGRA NA TV
TEM SIDO A REPRESENTAÇÃO DA HOMOSSEXUALIDADE DE FORMA PEJORATIVA, SEMPRE EM
SITUAÇÃO DE INFERIORIDADE. E ISTO EM MUITO FERE A CONSTITUIÇÃO FEDERAL EM SEU
ART. 5º. HOJE O JUDICIÁRIO É O MELHOR CAMINHO PARA SANAR TAIS IRREGULARIDADES;
OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SÃO FORMADORES DE OPINIÃO E NÃO PODEM REFORÇAR O
PRECONCEITO.”
FERNANDO QUARESMA, ASSOCIAÇÃO DA PARADA DO ORGULHO DOS GAYS, LÉS-
BICAS, BISSEXUAIS E TRANSGÊNEROS DE SÃO PAULO E TAMBÉM REPRESENTANTE DA
A
SSOCIAÇÃO DE INCENTIVO À EDUCAÇÃO E SAÚDE DE SÃO PAULOAIESSP
“O DIREITOS DE RESPOSTA REPRESENTOU PARA O CDH UMA GRANDE CONQUISTA, QUE
VEIO AO ENCONTRO DOS OBJETIVOS DA ASSOCIAÇÃOPROMOVER OS DIREITOS HUMANOS,
SOBRETUDO POR MEIO DA EDUCAÇÃO. O ENFRENTAMENTO BEM SUCEDIDO A UM PROGRA-
MA DE TELEVISÃO, GRAVEMENTE VIOLADOR DE DIREITOS HUMANOS, FOI UMA PRIMEIRA
VITÓRIA. A PARTIR DISSO, A OPORTUNIDADE DE USAR UM ESPAÇO NA TELEVISÃO GEROU UMA
POSSIBILIDADE HISTÓRICA PARA A DIVULGAÇÃO DOS ARGUMENTOS DE DIREITOS HUMANOS,
FOMENTANDO O PROCESSO EDUCATIVO PARA A CONSCIÊNCIA DESSES DIREITOS NO BRASIL
JOANA ZYLBERSTEIN, CENTRO DE DIREITOS HUMANOS
JOANA ZYLBERSTEIN, DIRETORA DO CENTRO DE DIREITOS HUMANOS – CDH.
6060
DIREITOS DE RESPOSTA
Um programa, um processo
6161
AS RESPOSTAS AO DIREITOS DE RESPOSTA
Passado certo tempo desde a conquista do espaço na Rede TV!,
a produção e a veiculação do programa Direitos de Resposta, é
preciso procurar uma palavra para se referir a tudo isso. Nenhuma
parece mais apropriada que “processo”.
Num primeiro momento, ela pode remeter ao fato de que nenhu-
ma destas etapas seria possível sem a mobilização das entidades
da sociedade civil nem tampouco o empenho do Ministério Pú-
blico Federal, que resultou na Ação Civil Pública. Portanto, sem
um “processo” judicial. No entanto, mais do que uma ação na
Justiça, o processo Direitos de Resposta foi um momento de re-
exão coletiva sobre os limites da mídia e a exigibilidade do di-
reito humano à comunicação. Uma refl exão que tem sido feita por
muito mais pessoas e entidades que aquelas diretamente envolvi-
das na Ação Civil Pública. Foram e continuam sendo diversas as
respostas ao Direitos de Resposta.
Uma primeira delas veio dos produtores independentes ou ligados
a organizações sociais e populares de todo o Brasil à convocação
para envio de material audiovisual que pudesse ser usado na cons-
trução dos programas, como mostrou o capítulo anterior. Além
de evidência da demanda reprimida por espaço de veiculação
de produções – ou seja, a favor da democratização dos meios de
comunicação –, a construção participativa dos programas teve
refl exos também dentro das diversas organizações que enviaram
suas produções. Os relatos de algumas entidades mostram que
tanto a decisão sobre o envio como a avaliação do aproveitamento
dos materiais foram momentos de “parar para pensar” na maneira
como a mídia trata os temas dos direitos humanos. Pensar, tam-
bém, em como as estruturas econômicas e políticas da mídia in-
terferem nesse processo de representação da sociedade. De certa
forma, embora não de maneira direta nem imediata, estes momen-
tos contribuem tanto para a conformação social do conteúdo do
direito humano à comunicação, como para a de um movimento
supra-organizações que lute por ele.
UM PROGRAMA, UM PROCESSO
6262
A resposta do público
Outra evidência do caráter processual do Direitos de Resposta é a
maneira como o público reagiu à exibição dos programas. Toman-
do apenas como critério o já “consagrado” Ibope, foi possível veri-
car um avanço progressivo da audiência. No dia de sua estréia, o
programa alcançou 1,2 ponto no Ibope. Ao fi nal dos 30 dias, che-
gava a 2 pontos. Pode parecer pouco, mas numa realidade em que
a audiência da TV aberta concentra-se de forma radical em apenas
uma emissora – em torno de 40% dos espectadores assistem à TV
Globo ou às suas afi liadas – e que o próprio Tarde Quente, de João
Kléber, alcançava cerca de 4 pontos, essa audiência representa
muito. Principalmente porque foi obtida e ampliada sem qualquer
estratégia de marketing – a não ser a divulgação espontânea das
informações sobre a Ação Civil Pública, a produção e veiculação
dos programas por diversas redes de organizações sociais.
O interesse da população por alternativas de programação também
cou comprovado nas mais de 200 mensagens postadas no blog
criado para o programa – www.direitosderesposta.com.br. A const ru-
ção de um sítio na Internet foi pensada como uma contribuição à
própria produção do Direitos de Resposta, mas sobretudo como
uma forma de registrar a maneira como a sociedade brasileira enxer-
garia aquele processo. Durante o mês em que o programa foi ao
ar, nove mil pessoas visitaram a página e as mensagens deixadas
por elas são valiosas para compreender a demanda do público por
uma TV que refl ita as diversas realidades do país. De certa forma,
a ação contra a Rede TV! e João Kleber é fruto desta demanda
histórica. No entanto, as mensagens postadas na página da Inter-
net comprovam que essa reivindicação não é fruto da inspiração
isolada de alguns intelectuais mal-humorados que não concordam
com a programação da nossa televisão, mas uma necessidade real
da população brasileira.
UM PROGRAMA, UM PROCESSO
6363
A experiência do blog
O internauta Eudoro Pessoa descreve, no dia 11 de janeiro de
2006, a sensação dúbia ao “descobrir” o programa no ar: “On-
tem, durante minha folga, compartilhei os sentimentos de tristeza
e alegria no mesmo momento: tristeza por não ter esse tipo de
programa em outros canais da TV aberta e em outros horários (o
horário da tarde coincide com meu trabalho); alegria por descobrir
um bom programa de entrevistas num horário tradicionalmente
medíocre da TV brasileira”.
Em alguns momentos, o Direitos de Resposta também parece ter
superado a passividade que marca a relação entre o público e a
televisão. Em vários comentários, as pessoas se referiam ao “nos-
so” programa. Ou seja, pelo fato de ser resultado de uma ação
direta da sociedade civil, de ser um corte que rompeu o marasmo
imposto pelas emissoras comerciais de televisão, os telespectado-
res apropriaram-se do grito, engrandecendo-o e tornando-o ainda
mais polifônico.
Tamanha identifi cação levou o internauta Rui Santos a declarar, em
3 de fevereiro – alguns dias após o encerramento da veiculação do
programa –, que estava à disposição para ajudar o processo a seguir
em frente: “Parabenizo todos vocês que conseguiram mostrar atra-
vés da Justiça que televisão é coisa séria e não é um instrumento
de promoção de programas discriminatórios, chulos e indecentes,
sem o menor respeito aos telespectadores. Também pela aula de
cidadania mostrada nas edições do Direitos de Resposta ao qual
co penalizado pelo fato de sua extinção. Coloco-me à disposição
para qualquer tipo de ajuda que venham necessitar”.
Críticas também foram feitas, obviamente, o que comprova que a
construção da democracia só se faz possível quando todos podem
se expressar e defender seus pontos de vista tão diversos. Em al-
guns casos, elas foram ao formato do programa ou ao seu conteú-
do – muitas vezes, organizações zelosas pela correção dos dados
ou mesmo das formas de expressão usadas no programa. Cidadãos
mais exaltados expressaram de forma muito dura, até, seu descon-
tentamento com a qualidade da TV brasileira. Apesar de haver
UM PROGRAMA, UM PROCESSO
6464
um processo de seleção das mensagens postadas, algumas foram
interpretadas como “ofensa” pelo próprio apresentador João Kle-
ber, que inquiriu na Justiça os jornalistas André Deak e Rodrigo
Savazoni – responsáveis pelo sítio. De fato, várias pessoas comemo-
raram o fato de o Tarde Quente e do Eu vi na TV terem saído do ar,
criticando duramente os programas.
Mas o impacto mais profundo do Direitos de Resposta talvez seja
melhor descrito pelas palavras de um anônimo internauta: “Hoje
não é o primeiro dia que vejo o programa. Tenho acompanhado
todos, na medida do possível. Queria dizer que não é somente
emocionante ver tantas vozes quase nunca escutadas em lugar al-
gum dos meios de comunicação. Vozes de luta pela transformação,
pelo respeito e pela diversidade (tão linda e tão invisível nesse
país). Não é somente a oportunidade única de conhecer a batalha
de milhares de lutas que tantos brasileiros e brasileiras travam em
seu dia-a-dia. Não é somente a demonstração da capacidade da
sociedade em mostrar que há uma alternativa para a televisão. É
a mais absoluta prova de que tudo aquilo que é veiculado na TV
não encosta na pluralidade de assuntos importantes para a pauta
do país, não resvala a diversidade do nosso povo e não representa
nada além do interesse daqueles que só reforçam o preconceito,
a injustiça e a desigualdade na sociedade. Parabéns à equipe, pa-
rabéns aos lutadores e lutadoras do Brasil e que esse programa
nos inspire e seja mais uma ferramenta que ajude a construirmos
efetivamente um país melhor para todos e todas”.
Novos debates
Mostrou-se insustentável, desta forma, o modelo de TV represen-
tado pelos programas de João Kleber. Esse tipo de programação –
quase exclusivamente baseado na baixaria, na fofoca e na audiên-
cia a todo o custo – está diminuindo na televisão brasileira. Muitas
vezes, são substituídos por programas igualmente ruins, como pre-
gações religiosas intolerantes, televendas e enlatados de péssima
qualidade. Porém, é interessante perceber que este movimento
pela qualidade do conteúdo da TV, do qual o processo Direitos de
Resposta é uma nova e importante etapa, expressa a compreensão
crescente da população brasileira sobre a necessidade de controle pú-
UM PROGRAMA, UM PROCESSO
6565
blico e social da mídia. Um controle que não seja tão errático quanto
ações esporádicas na Justiça, mas organizado e garantido como direito
pelo Estado.
Desde janeiro de 2006, quando foi ao ar o trigésimo programa da
série, a experiência do Direitos de Resposta tem sido mote de diversos
debates em fóruns, entidades ligadas aos direitos humanos, movimen-
tos sociais e universidades. Tem sido objeto de artigos, dissertações e
REPORTAGENS. É entre a surpresa e uma “emoção da vitória” que muitos
militantes ou pessoas sem qualquer ligação com organizações sociais
assistem ao vídeo montado como RESUMO DOS 30 PROGRAMAS, quando
este é exibido em seminários e mostras. São expressões do quanto
a formulação a respeito do direito humano à comunicação carecia
da concretude alcançada pela ação na Justiça (que, como se viu, se
tornou um marco legal na exigibilidade deste direito como um direito
coletivo). Carecia, ainda, de um marco simbólico que tirasse da pers-
pectiva dos movimentos e organizações sociais a idéia de que a luta
contra o poder das emissoras de TV, dos grandes conglomerados de
mídia do país, era uma batalha perdida.
Mais do que isso, o processo Direitos de Resposta tem inspirado
outros nos mesmos moldes Brasil afora. Poucas semanas após a
veiculação dos programas, o Ministério Público Federal em Brasília
junto a entidades da sociedade civil – entre elas o Intervozes – ,
moveu uma Ação Civil Pública questionando o conteúdo veiculado
no programa Zorra Total, da Rede Globo. Além da semelhan ça da
denúncia (veiculação de mensagens homofóbicas), há também a
sintonia a respeito do conceito de direito de resposta coletivo. A
ação tramita na Justiça Federal.
Novos espaços
Tanto por seu valor político como simbólico, o conjunto dos
programas exibidos nos 30 dias em que o Direitos de Resposta
substi tuiu o Tarde Quente na Rede TV! vem sendo requerido por
dezenas de organizações e emissoras culturais e comunitárias. Já
durante a exibição, através do blog, foram vários os pedidos de
cópias dos programas feitos à produção. Professores queriam exi-
bi -los em suas salas de aula (uma professora chegou a registrar
um pedido no blog às 22h da véspera de Natal!). Militantes so-
Confira a repercussão
na mídia na página 69
Disponível em www.
youtube.com
UM PROGRAMA, UM PROCESSO
6666
licitavam um ou outro mais específi co com o intuito de promover
palestras e ofi cinas acerca dos temas abordados, percebendo nos
vídeos instrumentos para se discutir educação para os direitos hu-
manos. Algumas ONGs chegaram a encomendar a reprodução
dos 30 vídeos. Foram mais de 60 pedidos nos meses que seguiram a
exibição na Rede TV!.
Emissoras de televisão – em sua maioria comunitárias, estatais e
universitárias – também se interessaram em veicular o Direitos de
Resposta. Ressaltam-se aqui os pedidos feitos pela TVE (Rio de Ja-
neiro), pelo Canal Comunitário de São Paulo, TV Universitária de
São Paulo e TV Câmara de Taubaté (interior de São Paulo). Ainda
em 2006, as emissoras TV Nacional (canal público de Brasília) e
TV Brasil – Canal Integración (canal público internacional bra-
sileiro voltado para a integração da América do Sul) iniciaram a
re-exibição dos 30 programas.
O processo Direitos de Resposta mostra-se, portanto, muito vivo.
Não apenas pela chance de os programas voltarem ao ar, mas
porque os debates que eles trouxeram em seu bojo seguem toman-
do importância entre os movimentos e organizações brasileiras.
UM PROGRAMA, UM PROCESSO
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Depoimentos
“À ÉPOCA, ACHAMOS QUE O MOVIMENTO GAY, QUE FOI O AGENTE PROVO-
CADOR DAQUELE DIREITO DE RESPOSTA, ACABOU NÃO TENDO TANTO ESPAÇO
QUANTO DEVERIA, MAS DE QUALQUER FORMA FOMOS NÓS QUE INAUGURAMOS
UM PROCEDIMENTO REAL, CONCRETO, DE ENFRENTAMENTO CONTRA A MÍDIA E
O SEU PODER DE CRIAR E REPRODUZIR O PRECONCEITO. É UM PROCESSO QUE
FICOU E VAI FICAR NA HISTÓRIA, PORQUE COLOCAMOS NA PRÁTICA UM DIREITO.
FOMOS PROTAGONISTAS E PIONEIROS EM FAZER VALER A LEI CONTRA OS MEIOS
DE COMUNICAÇÃO TÃO GIGANTESCOS EM SEU PODER. O MGM QUER CON-
TINUAR NESTE PROCESSO. ESTAMOS PRODUZINDO CONTEÚDO EXATAMENTE PRA
ISSO, PRA QUEBRAR O PRECONCEITO. E VOCÊ VAI QUEBRAR COM A CONTRA-
INFORMAÇÃO, COM A OPORTUNIDADE DE MOSTRAR OUTRA INFORMAÇÃO.”
OSWALDO BRAGA,
PRESIDENTE DO MOVIMENTO GAY DE MINAS (MGM)
BELO HORIZONTE/MG
“A IMPORTÂNCIA DO DIREITOS DE RESPOSTA PODE SER AVALIADA A PARTIR
DE DIFERENTES ÂNGULOS. DESTES, GOSTARIA DE DESTACAR UM: TORNOU
REALIDADE A UTOPIA DA DEMOCRATIZAÇÃO DA COMUNICAÇÃOTANTO PARA
QUEM PRODUZ INFORMAÇÃO COM CRITICIDADE E PERSPECTIVA DE TRANSFOR-
MAÇÃO SOCIAL, QUANTO PARA AS/OS ESPECTADORAS/ES QUE DESEJAM MAIS DA
TELEVISÃO: TER ACESSO ÀS DIFERENTES FORMAS DE EXPRESSÃO E LEITURA CRÍTICA
DA REALIDADE QUE SE PRODUZ NO PAÍS. ASSIM, O DR EVIDENCIA A POSSIBILI-
DADE DE APROXIMAÇÃO ENTRE OS MOVIMENTOS SOCIAIS COM UM PÚBLICO MAIS
AMPLO, O QUAL DIFICILMENTE TEM ACESSO A TAIS PRODUÇÕES SEMO FILTRO
DOS INTERESSES PRIVADOS E PRIVATISTAS DA MÍDIA COMERCIAL. PARA O MOVI-
MENTO DE MULHERES, QUE ACOMPANHA COM PREOCUPAÇÃO A SOFISTICAÇÃO
COM QUE SE PRODUZ A MERCANTILIZAÇÃO DAS PESSOAS E DAS IDÉIAS PELA TV,
FOI UMA ESTRATÉGIA OUSADA, QUE PODE SE TORNAR UM MARCO PARA NOVAS
ESTRATÉGIAS DE AVANÇO DA COMUNICAÇÃO ALTERNATIVA.”
MÁRCIA LARANJEIRA,
SOS C
ORPO
RECIFE/PE
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UM PROGRAMA, UM PROCESSO
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“CREIO QUE ESSE PROCESSO FORTALECEU A COOPERAÇÃO ENTRE AS DIVERSAS OR-
GANIZAÇÕES E MOVIMENTOS SOCIAIS QUE PARTICIPARAM DO DIREITOS DE RESPOSTA.
FOI UMA CONQUISTA HISTÓRICA QUE SERVIU PRA INCENTIVAR, PRINCIPALMENTE, OS
GRUPOS QUE DISCUTEM DEMOCRATIZAÇÃO DA COMUNICAÇÃO. A UTILIZAÇÃO DO
NOSSO MATERIAL TEVE UMA REPERCUSSÃO MUITO BOA. DENTRO DO CMI ENCARA-
MOS O PROGRAMA COMO UMA EXPERIÊNCIA COM A QUAL APRENDEMOS MUITO
SOBRE NOSSAS REAIS CAPACIDADES E SOBRE COMO TER UMA RELAÇÃO DE COMPLE-
MENTARIDADE COM OS OUTROS GRUPOS E MOVIMENTOS SOCIAIS.”
ANDRÉ TAKAHASHI,
CENTRO DE MÍDIA INDEPENDENTE
SÃO PAULO/SP
“DESDE O INÍCIO, A ASSOCIAÇÃO IMAGEM COMUNITÁRIA APOIOU E PARTI CIPOU DO
PROCESSO DO DIREITOS DE RESPOSTA EXATAMENTE POR SER UM MOMENTO INÉDITO,
EM QUE AS PESSOAS SE ORGANIZARAM NO SENTIDO DE BA TALHAR POR UMA CAUSA
COLETIVA E MOBILIZAR-SE CONTRA O PRECONCEITO, OS ESTEREÓTIPOS E TODO TIPO
DE DISCRIMINAÇÃO. É NISTO QUE A AIC ACREDITA E A PARTIR DAÍ DESENVOLVE SEUS
TRABALHOS. ENVIAMOS O VÍDEO POR TRABALHARMOS, EM NOSSO DIA-A-DIA, AS
QUESTÕES COLOCADAS EM XEQUE PELO DIREITOS DE RESPOSTA E POR ACREDITARMOS
TERMOS ALGO A CONTRIBUIR COM O PROCESSO, MOSTRANDO QUE A COMUNICAÇÃO
PODE, SIM, SER FEITA E UTILIZADA PARA A PROMOÇÃO DA CIDADANIA, EDUCAÇÃO,
CONSCIENTIZAÇÃO, PARTICIPAÇÃO POPULAR E MOBILIZAÇÃO POLÍTICO-SOCIAL.”
MARIA PAULINO,
MEMBRO DO NÚCLEO DE ARTICULAÇÃO E COMUNICAÇÃO INSTITUCIONAL
DA ASSOCIAÇÃO IMAGEM COMUNITÁRIA
BELO HORIZONTE/MG
“O DIREITO DE RESPOSTA É UM PRINCÍPIO BÁSICO DO JORNALISMO DEMOCRÁTICO,
QUASE NUNCA RESPEITADO PELA AUTODENOMINADA GRANDE IMPRENSA, QUE FAZ
DO INTERESSE PÚBLICO UM ESCÁRNIO PERMANENTE. NESSE AMBIENTE, O PROGRAMA
DIREITOS DE RESPOSTA FOI UM EXEMPLO DE SUCESSO DA MOBILIZAÇÃO SOCIAL CON-
TRA O DESRESPEITO AOS DIREITOS HUMANOS PRATICADO PELA TELEVISÃO COM SEUS
PROGRAMAS DE ELOGIO À VIOLÊNCIA, À INTOLERÂNCIA, À DISCRIMINAÇÃO.”
EDUARDO HOMEM, TV VIVA/
CENTRO DE CULTURA LUIZ FREIRE
RECIFE/PE
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UM PROGRAMA, UM PROCESSO
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Da TV para as páginas de jornais
Desde o início do processo, havia uma perspectiva de repercussão na
imprensa da ação que levou ao Direitos de Resposta – afi nal, estáva-
mos falando de um pedido de cassação de concessão de uma emis-
sora de televisão, algo que nunca havia ocorrido no Brasil. No entanto,
o esperado era uma cobertura pontual, nada além de notas relatando
o episódio – a repercussão maior poderia vir dos veículos da chamada
imprensa alternativa. Dois eram os motivos para a baixa expectativa
em relação à grande imprensa: não é de praxe que meios de comuni-
cação entrem em temas sensíveis relacionados à situação da mídia no
Brasil (não vale a pena mexer num vespeiro onde eles mesmos estão
inseridos) e são muitos os casos de violações de direitos humanos que
passam silenciosamente pelas páginas de jornais.
Porém, desta vez foi diferente. A repercussão do processo – desde
o dia em que a Ação Civil Pública foi protocolada na Justiça até
o fi nal da exibição do Direitos de Resposta – incluiu diversas
matérias em jornais de grande circulação, sobretudo nos dois
maiores diários paulistas, Folha de S. Paulo (onde o tema foi alvo
de 20 matérias entre as edições impressas e online) e O Estado
de S. Paulo (que, ao lado das reportagens da Agência Estado na
Internet, publicou 12 textos sobre o caso). O processo também
foi noticiado no Jornal Nacional e no jornal O Globo – ambos
pertencentes à maior rede de comunicação do país. Somente na
imprensa tradicional, foram mais de 100 citações do caso.
Entre os portais que mesclam jornalismo, serviços e entreteni-
mento na Internet, o IG destacou-se por ter colocado no ar 11
notas. Também se pronunciaram UOL Notícias (Universo On-
line), Yahoo Notícias e AOL Notícias (América Online). Surpresa
nesse cenário foi o site O Fuxico, maior sítio de “fofocas” da
Internet, ter acompanhado o processo. Passo-a-passo, o portal
gerou 12 matérias a respeito.
A Agência Brasil, portal da Radiobrás, agência de comunicação
estatal do país, também abordou o Direitos de Resposta, desta-
cando o envolvimento da sociedade civil no programa, bem
como fizeram os veículos ligados a movimentos sociais e de
esquerda. A Agência Carta Maior colocou em sua página sete
UM PROGRAMA, UM PROCESSO
7070
notícias. O jornal impresso Brasil de Fato publicou cinco textos e
a agência Repórter Social, três. Também pautaram o tema a Adi-
tal e o Centro de Mídia Independente. A repercussão aconteceu
ainda em espaços especializados em cobertura jurídica, como os
sítios Consultor Jurídico e Última Instância; e páginas de notícias
do movimento GLBTT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Transgêneros e
Travestis), como o Mix Brasil.
No calor dos acontecimentos, não houve um monitoramento pre-
ciso da totalidade de textos inspirados no Direitos de Resposta.
Além disso, a maioria das matérias publicada na grande mídia e
também na imprensa alternativa foi multiplicada em dezenas de
espaços da Internet – desde outros portais de notícias até blogs
e páginas institucionais. Portanto, é impossível saber ao certo a
quantidade de espaço na mídia conquistado pelo processo.
Essa quantidade, porém, não signifi cou um amplo espaço na mídia
para análises mais aprofundadas sobre as causas que culminaram
nos 30 programas veiculados na Rede TV!. É certo que houve, sim,
alguns debates mais refl exivos, sobretudo nos meios alternativos,
em artigos e textos de opinião e até em editoriais. No entanto,
estes, sim, foram pontuais, em menor quantidade. À grande mídia
não interessou tratar a fundo um fato que tem como pilares as
violações de direitos humanos cometidas pela própria mídia, o
controle público dos meios e a defesa do direito humano à comu-
nicação. De fato, o leitor de boa parte desses veículos que reper-
cutiram o Direitos de Resposta fi cou sem saber da luta, dos princí-
pios e do signifi cado histórico que havia por trás disso tudo.
Na Folha, a primeira matéria
A primeira nota do caso publicada pela grande imprensa veio
no jornal Folha de S. Paulo. Seu colunista especializado em TV,
Daniel Castro, deu o “furo de reportagem” – como é conhecida
no jargão jornalístico a primeira matéria sobre um determinado
tema – no dia em que a Ação Civil Pública foi protocolada na
Justiça, em matéria intitulada “Procurador pede a cassação da
Rede TV!”:
UM PROGRAMA, UM PROCESSO
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Folha de S. Paulo – 24/10/2005
O procurador regional dos direitos humanos em São Paulo, Sérgio
Suiama, entra hoje com ação civil pública pedindo a cassação das con-
cessões da Rede TV!. A ação é subscrita por nove ONGs, sete delas de
defesa de homossexuais. Também pede indenização por dano moral
coletivo de cerca de R$ 20 milhões, a proibição defi nitiva da exibição
do “Tarde Quente”, de João Kléber, e a apresentação durante 60 dias,
no lugar do programa vespertino, de material que divulgue os direitos
humanos e dos homossexuais.
Suiama argumenta que a Rede TV! estimula a homofobia ao exibir pe-
gadinhas, no “Tarde Quente”, em que homossexuais são ridiculariza-
dos. Segundo o procurador, o programa também ofende a dignidade
humana em geral. “O programa tem pegadinhas em que as pessoas são
xingadas de “galinhas” e de “babacas’”, afi rma.
De acordo com Suiama, as ofensas caracterizam desrespeito aos valo-
res éticos e sociais. “Pela Constituição, as TVs têm o dever de respeitar
esses valores, diz. A emissora praticou infração administrativa e, por
ser concessionária pública, pode ser cassada.
Suiama diz que tentou um termo de ajustamento de conduta, mas a
Rede TV! não o aceitou. A ação também inclui o apresentador João
Kléber. A Rede TV!, por meio de sua assessoria de imprensa, se limitou
a afi rmar que não vê razões para a ação civil pública.
No mesmo dia, a edição eletrônica do jornal, a Folha Online,
repercutiu o assunto, com o título “Ministério Público Federal
pede cassação da Rede TV!”, e o portal de O Estado de S. Paulo
publicou a matéria “Procurador pede cassação da concessão da
Rede TV!”, assinada por Keila Gimenez, noticiando o fato. No
dia seguinte, em sua versão impressa, a reportagem foi adaptada,
ganhou mais corpo e um novo título: “MPF quer cassar concessão
da Rede TV!”.
Era o começo de uma das típicas coberturas midiáticas em que
as matérias de diversos jornais trazem abordagens bastante pare-
cidas, sempre contando fatos descolados de um contexto mais
abrangente. Estava em jogo, nesse primeiro momento, a cassação
de uma concessão de TV – mas não se falava, por exemplo, da
situação das concessões públicas de radiodifusão no Brasil.
UM PROGRAMA, UM PROCESSO
7272
O resultado da liminar obtida na Justiça ampliou a repercussão. Dani-
el Castro, da Folha de S. Paulo, continuou abordando o tema. No dia
7 de novembro, noticiou em primeira mão que o programa Tarde
Quente seria suspenso. No mesmo dia, a Folha Online reservou
duas matérias para o fato. O Estado de S. Paulo publicou duas
notas sobre a decisão judicial, nos dias 9 e 11 de novembro.
O Estado de S. Paulo – 11/11/2005
A Rede TV! comunica que ainda não recebeu notifi cação judicial
pedindo para tirar João Kleber do ar. Mesmo assim, suspendeu a
exibição da atração para evitar problemas com o Ministério Pú-
blico Federal, que processa a rede.
No mundo dos sites e revistas de “fofocas”, não poderia faltar o
fato de o famoso apresentador João Kleber ter saído do ar. O sí-
tio O Fuxico iniciou uma cobertura intensa do processo, sempre
procurando levantar o lado dos representantes da emissora:
O Fuxico – 08/11/2005
(...) A alegação é de que o programa, com exibições de pegadi-
nhas, vinha denegrindo a imagem dos homossexuais. Mesmo afi r-
mando não ter sido notifi cada ofi cialmente, a direção da RedeTV!
optou por substituir o programa, exibido de segunda a sexta-feira,
das 17h às 18h, pelo seriado infantil Vila Maluca. Sendo assim,
uma nova grade de programação está sendo elaborada.
Procurada pela reportagem de O Fuxico, a assessoria da Rede-
TV! explicou que a emissora irá recorrer para que o programa
Tarde Quente volte a ser exibido. “Não é uma decisão perma-
nente. Vamos recorrer e achamos por bem tirar o programa do
ar, já que tomamos conhecimento da decisão judicial, extra-
oficialmente. (...)
O ápice da cobertura jornalística ocorreu nos dias que sucederam
ao 15 de novembro de 2005, uma semana após a Justiça determi-
nar a suspensão do programa Tarde Quente e um dia depois de a
Rede TV! ter se negado a veicular o programa de contra-propa-
ganda que confi gurava o direito de resposta do Ministério Público
e das seis entidades da sociedade civil. O fato que toda a mídia
precisava para focar suas atenções no assunto: a juíza Rosana Ferri
Vidor havia acatado o pedido de liminar feito pelo procurador Ser-
gio Suiama e determinado que a Agência Nacional de Telecomuni-
UM PROGRAMA, UM PROCESSO
7373
cações (Anatel) CORTASSE PELA PRIMEIRA VEZ na história do Brasil o sinal
de uma emissora comercial de televisão.
Para se ter uma idéia, somente neste dia na Folha Online foram publi-
cadas cinco matérias, com os seguintes títulos e horários:
02h10 – “Rede TV! fi ca fora do ar
10h37 – “Rede TV! continua fora do ar
19h10 – “Justiça mantém Rede TV! fora do ar
21h04 – “Rede TV! tenta acordo para voltar ao ar
22h56 – Após 25 hs, sinal da Rede TV! volta ao ar
No dia seguinte, a edição impressa do jornal noticiava o fato, ironi-
zando o aniversário de seis anos da emissora justamente no dia
em que ela fi cou fora do ar. Na mesma matéria, contava sobre o
acordo feito entre a Rede TV!, o Ministério Público e as entidades,
sob o título “Justiça tira Rede TV! do ar em São Paulo”
Folha de S. Paulo – 16/11/2005
No dia em que completou seis anos de transmissões, a Rede TV!
cou fora do ar na Grande São Paulo por descumprimento de de-
cisão judicial que a obrigava a exibir programas educativos no lu-
gar do “Tarde Quente”, suspenso desde a semana passada sob a
acusação de desrespeitar direitos humanos e de incitar a homofo-
bia por meio de “pegadinhas”.
Ontem, no fi nal do dia, advogados da Rede TV! fi rmaram um acordo com
o procurador regional dos direitos do cidadão, Sérgio Suiama, autor da
ação. Mas, como o acordo dependia de homologação judicial, a Rede TV!
continuava fora do ar até a conclusão desta edição. (...)
O portal do jornal O Estado de S. Paulo publicou duas notas sobre
o ocorrido, uma sobre o corte do sinal e a outra sobre a volta da
emissora ao ar e o acordo. No dia 16 de novembro, reservou parte
de sua edição impressa para explicar o caso:
O Estado de S. Paulo – 16/11/2005
Um acordo homologado ontem à noite determinou que a emissora leve ao
ar programas sobre direitos humanos produzidos por seis ONGs, por 30
dias úteis, no horário do programa Tarde Quente, de João Kleber, alvo da
ação. A Rede TV! pagará multa de R$ 400 mil ao Fundo Federal de
Veja a história
na pág 35
UM PROGRAMA, UM PROCESSO
7474
Defesa dos Direitos Difusos e outros R$ 200 mil para a
produção dos programas das ONGs.
A emissora foi punida por não ter cumprido decisão anterior de exi-
bir tal conteúdo. No dia 24, uma ação civil pública foi protocolada
pelo procurador do MPF e procurador Regional dos Direitos do
Cidadão, Sérgio Suiama. Ele pedia a suspensão do Tarde Quente e
a cassação da Rede TV!, sob acusação de homofobia e de ferir os
direitos humanos. (...)
O jornal O Globo também repercutiu o fato. Mas no dia 16 de no-
vembro ainda estava atrasado em relação ao acordo fi rmado que
viabilizaria o direito de resposta. A matéria intitulada “Justiça tira
do ar a Rede TV!” dizia:
O Globo – 16/11/2005
A Rede TV! foi retirada do ar na noite de anteontem por determi-
nação da Justiça. O sinal por antena da emissora foi interrompido
por ordem da juíza Rosana Ferri Vidor, da 2a Vara Civel Federal,
que deferiu uma liminar do Ministério Público Federal. A transmis-
são via cabo, no entanto, não foi paralisada. Até o início da tarde
de ontem, o sinal por antena ainda estava bloqueado.
A juíza decidiu punir a Rede TV! por descumprimento de uma or-
dem judicial, na semana passada, que obrigava a emissora a exibir
a partir de anteontem programas educativos no lugar do vesper-
tino ‘Tarde quente’, apresentado por João Kléber.
Ontem, por causa do feriado, ninguém foi encontrado na emissora
para falar sobre a suspensão do sinal.
Passados alguns dias das notícias mais “quentes”, o ritmo da
cobertura diminuiu. A fase de produção do Direitos de Res-
posta e o chamamento à participação de toda a sociedade,
com mais de 200 entidades mobilizadas para ocupar aquele
espaço tão caro da TV aberta, parecem não ter chamado
tanto a atenção dos jornalistas como o processo judicial em
si. No espaço noticioso destes grandes meios, passou em
silêncio, por exemplo, o fato de a emissora ter sido ocu-
pada por produtores independentes, ONGs e movimentos
Veja documento
na pág. 48
UM PROGRAMA, UM PROCESSO
7575
sociais, bem como os temas escolhidos para os programas
– afinal, dialogar sobre direitos humanos não é algo comum na
TV aberta brasileira.
A Folha Online mencionou a estréia do Direitos de Resposta
(“Rede TV! estréia Direitos de Resposta”, em 5 de dezembro de
2005), mas não repercutiu nenhuma vez qualquer análise sobre o
programa durante o mês e meio que ele permaneceu no ar.
Folha Online – 05/12/2005
O programa “Direitos de Resposta”, produzido em conjunto
pelo Ministério Público Federal e seis ONGs de defesa de Direi-
tos Humanos e direitos dos Homossexuais, estréia no próximo
dia 12 de dezembro na rede TV!, às 16h, com apresentação de
Anelis Assumpção (apresentadora do programa Atitude.com”,
da TV Cultura). (...)
A atração tem formato de debate. Anelis e mais dois convida-
dos discutem temas sugeridos pelo Ministério Público e pelas
ONGs, como cidadania, direitos humanos, diversidade sexual,
racial, acessibilidade, direito à moradia, direito a terra, meio-
ambiente e comunicação social. (...)
Nesse contexto, duas surpresas: o portal jurídico Última Instância deu
espaço para o chamamento às entidades para o envio de produções
independentes e o sítio de fofocas O Fuxico, além de divulgar o comu-
nicado, também noticiou a estréia do programa. Foi O Fuxico que,
novamente, trouxe à pauta o lado de João Kleber na história. Publicou
uma entrevista em que o apresentador reclama de ter sido violado em
sua “liberdade de expressão artística”.
Na imprensa alternativa, mais profundidade
Quem acompanhou o processo pelos veículos da mídia alternativa teve
uma visão mais ampla do caso Direitos de Resposta. Além de reportar o
fato em si – como fi zeram os grandes jornais –, na mídia alternativa houve
refl exões a respeito do signifi cado histórico da ação para a democratização
dos meios de comunicação. Mais comprometidos em sua origem com a
promoção e defesa dos direitos humanos, esses jornais, revistas e páginas
na Internet revelaram em sua cobertura um certo entusiasmo com a notí-
cia, como se a vitória também fosse deles.
UM PROGRAMA, UM PROCESSO
7676
A cobertura da Agência Carta Maior, por exemplo, debateu o pa-
pel dos meios de comunicação na sociedade e sua hegemonia,
publicando extensa matéria intitulada “Rede TV! pode perder con-
cessão por violar direitos humanos”:
Agência Carta Maior – 27/10/2005
A Constituição Federal, em seu artigo 221, estabelece que a produção
e a programação das emissoras de rádio e televisão devem atender a
princípios como a promoção da cultura nacional e o respeito aos valo-
res éticos e sociais. É, portanto, dentro dessas condições, que empre-
sas são autorizadas pelo Estado brasileiro a explorar comercialmente
o espectro eletromagnético, através das concessões públicas que
recebem. Tais princípios, no entanto, parecem estar longe da grade
de programação de grande parte dos canais abertos da TV brasileira.
Nesta segunda-feira (24), o procurador regional Sérgio Suiama, da
Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão em São Paulo, ajuizou
em conjunto com ONGs que defendem os direitos dos homossexuais
e os direitos humanos uma ação civil pública pedindo a cassação da
concessão da TV Omega Ltda, a Rede TV!.
Tão logo a notícia se espalhou pelas agências de mídia alternativa
na Internet, páginas de ONGs e movimentos sociais comemora-
vam o resultado. Na edição impressa do jornal Brasil de Fato de
17 de novembro, a matéria “Sociedade civil ocupa Rede TV!” exal-
tava o sucesso do acordo:
Brasil de Fato – 17/11/2005
No feriado do dia 15 de novembro, os ativistas de direitos humanos
comemo raram uma vitória. Depois de ter seu sinal cortado por
descumprimento de uma ordem judicial, no dia anterior, a Rede TV!
assinou um acordo com o Ministério Público Federal (MPF) e seis enti-
dades da sociedade civil, das áreas de direitos humanos, comunicação
e do movimento Gays Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros (GLBT). (...)
Esses veículos, como já era de se esperar, noticiaram a estréia, a
programação dos episódios semanais e a continuidade do Direi-
tos de Resposta em ou tras ações de controle público de mídia. O
Brasil de Fato publicou também uma entrevista de página inteira
com o procurador Sergio Suiama sobre o signifi cado do proces-
so. A revista mensal Caros Amigos deu espaço para a repercussão
da audiência do programa, na coluna “Entrelinhas”, assinada por
Hamilton Octávio de Souza:
UM PROGRAMA, UM PROCESSO
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Caros Amigos – Fevereiro/2006
Fato histórico, o programa Direitos de Resposta exibido na Rede TV! de
12 de dezembro a 20 de janeiro, como punição judicial às baixarias apre-
sentadas por João Kleber, provou, inclusive com aumento de audiência,
que é possível fazer televisão com bom conteúdo social, qualidade técnica
e responsabilidade ética. Coordenaram a produção dos trinta programas
as seguintes entidades: Ação Brotar pela Cidadania e Diversidade Sexual;
Associação da Parada do Orgulho dos Gays, Lésbicas, Bissexuais e Trans-
gêneros de São Paulo; Associação de Incentivo à Educação e Saúde de
São Paulo; Centro de Direitos Humanos; Identidade – Grupo de Ação pela
Cidadania Homossexual; Intervozes e Ministério Público Federal – Procura-
doria Regional dos Direitos do Cidadão. Uma exemplar vitória do povo.
Limites e barreiras
Um primeiro olhar sobre esse conjunto de reportagens veiculadas
do dia em que a Ação Civil foi protocolada até o fi nal da exibição
dos programas – que não esgota, de maneira alguma, a totalidade
de matérias sobre o processo – mostra que existem limites e bar-
reiras a serem vencidas para uma boa cobertura jornalística de um
caso que questione a própria mídia.
Para os grandes meios, como era já esperado, o principal fato de
todo esse enredo foi o corte de sinal da emissora. A apresentação
da Ação Civil Pública gerou alguma repercussão e foi o combustí-
vel que aqueceu a bomba jornalística que viria a explodir em 15
de novembro de 2005. Passado o acordo, o assunto voltou a esfriar
nas páginas dos grandes jornais, que pouco enxergaram o que real-
mente signifi cava esse processo.
Difi cilmente essa mesma grande imprensa, parte de monopólios
e de grande poder político e econômico, levará para suas páginas
impressas, eletrônicas ou programas de rádio e televisão a cons-
tatação de que o caso Direitos de Resposta revelou a ponta de um
iceberg: a mobilização da sociedade civil para mudar toda a estru-
tura hegemônica dos meios de comunicação no país, discutindo
o papel de concessões públicas de radiodifusão e a efetivação do
direito humano à comunicação.
UM PROGRAMA, UM PROCESSO
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Programa chama a atenção de articulistas
Se nas páginas de notícias da grande imprensa o processo Direitos de Resposta
não extrapolou as barreiras da cobertura dos fatos em si, em dois artigos de opinião
publicados nesses mesmos jornais a reflexão existiu.
Um deles, publicado na Folha de S. Paulo, é assinado pela antropóloga e profes-
sora da Escola de Comunicação e Arte da USP Esther Hamburger, com o título
“Direitos de Resposta” defende direito à diferença”.
Folha de S. Paulo – 14/12/2005
A idéia de direitos humanos surgiu no século 18; uma idéia inovadora baseada em uma
abstração: a de que somos todos iguais. “Eu” “sou” “diferente” era o bordão pronunciado
por partes, sucessivamente, por pessoas anônimas, em um clipe transmitido durante um
dos intervalos da primeira edição de “Direitos de Resposta”. Como um grito de guerra, a
frase sintetiza o espírito da coisa.”Direitos de Resposta” é um programa inédito, produzido
pelo Ministério Público Federal e seis ONGs de defesa de direitos humanos e direitos dos
homossexuais. (...)
O desafi o para o grupo de admiráveis combatentes que levou a ação à frente é deixar fl uir
a criação. Está mais do que na hora das emissoras que não o fazem justifi carem as con-
cessões públicas que exploram. Não há nada de complicado nisso, basta pensar duas vezes
antes de produzir programas baratos que bebam exclusivamente no discurso ofensivo.
Merece destaque também o artigo intitulado “TV mais responsável”, assinado
por Leila Reis na coluna Telejornal de O Estado de S. Paulo. A articulista discorre
sobre a estréia do Direitos de Resposta como “um programa absolutamente fora
dos padrões da TV brasileira”:
O Estado de S. Paulo – 11/12/2005
O Estado de S. Paulo – 11/12/2005
(...) Assim, entra no ar um programa cuja fórmula anunciada é um debate e a exibição de
programas sobre direitos humanos. Os temas tratam do combate à discriminação sexual,
racial, a fome, a defesa dos direitos da criança e do adolescente, da reforma agrária, direito
à comunicação, etc. A Intervozes, uma das organizações envolvidas, recebeu mais de 100
tas candidatando-se a entrar no vídeo. A seleção dará vez àquelas com um padrão técnico
minimamente compatível com o da TV.
Não cabe discutir a priori o resultado do que vai ao ar. Mas, independentemente de
qualquer coisa, esse fato é inédito na TV brasileira e remete a algumas constatações.
(...) existe uma demanda reprimida de criadores em busca de um canal de expressão.
UM PROGRAMA, UM PROCESSO
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São esses documentaristas, cineastas, videomakers – seja lá como se chamam – que se
mexeram para batalhar uma oportunidade de aparecer na TV. Eles não podem ser acusados
de artistas em busca do estrelato. Como criadores, buscam legitimamente atingir um
público do tamanho que só a TV consegue arrebanhar.
(...) pela primeira vez na vida da televisão brasileira (que nasceu em 1950), a Justiça olha
para o conteúdo da programação a pedido de representantes de cidadãos ofendidos e lhes
dá razão, punindo efetivamente uma emissora (a Rede TV! fi cou 25 horas fora do ar por não
colocar os programas educativos no horário do Tarde Quente). (...)
Na verdade, o que ocorreu – e parece que a opinião pública assim entendeu – é que o Minis-
tério Público acatou reclamação de representantes de brasileiros (defi cientes, negros e
homossexuais) que se sentiram prejudicados pela televisão e a Justiça deu ganho de causa
aos ofendidos. No que nos tange, esse ato é exemplar, porque responsabiliza fi nalmente as
emissoras pelo que colocam dentro da casa dos brasileiros.
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UM PROGRAMA, UM PROCESSO
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O Estado de S.Paulo – editorial de 20 de novembro de 2005
Mudança de hábito
Por determinação da Justiça, a RedeTV! fi cou 25 horas fora do ar – na rede aberta, pois
no satélite e nos canais pagos tudo esteve como antes – de segunda para terça, gerando
uma pequena polêmica sobre volta de censura e responsabilidade sobre a qualidade da
programação.
O pivô do caso foi o programa de João Kleber, o diurno, que responde pelo título de Tarde
Quente. Para quem não percebeu a ausência ou a discussão é bom rever os fatos. ONGs
ligadas aos direitos humanos denunciaram ao Ministério Público o programa por conter
quadros – de pegadinhas – que desrespeitavam cidadãos brasileiros sob pretexto de
fazer humor. O programa foi retirado do ar por 60 dias, por “humilhar, ofender e reforçar
preconceitos contra homossexuais, mulheres, negros, idosos e pessoas com defi ciência”.
A Justiça determinou que o horário do programa fosse preenchido por material educativo.
Como isso não aconteceu, a RedeTV! foi penalizada com o corte do sinal.
A atitude surpreendeu a emissora e o mercado. Falou-se em truculência, exagero do poder
público, etc. A razão do susto foi por se tratar de uma ação inédita no Brasil democrático.
Mas convém colocar as coisas no foco correto. Ao atuar energicamente, a Justiça nada
mais fez do que honrar a Constituição Federal que, no capítulo sobre Comunicação Social,
trata com a maior clareza dos princípios que devem nortear o conteúdo do rádio e da TV.
O artigo 221 reza que a programação deve, entre outros, dar “preferência a fi nalidades
educativas, artísticas, culturais e informativas” e respeitar “os valores éticos e sociais da
pessoa e da família”.
Dessas preocupações, programas como os de João Kleber nunca poderão ser acusados.
Quando são chamadas à atenção para o exagero no mau gosto, as emissoras apontam o
dedo para nós, telespectadores, com o argumento da audiência. Se esses programas levan-
tam o ibope é porque o público (nós) gosta da baixaria. E, como dono do controle remoto,
é o responsável pela qualidade da TV a que assiste. E qualquer intervenção nessa relação
TV-telespectador fere a livre concorrência, além de signifi car a volta da nefasta censura.
São ilusões que produtores de TV vendem como argumentos. Quando se pula de um canal
para outro e se depara com o mesmo tipo de show, cai por terra o argumento da opção. Es-
colher entre coisas iguais não é decidir. Neste país, cujos domicílios têm mais aparelhos de
TV que geladeiras (98 ante 95% segundo o PNAD, do IBGE) e onde há rincões onde a única
janela para o mundo é a TV, o mercado não pode ser o regulador exclusivo dessa relação.
Como concessão pública, o conteúdo da TV merece mais atenção do poder público.
Bem verdade é que as pegadinhas de João Kleber não estão sozinhas nesse mar de des-
respeito ao cidadão. E que ele não pode ser responsabilizado sozinho pela cota de baixaria
que permeia a programação da RedeTV! Há também em outros canais shows construídos
à custa da humilhação de brasileiros avisados e desavisados, em que grassam atitudes
preconceituosas para com gays, mulheres, negros, defi cientes. Mas, por incrível que possa
parecer, João Kleber presta um grande serviço para a melhoria do conteúdo da TV. A sua
punição e a da emissora que o contrata são exemplares porque acenam para a sociedade
civil que transgressões cometidas pela TV são passíveis de acarretar conseqüências
concretas. E põem mais juízo na cabeça daqueles que produzem coisas que descambam
para o mau gosto.
UM PROGRAMA, UM PROCESSO
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A REPERCUSSÃO
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UM PROGRAMA, UM PROCESSO
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ENTREVISTA:
Daniel Castro, colunista da Folha de S.Paulo
Você foi o primeiro a noticiar que a Ação Civil Pública seria movi-
da contra a Rede TV!. Como você fi cou sabendo e o que achou
daquilo?
Acompanhei o trabalho do Sergio Suiama na preparação dessa
Ação. A assessoria de imprensa do Ministério Público e o Inter-
vozes me informavam de todo o andamento do processo, me
deixavam a par de tudo. O pedido de cassação, pra mim, era uma
atitude drástica, um exagero, mas entendi que era uma forma de
se conseguir algo: tem que pedir sempre o dobro pra se conseguir
a metade.
Qual sua opinião sobre o fato de a juíza ter acatado o pedido de
liminar e a emissora ter se negado a cumprir a determinação da
Justiça e não receber os ofi ciais com a contra-propaganda?
A Justiça foi bastante rigorosa, tirou a Rede TV! do ar. Foi um pro-
cesso de desgaste, a Rede TV! ignorou uma decisão judicial, isso
não aconteceria em nenhum outro país. Mas essa coisa de não
receber ofi cial de justiça, isso já era normal lá dentro, eles estavam
tendo um monte de problemas, cerca de 2.700 processos traba-
lhistas em andamento.
As mídias impressas, principalmente os jornais, cobriram mais o
processo do que as emissoras de rádio e televisão. Ainda assim, é
muito difícil a mídia falar dela mesma no Brasil. O que você acha
disso?
Os jornais são mídias pequenas se comparados com a televisão,
mas são importantes por serem lidos por formadores de opinião.
Uma das áreas da imprensa que também tem pautado muito o
audiovisual é a mídia eletrônica. Não tem como não cobrir, a TV
faz parte da vida das pessoas de forma inexorável, todo cidadão
brasileiro assiste. Então, os jornais, desde a década de 1990, têm
dedicado espaço à cobertura de televisão. Mas quando falamos
de TV, muitas vezes conseguimos interferir em outras mídias.
O que explica uma atenção maior da mídia a certos momentos do proces-
so, como corte de sinal da Rede TV!, e pouca referência, por exemplo, aos
programas que foram veiculados durante 30 dias?
UM PROGRAMA, UM PROCESSO
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Quando a Rede TV! saiu do ar criou-se o fato e aí virou notícia.
Todo mundo pautou. Mas os 30 programas não foram noticiados,
passaram meio batidos. Eu, no caso, poderia até ter feito uma re-
portagem maior, mas acabei não dando espaço. Cheguei a ver um
ou outro programa, mas achei que também faltou divulgação por
parte da produção. Agora, os meus coleguinhas jornalistas que co-
brem televisão são mais focados em fofocas, novelas, essas coisas.
E a grande maioria dos repórteres acha esse assunto, direitos hu-
manos, muito chato. Não dá ibope e é difícil de tratar. Quando
eu falo em classifi cação indicativa de novela, parece que estou
falando sozinho.
Se a Ação Civil fosse movida contra uma emissora maior, como a
TV Globo, teria espaço na mídia?
Minha coluna dialoga muito com o interesse público e o interesse
de mercado. Tive respostas sobre o caso e todos apoiavam; não
houve nenhuma solidariedade ao João Kleber. O leitor de jornal
não é consumidor daquele lixo. Agora, é mais fácil comprar briga
com a Rede TV! nessa área. A Globo é muito forte e, ainda mais,
tem tido a preocupação de ser politicamente correta.
Você é a favor desse tipo de controle público da mídia?
Sou a favor da liberdade de expressão, mas também acho neces -
s árias essas ferramentas de controle. Todo esse processo e a de-
cisão foram coisas inéditas para a TV brasileira, e isso teve infl uên-
cia para a sociedade começar a questionar a programação.
O João Kleber alegou que estávamos violando sua liberdade de
expressão artística.
A liberdade artística a que ele se refere é questionável, afi nal é
uma arte de gosto duvidoso. Ele tem o direito de colocar o que
quiser no ar, desde que não viole direitos humanos e achincalhe
as minorias. O programa era uma bandalheira total: o teste de fi -
delidade, as pegadinhas, era tudo armado. Assim como o Ratinho,
no SBT. Depois a própria Rede TV! tirou o João Kleber do ar. Ele já
estava pra ser banido da TV há muito tempo.
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UM PROGRAMA, UM PROCESSO
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UM PROGRAMA, UM PROCESSO
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A
REPER
CUSS
Ã
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UM PROGRAMA, UM PROCESS
O
Silêncio nas emissoras de rádio e TV
Se já não é comum – embora exista – a abordagem de temas re-
lacionados aos grandes grupos de mídia em veículos impressos, o
silêncio nas emissoras de rádio e TV quando se trata desse tema
é bem maior. Sobre o Direitos de Resposta, falou-se quase nada.
Não é difícil entender a razão: se “a moda pega”, praticamente a
totalidade das emissoras estaria sujeita a receber punições pelas
violações de direitos humanos em suas programações. Na opinião
de Laurindo Lalo Leal Filho, professor de comunicação da Universi-
dade de São Paulo e da Faculdade Cásper Líbero, a televisão discute
tudo, mas é absolutamente insensível e impermeável a qualquer
tipo de análise sobre seu conteúdo. “Com a concentração, o pro-
blema pode ser tornar ainda mais sério. Por pertencerem a grandes
corporações, que possuem concessões de rádio e TV, alguns jornais
também não abrem espaço pra crítica da TV. Isso é um perigo para
a democracia”, acredita Lalo.
Quebrando momentaneamente o silencio televisivo, uma notí-
cia foi dada pelo Jornal Nacional, da Rede Globo, abordando
o corte do sinal da Rede TV! determinado pela Justiça e o fato
de a emissora ter ficado 25 horas fora do ar. Ainda que curta e
breve, uma nota foi ao ar.
Jornal Nacional – 15/11/2005
A Rede TV, emissora com sede em São Paulo, está fora do ar desde às
21h da noite de ontem nos canais abertos. O sinal da emissora foi cortado
por determinação da juíza federal Rosana Ferri porque a Rede TV não
cumpriu uma ordem judicial. A emissora deveria exibir no horário do
programa “Tarde Quente” um direito de resposta preparado por entidades
ligadas aos direitos humanos. No fi nal da tarde, a direção da Rede TV se
comprometeu a veicular durante 30 dias úteis programas relacionados ao
cumprimento dos direitos humanos. Também deve pagar R$ 400 mil de
indenização. Assim que o acordo for homologado pela Justiça, a Rede TV
terá seu sinal liberado.
Já na própria Rede TV!, o Direitos de Resposta foi alvo do programa Pâni-
co, que tem também uma versão radiofônica transmitida pela Jovem Pan
FM na cidade de São Paulo. Seus apresentadores são os próprios produ-
tores do espetáculo de esculhambação alheia. O objetivo é simples: re-
baixar qualquer pessoa ao ridículo através de um suposto humor. Assim,
a cobertura do processo foi contra a “censura” cometida pelo Minis tério
Público e as entidades da sociedade civil.
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UM PROGRAMA, UM PROCESSO
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MÍDIA, PARTICIPAÇÃO POPULAR E DEMOCRACIA
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MONITORANDO AS
POLÍTICAS DE COMUNICAÇÃO
Como vimos, diversas iniciativas da sociedade civil vêm contribuindo
para a construção de uma cultura de monitoramento e fi scalização da
mídia, a partir do desenvolvimento de mecanismos de controle público
e social do conteúdo veiculado nos meios de comunicação, especial-
mente na televisão. Além de ser uma concessão pública – o que, por
conseqüência, já a torna legalmente objeto de controle público –
A
TELEVISÃO É O MEIO DE COMUNICAÇÃO MAIS IMPORTANTE DO PAÍS, fonte de infor-
mação e lazer da maioria da população. Daí o monitoramento do que ali é
transmitido ser tão importante. Sem ele, o abuso na exploração comercial
da televisão tende a se tornar comum, como é o caso brasileiro.
Entretanto, falar de controle público dos meios de comuni-
cação significa mais do que fiscalizar o conteúdo da televisão.
Tal tipo de controle é um instrumento de garantia do direito
humano à comunicação; um elemento que assegura a todas
as pessoas e grupos sociais a condição de participar de forma
ativa do universo das mídias. Em outras palavras, é pela par-
ticipação popular via controle público que se garante a de-
mocratização das comunicações, a pluralidade e a diversidade
nos conteúdos veiculados, o acompanhamento transparente
das concessões públicas, a não instituição de monopólios e
oligopólios, a garantia da liberdade de expressão e o direito
à informação.
No Brasil, inexistem mecanismos institucionalizados – muitos deles consa-
grados na Europa e em países como EUA, Canadá e Japão – que possibilitem
um controle dessa natureza. Fizessem tais instrumentos parte de nossa reali-
dade, a mídia nacional não seria um dos maiores obstáculos à consolidação
da democracia brasileira. Afi nal, é justamente a observância de princípios
democráticos que impede a instituição de privilégios, a censura dos gover-
nantes ou dos monopólios da comunicação e o abuso na exploração das
concessões públicas.
Veja dados
na pág. 14
Confira também
o quadro na pág. 23
MÍDIA, PARTICIPAÇÃO POPULAR E DEMOCRACIA
8686
de cercear a liberdade de expressão é, na verdade, uma tentativa de
desqualifi car a defesa de uma comunicação democrática e do fi m
dos privilégios. Quem se benefi cia da ausência de mecanismos que
garantam uma maior democracia nas comunicações, não é de se
estranhar, faz o que pode para manter as coisas como estão.
Que cenário é esse
Num país em que a mídia de massa nasceu e, historicamente, se
consolidou como privada, baseada em monopólios, atualmente
apenas seis redes privadas nacionais de televisão aberta e seus 138
grupos regionais afi liados controlam 667 veículos de comunicação.
Seu vasto campo de infl uência se capilariza por 294 emissoras de
televisão VHF que abrangem mais de 90% das emissoras nacionais.
Somam-se a elas mais 15 emissoras UHF, 122 emissoras de rádio
AM, 184 emissoras FM e 50 jornais diários .
Da mesma forma, não há mecanismos que impeçam o monopólio
da audiência de televisão por uma única emissora. Não há uma
legislação que responsabilize o Estado brasileiro pelo fortalecimento
e viabilização de veículos de pequena circulação/alcance e de
caráter público e comunitário. As verbas publicitárias do governo
federal continuam a ser distribuídas tendo como critério os índices de
audiência ou circulação, o que reforça a concentração e a tendência
à oligopolização.
Ao mesmo tempo, apesar do pequeno aumento no número de pes-
soas que têm acesso às novas tecnologias e, conseqüentemente, à
Internet, o país segue com um índice de exclusão digital que traduz
de forma bastante clara o abismo que separa pobres e ricos. Em
2006, enquanto alguns países já haviam universalizado o acesso à
rede mundial de computadores, dados do Comitê Gestor da Inter-
net no Brasil (CGIBr) mostram que a imensa maioria da população
brasileira nunca acessou a Internet. Somente 33,3% dos brasileiros
já tiveram contato com a rede. Entre os mais pobres, esse número
cai para assustadores 12,2%.
MÍDIA, PARTICIPAÇÃO POPULAR E DEMOCRACIA
8787
A análise do cenário das políticas públicas de comunicação no Brasil
também mostra um quadro regulatório complexo. O Código Brasileiro
de Telecomunicações é de 1962, modifi cado em 1967 durante o
período da ditadura militar, e desde então sujeito a fragmentações.
Enquanto isso, os principais artigos da Constituição Federal relativos à
Comunicação Social permanecem sem regulamentação – entre eles,
o que impediria o oligopólio dos meios de comunicação (art. 220)
e o que criaria exigências mínimas de programação para as emis-
soras de rádio e televisão (art. 221). A ausência de regulamentação
também atinge o art. 223, que estabelece o princípio da complemen-
taridade entre os sistemas público, privado e estatal na radiodifusão,
resultando hoje no fato de as emissoras de rádio e televisão serem
majorita riamente controladas por empresas privadas.
Neste contexto, a participação popular no monitoramento e acom-
panhamento da mídia para além do conteúdo se transforma numa
importante ferramenta de construção da democracia no setor. Em
outros campos de direitos humanos, como no caso da Saúde e da
Educação, tal princípio é comumente conhecido como “gestão
democrática” ou “controle social”. Trata-se da participação real – e
não alegórica, em que a sociedade é chamada somente em caráter
“consultivo”, sem poder real de participação – na fi scalização e
gestão das políticas públicas. Como veremos a seguir, o exercício do
controle público dos diferentes aspectos da comunicação também
se mostra urgente e indispensável.
Para que ele se torne efetivo, antes de mais nada, no entanto, são
necessárias medidas que garantam aos cidadãos uma formação em
leitura crítica da mídia – em especial durante o período escolar
– para que os indivíduos reajam de modo crítico diante da informa-
ção e sejam cidadãos ativos no processo comunicativo. Cidadãos
conscientes, independentes e autônomos em relação à mídia não
são “manipuláveis” e podem lutar e zelar por todos os seus direitos:
à comunicação, à saúde, ao trabalho, à educação, etc.
MÍDIA, PARTICIPAÇÃO POPULAR E DEMOCRACIA
8888
Limites à concentração abusiva
O domínio da circulação da informação e da infra-estrutura das co-
municações por um ou por poucos grupos inviabiliza a pluralidade
e a diversidade de meios e conteúdos. Daí a importância de, através
do controle público, a população cobrar do Estado medidas que
combatam a instituição de monopólios no setor. Neste caso, medi-
das legislativas – que deveriam ser criadas pelo Congresso Nacional
– poderiam ser aplicadas para criar barreiras para que, em uma região
específi ca, por exemplo, um mesmo grupo proprietário de jornais e
emissoras de rádio e TV se torne líder em todos os seus segmentos
das comunicações.
No Brasil, por não existirem normas construídas a partir deste
princípio, muitas oligarquias regionais – conservadoras, em sua
totalidade – comandam jornais diários campeões em circulação,
revistas, emissoras de televisão e rádio líderes em audiência e por-
tais na Internet. Até os Estados Unidos, considerados o berço dos
ideais liberais dessas mesmas oligarquias, possuem normas legais
dessa natureza.
O combate à monopolização dentro de uma mesma área ou setor,
como ao domínio completo de determinada infra-estrutura de trans-
missão (como o cabo, as transmissões por satélite ou as redes de tele-
fonia), é outra forma de se impor limites à concentração abusiva.
Pluralidade e diversidade
Quanto mais plurais forem a produção e a difusão de informação,
mais democrática será a sociedade. Por isso, uma vez combinados
os limites à concentração abusiva, é fundamental a introdução de
mecanismos que busquem garantir maior igualdade de acesso dos
indivíduos e dos grupos sociais aos meios de comunicação. A melhor
forma de garantir a diversidade – cultural, regional e ideológica – no
conteúdo veiculado é a valorização de mídias de caráter público, sem
MÍDIA, PARTICIPAÇÃO POPULAR E DEMOCRACIA
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MÍDIA, PARTICIPAÇÃO POPULAR E DEMOCRACIA
ns lucrativos, e comunitário, cuja sustentabilidade deve ser priori-
dade das políticas de Estado. No entanto, inversamente ao que acon-
tece em muitos países (nos chamados desenvolvidos, notadamente),
onde estas emissoras possuem grande audiência e respeitabilidade, no
Brasil, o sistema público praticamente não exis te. Além disso, aqui
a perseguição política às rádios comunitárias ainda é rotina.
Outra forma de estímulo e promoção da pluralidade e diversidade é
o incentivo à produção e veiculação de conteúdo regional. Evita-se,
assim, o desequilíbrio entre a cidade e o campo ou entre diferentes
regiões do país, com a indesejável infl uência desproporcional de
determinadas culturas sobre outras. E, para concretizar a regionali-
zação do conteúdo, o controle público na fi scalização de políticas
de descentralização da produção é o primeiro passo.
Perspectivas de controle público no Brasil
Esperamos que esta publicação tenha ajudado você ou sua orga-
nização a entender um pouco mais sobre controle público e sua
importância para a garantia do direito humano à comunicação. À
luz do caso do Direitos de Resposta, foram apresentados caminhos
para exigir, na prática, os direitos que pertencem a todos, como o
de não receber, pela televisão, conteúdos preconceituosos, racistas,
homofóbicos, machistas ou que desrespeitem qualquer pessoa. Como
já vimos, as emissoras de televisão recebem, em nome da população,
uma concessão pública para transmitir seu conteúdo e, por isso, a
condição essencial para que continuem a fazê-lo é respeitar integral-
mente os direitos humanos.
Infelizmente, no Brasil, este e outros princípios fundamentais de
uma sociedade democrática ainda permanecem adormecidos. O
exercício e a fruição de uma comunicação livre, baseada no interesse
público, em que todas as pessoas e os grupos sociais tenham direito
de participar da produção e difusão de informação, mantêm-se, em
pleno século XXI, desprezados pelos poderes do Estado brasileiro. As
9090
profundas desigualdades no acesso aos meios de produção e difus ão
de conteúdo no país, especialmente na televisão, são assustadoras;
as rádios comunitárias permanecem sendo perseguidas; a exclusão
digital mantém-se regra e, mais grave, permanecemos sem mecanis-
mos efi cazes e democráticos de intervir nesse cenário.
Contudo, como mostra a experiência do Direitos de Resposta, há
caminhos para fazer valer o direito à comunicação. Um deles é o
controle público da mídia em seus mais diferentes aspectos – da pro-
gramação transmitida às políticas de concessão. É em possibilidades
como esta que os defensores da democratização das comunicações
podem, e devem, se agarrar. A partir delas, surgem novas oportuni-
dades em que é possível semear a construção de uma sociedade justa,
onde o respeito, a garantia e a efetivação do direito à comunicação
– e dos demais direitos humanos – sejam, de fato, uma realidade.
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