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Universidade da Amazônia
Contrastes e
Confrontos
de Euclides da Cunhade Euclides da Cunha
NEAD – NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
Av. Alcindo Cacela, 287 – Umarizal
CEP: 66060-902
Belém – Pará
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Contrastes e Confrontos
de Euclides da Cunha
HERÓIS E BANDIDOS
Num dia de setembro de 1820 chegou à tristonha Assunção, do Dr. Francia,
um prisioneiro ilustre e sexagenário, a quem, entretanto, não se concedera o preito
da mais diminuta escolta. Vinha só; passou, a cavalo, pelas longas ruas retilíneas e
retangularmente cruzadas, entre janelas de grades, à maneira de extensos
corredores de uma prisão vastíssima, e descavalgou no largo onde se erige o
palácio do governo.
Viu-se então que a idade o não abatia. Num desempeno de rapaz atlético
aprumava-se-lhe a estatura elegantíssima entre as voltas do poncho desbotado que
lhe desciam ate. às botas de viagem, flexíveis e armadas das rosetas largas das
esporas retinindo ao compasso de um andar seguro.
Grande sombrero de abas derribadas cobria-lhe a meio a face magra; e
naquela lace rígida, cindida de linhas incisivas e firmes — como se um buril
maravilhoso ali rasgasse a imagem da bravura, num bloco palpitante de músculos e
nervos - um olhar dominador e duro, velado de tristeza indescritível.
Era José Artigas, o motim feito homem, o primeiro molde dos caudilhos,
primeiro resultado dessa combinação híbrida e anacrônica de D. Quixote, do Cid e
de Hernani — a idealização doentia, a coragem esplendorosa e o banditismo
romântico — indo perpetuar na América a ociosidade turbulenta, a monomania da
glória e o anelo de combates que sacrificaram a Espanha do século XVII.
Correra-lhe a vida aventurosa e tumultuaria. Chefe de contrabandistas
arremessado à ventura pelas cochilhas da Banda Oriental e do Rio Grande,
transformara-se logo depois, com o mais doloroso espanto dos quadrilheiros
condutícios, em capitão de carabineiros da metrópole que o captara, impondo-lhe o
exercitar sobre os antigos sócios de desmandos uma fiscalização incorruptível e
feroz, até que se voltasse contra a mesma metrópole, transmudado em tenente-
coronel revolucionário, e avantajando-se aos maiores demolidores do antigo vice-
reinado, ou se transfigurasse de chofre em general, "yef de los Orientales y protector
de las ciudads libres", arremetendo com os irmãos de armas da véspera e
destruindo a solidariedade platina, com o afastamento do Uruguai.
Salteador, policial, revolucionário, chefe de governo.. — Por fim, caiu. A tática
estonteadora quebraram-lha os voluntários reais de Lecor, endurecidos na disciplina
incoercível de Beresford; e traído pelos seus melhores sequazes, sem exército e
sem lar, errante e perseguido, viera bater às portas do seu mais sinistro adversário,
a quem tanto afrontara nas antigas tropelias.
O ditador não lhe apareceu, mas não o repeliu: mandou-o para um convento.
Extraordinário e enigmático Dr. Francia! Este ato denuncia-lhe do mesmo
passo a índole retrincada, a ironia diabólica e a ríspida educação política que tanto o
incompatibilizava com o heroísmo criminoso daqueles esmaniados cavaleiros
andantes da liberdade. Entre o borzeguim esmoedor e a estrapada desarticuladora
só lhe dependiam de um gesto todos os requintes das torturas: escolheu uma cela e
constringiu ali dentro, entre paredes nuas, sobre alguns metros quadrados de
soalho, uma vida que se agitara desafogadamente nos cenários amplíssimos dos
pampas.
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A vingança era, como se vê, antes de tudo, uma lição duríssima, mas foi
improdutiva.
Artigas deixara no estado Oriental o seu melhor discípulo, Fructuoso Rivera, e
em torno deste e de seu êmulo e companheiro de armas, Lavalleja, veio
desdobrando-se até ao nosso tempo esta interessantíssima frandula de heróicos
degenerados que invadem desabaladamente a história, fugindo da polícia
correcional, e vem desfilando ante a civilização, surpreendida, sob aspectos vários,
que vão do astucioso Urquiza a esse desassombrado Aparicio, que nesta hora
convulsiona to das as paragens entre o Taquerembó e o Salto.
Em todos, uniformes na disparidade dos tempera mentos, do sanguinário
Oribe ao destemeroso Lavalleja, que nos arrebatou a Cisplatina, os mesmos traços
característicos: a combatividade irrequieta, a bravura astuciosa e a ferocidade não
raro sulcada de inexplicáveis lances generosos.
Traçar-lhes a história é fazer em grande parte a nossa mesma história militar.
Quase toda a nossa atividade guerreira tem sido uma diretriz predominante naquela
fronteira perturbadíssima do Rio Grande, ha cem anos batida a patas de cavalos, e
estirando-se como longo diafragma por onde nos penetra, numa permanente
endosmose, o espírito febril da caudilhagem, obrigando-nos por vezes a colaborar
também, a pontaços de lanças, naquelas revoluções crônicas e naquele regime
clássico de tropelias.
Ali, na longa faixa que se estira de Jaguarão ao Quaraim, o gaúcho resume,
na envergadura possante e no ânimo resoluto e inquieto, os traços proeminentes de
dois povos. Não ha destaca-los às vezes. O bravo e versátil Rivera copia servilmente
o versátil e bravo Bento Manoel; Lavalleja, um Bayard vibrátil e volúvel, afeiçoado a
todas as temeridades, se acaso o nobilitasse a disciplina, irromperia na figura
escultural do primeiro Mena Barreto.
Ainda agora o Aparicio oriental tem uma larva, o João Francisco rio-
grandense: acorrentai o primeiro num posto sedentário, e terei o molosso
ferocíssimo da fronteira; arremessai o segundo pelo revesso das cochilhas, e vereis
o caudilho...
Daí as surpresas que muitas vezes nos saltearam naquelas bandas. Notemos
uma, de relance. A guerra do Paraguai, em que pese aos seus velhos antecedentes,
teve, inegavelmente, um prelúdio muito expressivo nas ruidosas "califórnias", que
arrebataram os nossos bravos patrícios aos entreveros entre blancos e cobrados. A
primeira bandeira que ali congregou brasileiros e orientais foi o pala do general
Flores, desdobrado e ruflando nas correrias vertiginosas. E quaisquer que fossem
depois os milagres de uma diplomacia que desde 1853 e 185S vinha lentamente
suplantando o malmequer e a vesania de Lopez, talvez não nô-lo impedisse mais,
desde a hora em que os pealadores de um e de outro lado, guascas e gringos, mas
uniformemente gaúchos, entrelaçassem, sobre o solo vibrante das campinas, os
laços e as bolas silvantes, objetivando a fraternidade sanguinolenta que os atrai
àqueles trágicos divertimentos, e às arrancadas súbitas, e às batalhas
originalíssimas e minúsculas dispersas em torneios céleres, feitas de perseguições e
de fugas, e nas quais raro se queima um único cartucho, porque ao lidador
selvagem o que sobretudo apraz é desfechar sobre o contrário os golpes
simultâneos de cinco armas formidáveis - a lança e as quatro patas do cavalo...
Ora, esta identidade de estímulos, efeito de antiquíssimo contagio, reveste-
nos de importância considerável a situação atual do Uruguai. Entretanto, atraída por
outros sucessos, toda volvida para a Amazônia ameaçada, ou para o enorme duelo
do Extremo Oriente, a opinião geral mal se impressiona com aquelas desordens. Um
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ou outro telegrama, impertinente e mal lido, entre outros casos de maior monta, nos
denuncia de longe em longe que o caudilho rebelado ainda respira.
A despeito de não sabermos quantas derrotas para logo corridas com outras
tantas fugas triunfais, rompendo entre as tropas do governo vitoriosas e
desapontadas — no "Passo dos Carros" em Taquarembó, em Daymam, em Salto,
em Santa Luzia e em Santa Rosa, na Concórdia, no Aceguai e em toda a parte — a
revolta irradia para todos os lados, intangível e invencível, espalhando alarmas
desde Montevidéu, inopinadamente ameaçada de um assalto, às remotas
povoações e estâncias do interior, de súbito despertadas pelo tradicional ahy
vienem! que há um século por ali espalha e atira fora dos lares as gentes retransidas
de espanto ante o estrupido dos cavaleiros errantes e ferozes...
Vencido pelo general Moniz desde os primeiros dias da luta; acutilado, e
algumas vezes morto a golpes de telegramas; erradio, ou fugindo com os restos de
uma tropa desmoralizada, para o abrigo da nossa fronteira salvadora, Aparício
Saraiva recorda uma paródia grosseira do herói macabro do "Romancero", morto e
espavorindo os inimigos.
Pelo menos a sua revolução, tantas vezes destruída e tantas vezes
renascente, tem a estrutura privilegiada dos polipos: despedaçá-la é multiplicá-la.
Ainda neste momento, rijamente repelido do Salto, este combate perdido
parece ter tido o efeito único de remontar-lhe a cavalhada, permitindo-lhe a divisão
das forças em três corpos que, dirigidos por ele, por Lamas e Muñoz, vão refluir de
novo sobre todo o Uruguai e reeditar a mesmice inaturável das refregas inúteis e das
correrias e das derrotas e das eternas vitórias telegráficas — enfeixadas todas numa
anarquia deplorável cujo termo e cujas conseqüências dificilmente se prevêem.
Lutas à gandaia, adstritas ao sustento aleatório das estâncias saqueadas, em
que o soldado surge pronto de todos os lados, laçando os adversários como laça os
touros bravios, combatendo ou "parando o rodeio", sem notar diferenças nas
azáfamas perigosas, elas podem prolongar-se indefinidamente.
Bastam-lhes como recursos únicos alguns ginetes ensofregados e a pampa: a
disparada violenta e o plaino desimpedido; a velocidade e a amplidão...
Daí os seus principais inconvenientes. O duradouro dessas desordens à
ourela de uma fronteira agitada fez sempre a mais prejudicial dissipação dos nossos
esforços e do nosso valor.
Quando se traçar o quadro emocionante das nossas campanhas do sul, que
vêm, desde as arrancadas na colônia do Sacramento, desdobrando-se numa
interminável série de conflitos sulcados de armistícios e de desfalecimentos, ver-se-á
que aos nossos melhores generais coube sempre o arriscadíssimo papel de uns
tenazes e brilhantes caçadores de caudilhos e de tiranos irrequietos.
Felizmente, mudaram-se os tempos.
E certo não mais nos atrairão a dispendiosas aventuras aqueles estonteados
heróis, singulares revenants, que nestes tempos de utilitarismo positivo exigem
apenas, prosaicamente, e de acordo com a lição memorável de Francia, um termo
de bem viver e uma cadeia.
O MARECHAL DE FERRO
No meio em que surgiu, o marechal Floriano Peixoto sobressaía pelo
contraste. Era um impassível, um desconfiado e um cético, entre entusiastas
ardentes e efêmeros, no inconsistente de uma época volvida a todos os ideais, e na
credulidade quase infantil com que consideramos os homens e as coisas. Este
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antagonismo deu-lhe o destaque de uma glória excepcionalíssima. Mais tarde o
historiador não poderá explicá-la.
O herói, que foi um enigma para os seus contemporâneos pela circunstância
claríssima de ser um excêntrico entre eles, será para a posteridade um problema
insolúvel pela inópia completa de atos que justifiquem tão elevado renome. E um
dos raros casos de grande homem que não subiu, pelo condensar no âmbito estreito
da vida pessoal as energias dispersas de um povo. Na nossa translação acelerada
para o novo regime ele não foi uma resultante de forças, foi uma componente nova e
inesperada que torceu por algum tempo os nossos destinos.
Assim considerado, é expressivo. Traduz de modo admirável, ao invés da sua
robustez, a nossa fraqueza.
O seu valor absoluto e individual reflete na história a anomalia algébrica das
quantidades negativas: cresceu, prodigiosamente, à medida que prodigiosamente
diminuiu a energia nacional. Subiu, sem se elevar - porque se lhe operara em torno
uma depressão profunda. Destacou-se à frente de um país, sem avançar — porque
era o Brasil quem recuava, abandonando o traçado superior das suas tradições...
Diante da sua figura insolúvel e dúbia, os revolucionários apreensivos
traçavam na tarde de 14 de novembro o ponto de interrogação das dúvidas mais
cruéis, e ao meio-dia de 15 de novembro os pontos de admiração dos máximos
entusiasmos. Não se conhece transformação, ao mesmo passo, tão repentina e tão
explicável.
Sobretudo explicável. O seu prestígio nascera paradoxalmente antes da
revolução. Sabia-se, ou conjecturava-se, que sobre o regime condenado velava,
imperceptível, aquela astúcia silenciosa, formidável e cauta, contraminando talvez
dentro do próprio exército o traço subterrâneo da revolta; ou acompanhando-o
talvez, linha por linha, ponto por ponto, num paralelismo assombroso, e no prodígio
de conspirar contra a conspiração, ajustando soturnamente o rigorismo da lei ao lado
clã rebeldia incauta, de modo que, ao estalar, tivesse de improviso, em cima,
irrompendo da sombra, a mão possante que a jugularia.
Esta dúvida, ou dolorosíssima suspeita — sabem-no todos os revolucionários,
embora muitos a negassem depois — era a mais inibitória incerteza entre tantas
outras que nos manietavam.
Revela-o um incidente inapreciável como muitos outros, porque o 15 de
novembro foi uma glorificação exagerada de minúcias:
Na véspera daquele dia, às 10 horas da noite, toda a segunda brigada, em
plena revolta, estava em forma e pronta para a marcha. Mas antes de a realizar
sucedeu o fato ilógico e inverossímil de seguir um capitão mandado pelos chefes
revolucionários, a participar o acontecimento ao próprio ajudante general de
exército, ao marechal Floriano. Por um impulso idêntico ao do criminoso que segue,
num automatismo doentio, a confessar o crime ao juiz que o apavora, a conspiração
denunciava-se. Atirava aquela cartada arriscadíssima; iludia o temor do adversário
procurando-o; trocava a expectativa do perigo pelo perigo franco.
Mas nada conseguiu. Diante do oficial rebelde que viera de S. Cristóvão a
procurá-lo, encontrando-o na única sala que se destacava iluminada no vasto quartel
do campo de Santana imerso na mais profunda treva — o marechal Floriano
apareceu ainda mais indecifrável. Determinou com a palavra indiferente de quem dá
a mais desvaliosa ordem a uma ordenança, que se desarmasse a brigada sediciosa.
Mas não fez a recriminação mais breve, ou traiu o mais fugitivo espanto; e não
prendeu o parlamentário indisciplinado que ao sair adivinhou adensados no escuro,
dentro, no vasto pátio interno, todos os batalhões de infantaria, com as espingardas
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em descanso, e de baionetas caladas onde se joeirava salteadamente, em súbitos
reflexos, o brilho das estrelas...
A consulta à esfinge complicara o enigma. Como interpretar-se aquela ordem
apenas balbuciada pela primeira autoridade militar rodeada da parte mais numerosa
da guarnição que os regimentos levantados iriam encontrar vigilante e firme nas
formaturas rigorosas?...
A revolta desencadeou-se nesta indecisão angustiosa, e foi quase um
arremesso fatalista para a derrota.
Porque a vitória foi uma surpresa; e desfechara-a precisamente o homem
singular que equilibrara até o último minuto a energia governamental e a onda
revolucionária – até transmudar a própria infidelidade no fiel único da situação, de
súbito inclinado para a última.
Este golpe teatral, deu-o com a impassibilidade costumeira; mas foi
empolgante. Minutos depois, quando diante do ministério vencido o marechal
Deodoro alteava a palavra imperativa da revolução, não era sobre ele que
convergiam os olhares, nem sobre Benjamin Constant, nem sobre os vencidos-mas
sobre alguém que a um lado deselegantemente revestido de uma sobrecasaca
militar folgada, cingida de um talim frouxo de onde pendia tristemente urna espada,
olhava para tudo aquilo com uma serenidade imperturbável. E quando, algum tempo
depois, os triunfadores, ansiando pelo aplauso de uma platéia que não assistira ao
drama, saíram pelas ruas principais do Rio — quem quer que se retardasse no
quartel-general veria sair de um dos repartimentos, no ângulo esquerdo do velho
casarão, o mesmo homem, vestido à paisana, passo tranqüilo e tardo, apertando
entre o médio e índex um charuto consumido a meio, e seguindo isolado para outros
rumos, impassível, indiferente, esquivo...
E foi assim — esquivo, indiferente e impassível — que ele penetrou na
História.
Vimo-lo depois, de perto, na conspiração contra o golpe de estado de 3 de
novembro.
A sua casa no Rio Comprido era o centro principal da resistência. Ia-se para
lá de dia, em plena luz: nenhum resguardo, nenhuma dessas cautelas, e ânsias, ou
sobressaltos, com os quais numa conspiração se romanceiam os perigos. Os
conspiradores iam, prosaicamente, de bonde; saltavam num portão, à direita;
galgavam uma escada lateral, de pedra; e viam-se a breve trecho num salão
modesto, com a mobília exclusiva de um sofá, algumas cadeiras e dois aparadores
vazios. Lá dentro, janelas largamente abertas, como se tratasse da reunião mais
lícita, rabeava ferozmente a rebeldia: gizavam-se planos de combate; balanceavam-
se elementos, ou recursos; pesavam-se incidentes mínimos; trocavam-se alvitres,
denunciavam-se trânsfugas, enumeravam-se adeptos, e nas palestras esparsas em
grupos febricitantes vibrava longamente este entusiasmo despedaçado de temores
que trabalha as almas revolucionárias.
De repente, uma ducha enregelada: aparecia o marechal Floriano com o seu
aspecto característico de eterno convalescente e o seu olhar perdido caindo sobre
todos sem se fitar em ninguém. Sentava-se, vagarosamente; e no silêncio, que se
formava de súbito, lançava uma longa e pormenorizada resenha dos achaques que
o vitimavam. Era desalentador.
Passado, porém, aquele sobressalto invertido, aquela quietude alarmante e
aquela calma impertinente, mais cruciante do que a ansiedade anterior, renovava-se
a agitação — e no gizarem-se planos, no balancearem-se recursos, no pesarem-se
todos os incidentes, no contraposto, no revolto, no desordenado, nos diálogos
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esparsos; ou cruzando-se, ou afinal fundidos na palavra única de alguém que
atirava, de golpe, entre os grupos, uma notícia emocionante, naquele tumulto, o
homem que era a nossa esperança mais alta lançava avaramente um monossílabo,
um não apagado, um sim imperceptível no balanço fugitivo da cabeça, ou abria a
encruzilhada de um talvez...
Saía-se jurando que estava na sala um traidor, impossibilitando-lhe o livre
curso das idéias. Porque, isoladamente, a cada um dos que lá iam, ele se
manifestava com a sua lucidez incomparável.
Aceitava-se um a um; repelia-nos unidos. E a pouco e pouco naquele retrair-
se cauteloso, naquele escorregar precavido sobre todas as questões que se lhe
propunham na reunião revolucionária, tão diferente do firme, do definido e do claro
de pensar, que, parceladamente, manifestava a cada um dos que a constituíam, ele
foi infiltrando na conspiração a sua índole retrátil e precatada. Por fim — confiava-se
no melhor companheiro da véspera... desconfiando.
E natural que a trama sediciosa se alastrasse durante vinte dias, inteiramente
às claras e imperceptível; e que ao irromper a 23 de novembro o movimento da
Armada — simples remate teatral da mais artística das conspirações — o marechal
Floriano, imutável na sua placabilidade temerosa, seguisse triunfal e tranqüilo para
tomar o governo, "obedecendo" a um chamado do Itamarati, espantosamente
disciplinado no fastígio da rebeldia que alevantara — e indo depor o marechal
Deodoro vencido, com um abraço, um longo e carinhoso abraço, fraternal e calmo.
Conta-se que ao estalar a revolução de 6 de setembro, no meio do espanto, e
do alarma, e do delírio de adesões e entusiasmos, que para logo repontaram de
todos os lados, gerando aquela angustiosíssima comoção nacional culminada pela
loucura trágica de Aristides Lobo — conta-se que o marechal Floriano requintara na
proditoria quietude.
Impassível naquele estonteamento, superpôs ao tumulto o seu meio sorriso
mecânico e o seu impressionador mutismo.
Num dado momento, porém, abeirou-se de uma das janelas do palácio
abertas na direção aproximada do mar; e ali quedou um minuto, meditativo, na
atitude habitual da sua apatia, enganosa e falsa...
Depois alevantou vagarosamente a mão direita, espalmada, vertical e de
chapa para o ponto onde se adivinhavam os navios revoltosos, no gesto trivial e
dúbio de quem atira longe uma esperança ou uma ameaça... Traçou naquele
momento o molde da sua estatua. Nenhum escultor de gênio o imaginará melhor, a
um tempo ameaçador e plácido, sem expansões violentas e sem um tremor no rosto
impenetrável, desdobrando silenciosamente, diante do assalto das paixões
tumultuárias e ruidosas, a sua tenacidade incoercível, tranqüila e formidável.
O KAISER
Bismarck, sempre tão penetrante nos conceitos que disparava — disparava é
o termo próprio àquela sua ironia férrea, que matava como as balas — definiu, certa
vez, a política do segundo império, fantasista e frívola, e tão estonteada na Europa,
ou na América, na Itália, ou no México, entre deslumbrantes frivolidades, em que se
dissipava o heroísmo tradicional da França:
— "Era uma política de gorjetas."
Depois, esculpiu com quatro pranchadas de pena o homem que a inspirava:
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"Napoleão III, com o seu egoísmo de corretor, incidiu no vício dos antigos
diplomatas italianos, que confundiam a diplomacia e a perfídia. Tinha uma política ao
mesmo passo bem ponderada e quimérica, complicada e ingênua. pensando
trabalhar para a França, abalou-lhe a liberdade e trouxe durante 20 anos a Europa
em contínuo alarma, mercê de suas indefinidas ambições. Faltavam a sua
inteligência precisão e eficiência, a par de uma extraordinária fé na sua estrela
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levando-o às mais ousadas tentativas com os planos mais quiméricos."
Ora, Bismarck fazia então, sem o imaginar, o retrato da Alemanha de agora e
do Kaiser.
Bem pouco há que alterar naquelas linhas lapidárias.
A terra clássica do bom senso equilibrado, da frieza de propósitos e da
perseverança tranqüila, há dez anos que sobressalteia a Europa, graças à
imaginação ardente, às fantasias e à vaidade feminil, laivada de arreganhos militares
de seu imperador imensamente francês, e francês antigo, romântico, imprevidente e
aventureiro.
E um caso notável — o aspecto transcendental, talvez, dessa revanche tão
longamente acariciada pela França e que aparece espontânea, trocadas
inteiramente as fisionomias das duas vizinhas irreconciliáveis.
Realmente, a Alemanha, que acordou tarde para a expansão colonizadora —
longo tempo iludida pela visão errada de Bismarck, preferindo ao melhor trato de
território longínquo o arcabouço do último granadeiro pomerânio — a Alemanha
agita-se hoje num estonteamento.
A dilatação territorial impõe-se-lhe como uma condição de vida, não já no
sentido superior de um primado de idéias, senão também no sentido estritamente
biológico da própria alimentação. O seu industrialismo robusto matou-lhe a produção
agrícola, de sorte que a sua vida intensíssima, a mais intensa da Europa, em grande
parte desviada à agitação fecunda das fábricas, é de todo aleatória. Não lha garante,
mesmo imperfeitamente, a terra, cada vez mais escassa, à medida que lhe vai
crescendo o povoamento constrito entre as fronteiras inteiriças. Dai o seu arremesso
dos estaleiros de Kiel para o desimpedido dos mares, visando amplificar a pátria,
insuficiente, com o solo artificial e móvel dos conveses de uma frota mercante, que é
a segunda do mundo, exigindo, paralelamente, as garantias de uma marinha de
guerra formidável.
Mas neste concorrer à partilha da terra, com todos os inconvenientes de
quem chega tarde e encontra os melhores bocados noutras mãos, a política
germânica tem sido, de fato, copiando-se a frase do lendário chanceler de ferro, uma
política de gorjetas. Nem lhe disfarça este caráter decaído a maneira arrojada que a
reveste. Em todos os seus atos — nos arrogantes ultimata contra a frágil Venezuela,
nos assaltos ferocíssimos de Waldersée, em Pequim, ou nas tortuosidades e
perfídias diplomáticas que rodeiam a longa história da estrada para Bagdá, ou,
ainda, no ganancioso alongar de olhos para os nossos Estados do Sul, a sua ânsia
alucinada do ganho, pela pilhagem dos últimos restos da fortuna dos países fracos,
pode assumir todas as formas, até mesmo o aspecto heróico: mas destaca-se com
aquele traço inferior e irredutível.
Falta-lhe um Witte, falta-lhe um Chamberlain, falta-lhe um Roosevelt, e
note-se esta ironia singular da história — falta-lhe um Delcassé, ou um Combes...
Tem Guilherme II, um grande homem inédito.
Realmente, o Kaiser é uma promessa cada vez maior e mais irrealizável.
Bismarck esboçou-se sem o saber, de ricochete, pela fisionomia de Napoleão III,
mas fez-lhe a caricatura apenas a largos traços, vivos; e os melhores psicólogos, ao
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escandirem os seus atributos característicos, não descobrem de onde lhe advém tão
antigermânicas qualidades. Perquirem-lhe a linhagem toda, e não lobrigam, nos
confins indecisos do século XIII, o príncipe obscuro, misto de minnesinger e de
soldado, errante, de castelo em castelo, pela Baviera em fora, todo vestido de ferro,
feito um caçador de glórias e de perigos, a cantar o amor e a coragem, que veio, por
um milagre de atavismo, surgir tão de pancada e estonteadamente em nossos dias .
É um revenant; e este evadido do passado ao mesmo passo que se isola na
Alemanha, vai isolando a Alemanha do convívio das nações.
Autocrata sem rebuços num império constitucional, em que os seus
secretários particulares substituem os ministros responsáveis, aperta-se no
estreitíssimo círculo de uma Corte louvaminheira, que não só o afasta do influxo
austero da opinião pública germânica, como o imprópria a avaliar os desastrosos
efeitos de sua garrulice inconveniente sobre todas as nações. Embalde von
Treitschk, o notável sucessor de Mommsen, denuncia "o exagerado culto teocrático
à majestade que macula a monarquia prussiana "e as formalidades e .cerimônias de
uma Corte, onde "há a abjeção estagnada do servilismo oriental"; ou o Dr. Hann,
secretário da Liga Agrária, denuncia nuamente, em público, o acabamento das
qualidades superiores de consistência, de continuidade e de firmeza de inabalável
política bismarckiana. O imperador não os ouve: repele-os.
Eles não lhe embalam a vaidade, não lhe aplaudem os discursos, não lhe
admiram as concepções, não se enfileiram na numerosa claque que lhe proclama o
enciclopedismo distenso. Wirchow atravessou o seu reinado, inteiramente
desfavorecido, porque era liberal. Hauptmann, o maior dramaturgo da Alemanha,
figura-se-lhe um rabiscador inaturável; a sua grande voz não vinga o abafamento
dos reposteiros de Potsdam. Hoje o gênio loureado na terra sonhadora de Goethe é
o capitão Lanff, um lírico de caserna. Para este todos os requintes dos favores
imperiais, porque os seus dramas, impostos por decreto a todos os teatros
subsidiados do Império — os seus dramas tremendos, refertos de cutiladas, de tiros,
de urros pavorosos de terribilíssimos heróis, em que os entrechos se embaralham
pisoados de cargas de cavalaria — são a apologia sanguinolenta dos Hohenzollerns.
Reconhece-se que são maus, que são positivamente idiotas, nota canhear dos
conceitos, na frase cambeante e perra, nos enredos desconexos e nos desenlaces
abstrusos — mas lisonjeiam a vaidade imperial.
Esta vaidade é tudo, e para a satisfazer tudo se sacrifica.
Mostra-o o mesmo exército alemão, que, durante tanto tempo, foi o pavor da
Europa. Viu-se-lhe, depois, a imponente fragilidade.
E um exército decorativo, adrede instruído a que rebrilhe ao sol dos dias
festivos a espada virginalmente inocente do Kaiser, diante da burguesia assustadiça.
Revelou-o, recentemente ainda, Wolf von Schierbraum, e propositadamente
escolhemos, não já um prussiano, mas um rígido prussiano da guerra de 70, para
que se firme este conceito: "O imperador, graças à sua índole espetaculosa,
preparou o exército, não para a luta consoante a tática e as armas atuais, mas como
se ainda vivêssemos nos antigos tempos". E logo adiante, textualmente: "Há quinze
anos que o educa para falsas batalhas, arremetendo com imaginários inimigos, em
condições tais, que lhe acarretarão completo extermínio em qualquer campanha
destes dias".
E um exército de paradas. Guilherme II conserva-o, cheio de desvelos de
artista e de colecionador de raridades — como um dos seus avós, Frederico
Guilherme I, conservava os seus granadeiros de dois metros de altura. e os seus
dragões torreantes — cuidadosamente, fora das intempéries danosas das batalhas...
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Ele é a sua claque favorita e temerosa; e acredita-se, por vezes, que o arma
contra a própria Alemanha.
Quando o imperador escreveu, no Livro de Ouro de Munich, o seu célebre
suprema lex regi voluntas, ninguém aplaudiu a barbaria deste latim certíssimo, mas
os feld-marechais deliraram, eletrizados.
Pouco tempo depois, ao rematar um de seus discursos perigosos com aquele:
"Todos vós deveis ter uma vontade, a Minha vontade, e uma só lei, a Minha lei" —
houve em toda a Alemanha um doloroso espanto, e o partido socialista, crescente à
medida que a vontade imperial impõe ao Reichstag sucessivos aumentos de
baionetas, replicou-lhe com uma de suas manifestações ruidosas. O Kaiser assusta-
se; mete-se, assombrado, entre as fileiras adensadas, no campo de manobras de
março de 1900, e ali, sob a hipnose estonteadora de milhares de espadas
rebrilhantes:
"Se Berlim renovar contra o rei o insolente levante de 1&98, vós, meus
granadeiros, corrigireis os rebeldes a pontaços de baionetas!"
E houve um longo, estripitoso aplauso ...
Nada mais límpido no delatar o seu antagonismo com a própria capital do
império, se inúmeros outros casos não o atestassem sob variadíssimas formas.
Sumo árbitro em tudo, em política, como em música, em arquitetura, como em
poesia, em pintura, como em qualquer ciência; estrategista, dramaturgo, arqueólogo,
teólogo, inédito em tudo, poeta sem um verso, filósofo sem um conceito, músico sem
uma nota, guerreiro sem um golpe de sabre, esse dissipar a individualidade
irrequieta, espraiando-a largamente sobre todas as coisas, tem-lhe acarretado
sucessivos desapontamentos.
Aqui, um edifício, o novo palácio de Reichstag, é o melhor exemplo, que se
lhe afigura monstruoso aleijão, na mesma hora em que todos os profissionais
alemães consagravam em verdadeira apoteose o arquiteto feliz que o planejou;
além, um músico, que se lhe afigura simplesmente detestável — e que se imortaliza,
e é Wagner...
Não raro o antagonismo avulta e enreda-se ao ponto de dirimir-se nos
tribunais. Há tempos o imperador, no meio de seus pensares, teve uma idéia
surpreendente: construir mais igrejas em Berlim. Uma obsessão de artista.
Entristecia-o, talvez, o belo firmamento berlinês, arqueado e vazio sobre as casernas
acaçapadas, ou chatos alpendres de fábricas, sem o delicado granito das rosáceas,
sem um grande, arrebatador e vivo tumultuar de campanários alterosos... E a este
propósito fez que ressurgisse uma lei obsoleta, de há quatro séculos, pela qual a
cidade se obrigava a construir um número de templos proporcional ao de habitantes.
O fóssil decreto medieval, porém, caiu estrepitosamente sob a condenação dos
juizes...
Assim por diante.
E natural que a Alemanha se isole, perenemente ameaçadora e ameaçada.
Nada se pode prever na sua política ferrotoada de caprichos. Rodeia-se a suspeita
receosa das nações.
E, no momento agudo que vai passando, nesta vasta crise universal apenas
começada nos recantos do Extremo Oriente, quando os máximos resguardos
presidem os atos de todos os governos, devem-se aguardar todas as surpresas da
volubilidade alarmante e das arrancadas românticas daquele minúsculo deus do
Edda, desgarrado na terra e errando entre as gentes — incompreendido, idealista e
temeroso — como se fosse um neto retardatário das Walkyrias...
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A ARCÁDIA DA ALEMANHA
Este belo titulo clássico cabe ao Brasil. E o que nos revela um sociólogo
qualquer da Contemporary Review, um dos muitos que hoje arremetem,
aforradamente, com o indefinido das questões sociais. E inglês; e o argumento
essencial ressalta-lhe na resvaladura desta cinca: somos um povo sem juízo e a
vitalidade germânica, em breve, nos absorverá. Registe-se-lhe a frase, onde a
massuda sisudez britânica aflora o riso da alacridade ibérica: the brasilians
themselves, as Dom Quixote said of Sancho Pansa, are people ol "muy poca sal en
la mollera».
É interessante. Para o filósofo, pintoresco no amenizar de jogralidades
cogitações tão maciças, temperando o seu Hegel com Cervantes, somos
decididamente um povo pródigo, doudivanas, que anda na história a esperdiçar uma
herança. Impõe-se-nos a curadoria de um protetorado ou de uma conquista mansa,
o carinhoso puxão de orelhas paterno com que se reaviam os pupilos inexperientes.
E um caso em que o direito internacional, cujo elastério vai aumentando à medida
que se dilatam as parábolas das balas, pode humanizar-se, transmudando-se no
código civil proeminente das nações.
De feito, vai, ao parecer, dando demasiado nas vistas esta nossa vida fácil e
perdulária, esta nossa vida à gandaia, ociosa e comodista, sobre a enorme fazenda
de uns quatrocentos milhões de alqueires de terras, onde sestiamos, fartos, entre os
primores de uma flora que tem tudo, desde o mais reles cereal ao líber e ao látex,
para os lavores da indústria — e que nos da tudo de graça com a sua exuberância
incomparável, permitindo-nos contemplar, (contemplar apenas como coisas
meramente decorativas de um vasto parque de recreio), as nossas virgens bacias
carboníferas, as nossas montanhas de ferro, as nossas cordilheiras de quartzito, os
nossos litorais dourados pelas areias monazíticas, e o estupendo dilúvio canalizado
dos nossos rios, e os cerros lastrados de ouro das grupiaras, e os pendores
numerosos, onde se desatam perpetuamente as longas fitas alvinitentes da hulha
branca à espera das roldanas que elas moverão um dia... Coisas que mal vemos,
pisando distraídos sobre o macadame sem preço dos cascalhos diamantinos e
errando nos paraísos vazios dos gerais sem fim ...
Enquanto isto acontece, a vida de outras gentes, intensíssima e a crescer, a
crescer dia a dia, mais e mais se agita, constrita à força na clausura das fronteiras.
De sorte que a nossa esplêndida mediocridade se lhes torna em perpétuo desafio,
repruindo-lhes a riqueza torturada e a pletora de forças que, na ordem econômica,
caracteriza o moderno imperialismo.
A Alemanha é o melhor exemplo. E o caso típico de um povo sob a ameaça
permanente de seu mesmo progresso. Passando, com uma rapidez sem par na
história, do regime agrícola em que se aplicavam, há meio século, três quartos da
sua gente, para o máximo regime industrial, onde se aplicavam hoje dois terços da
sua atividade - ficou duplamente adstrita a todas as exigências do expansionismo
obrigatório. Para viver e para agir. De um lado, calcula-se que o seu solo,
intensamente explorado, no máximo, bastará a alimentar trinta milhões de homens, e
ela tem quase o dobro. De outro, cerca de metade das matérias-primas, que lhe
alimentam as indústrias, vem do exterior. Está numa alternativa. Ou isolar-se num
papel secundário e obscuro, procurando, na emigração pacifica, um desafogo à sua
sobrecarga humana — ou expandir-se, sistematicamente conquistadora, arriscando
— se às maiores lutas.
Preferiu o último caso. Não tinha por onde sair.
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A atitude entonada, o recacho atrevido, as hipérboles políticas e todo o
gongorismo guerreiro desse Guilherme II, de fartos bigodes repuxados e duros olhos
verdes resumando cintilar de espadas, e os seus arrancos oratórios, as suas
inconveniências e os seus exageros, e até as suas temeridades, todas essas coisas
anômalas que, há dez anos, sobressalteiam a Europa — têm o beneplácito dos mais
frios pensadores da Germânia.
Há quem descubra naquela figura tumultuária algo de medieval. É, de fato,
um revenant.
Mas, por isso mesmo, é o melhor tipo representativo desta situação
especialíssima da Alemanha a idealizar, com os mesmos enlevos dos trovadores de
suas velhas baladas, a sua missão na terra.
Apenas a odisséia não tem rimas; tem cifras; reponta de argumentos
inflexivelmente práticos; e os seus melhores cantores, uns velhinhos mansíssimos,
saem do remanso das academias. Resolvem um problema: e não indagam se ele
requer, ou dispensa, o processo de eliminação de algumas batalhas.
Para o Dr. Vosberg-Rekow, todo o corpo político-industrial alemão depende
do estrangeiro por maneira tal que a súbita parada na remessa das matérias-primas
essenciais lhe acarretará desorganização completa — verdadeira ruína que só pode
prevenir com uma poderosa marinha apta, do mesmo passo, a fiscalizar os
caminhos do mar e a facilitar a conquista de colônias produtivas.
O professor Schmoeller é até alarmante: se a Alemanha se não robustecer
bastante no mares, ao ponto de garantir, perenemente, a importação do trigo de que
carece, e, em dadas circunstâncias, exercer uma pressão eficaz sobre os países que
lho vendem — a sua própria existência material está em perigo.
Sobre todos, Bassenge, abertamente terrorista, agita três espectros do futuro:
a Rússia açambarcando quase toda a Ásia; a América do Norte, com a sua ilimitada
energia econômica, derrotando a Europa dentro dos mercados europeus; e a
Inglaterra, monopolizando o comércio de um quinto da superfície terrestre. Apelam
para a estatística, a serva desleal da sociologia; calculam; perdem-se nas
tortuosidades dessa aritmética imaginária, e Schleiden descobre que em 1980
haverá 1.280 milhões de eslavos e anglo-saxônios contra 180 milhões de alemães, o
que eqüivale à morte do pan-germanismo pelo simples peso material daquela massa
humana.
Sering não vai tão longe. A seu parecer dentro de vinte anos a indústria russa
atenderá por si só ao mercado nacional, o que sucederá também com a norte-
americana, — e se a Inglaterra realizar a planejada Imperial Customs Union, o
industrialismo alemão ruirá de todo, restando às populações o abandono da pátria.
Diante de perspectivas tão sombrias, compreendem-se os lances arrojados
da política teutônica, que assumem hoje os mais díspares aspectos — desde a
anglofobia exposta durante a guerra do Transvaal, disfarçando o intento de captar
um consumidor na África do Sul, a esta fantástica estrada de ferro de Bagdá,
visando transformar Ormuz num Suez prussiano, de onde se facilite uma passagem
para o oceano Índico.
Mas, sobre todos estes expedientes, a medida que faz delirar a quantos
filósofos, sábios, meio-sábios e sociólogos o fetichismo nacional de Kreisreidee agita
entre o reportado von Bulow e o irrequietíssimo imperador, o ideal que estonteia os
Wagner, Schmoeller, Hartmann, Vosberg, Schumacher, Voigt, Sering e toda uma
legião de foliculários assanhados — é a posse do Brasil do Sul.
Não lhes resta o vacilar mais breve: caímos na órbita da Alemanha, como o
Egito na da Inglaterra, e na da Rússia a Manchúria.
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O Dr. Leyser — são em geral doutores estes pioneres abnegados — não o
disfarça no seu belo livro:
"Hoje, nestas províncias (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) cerca
de 30% dos habitantes são germanos ou seus descendentes: e, por certo, nos
pertence o futuro desta parte do mundo. De feito, ali, no Brasil meridional, há
paragens ricas e salubres, onde os alemães podem conservar a nacionalidade, e um
glorioso futuro se antolha a tudo que se compreende na palavra — germanismus".
Como este, idéiam-se outros projetos imaginários, que fora inútil reproduzir,
tão conhecidos são eles. E intermitentemente, um naturalista de nome arrevezado,
H. Meyer, von den Stein, ou qualquer outro, ou esse Dr. Valentim, espécie de
repórter enciclopédico de um jornal berlinês, aparece entre nós; traça, em alemão, o
melhor das nossas inéditas paisagens, e atira para além-mar, dentro de um livro
curioso, ou nas entrelinhas das correspondências administrativas, ou nos cifrões dos
relatórios maciços, novos elementos ao fervor expansionista em que, por igual, ali se
abrasam, unidos pelo mesmo anelo, militares arrogantes, políticos solertes e
austeros pensadores...
Ora, tudo isto é monstruosamente verdadeiro; tudo isto forma um dos
prediletos assuntos de grande número de revistas, e tudo isto é um exaustivo, um
absolutamente estéril bracejar entre miragens.
Que não nos assuste este imperialismo platônico...
Um simples, o mais apagado lance de vista sobre o atual momento histórico,
revela que a Alemanha não pode balançar-se, tão cedo, a empresas de tal porte. A
sua política expansiva gira num círculo vicioso original; precisa de colônias e
mercados estranhos para viver e vencer a concorrência de outros povos; precisa
dominar, sob todas as formas, esta concorrência, para conseguir aquelas colônias e
mercados.
Dificilmente se forrará aos entraves desta situação penosa.
O seu duelo econômico com a América do Norte e com a Inglaterra é dos que
não terminam nunca; a sua incompatibilidade com a França é irremediável; e a
aliança com a Itália implica com a solidariedade latina renascente. Guilherme II, com
o seu desastrado ansiar pelas simpatias de todo o mundo, só conseguiu um amigo,
um deplorável amigo, o seu grande amigo Habdul-Hamid, o sultão vermelho,
encouchado, traiçoeiramente, nos Dardanellos, na encruzilhada suspeita de dois
mundos...
Resta-lhe o gravitar passivo na órbita desmedida da Rússia. Mas esta há de
arrebatá-lo para o Oriente, longe.
Além disto, o príncipe de Monroe, interpretemo-lo à vontade, com ser um
reflexo político dos interesses estritamente comerciais do ianque, tem o valor de nos
facilitar ao menos uma longa trégua.
Podemos deixar estas batalhas de frases contra fantasmas e voltar à luta real,
à campanha austera do nosso alevantamento próprio.
Que a Alemanha sonhe à vontade: é a grande terra idealista por excelência,
onde os mesmos matemáticos da envergadura de Leibnitz são poetas.
Ali nasceu Schiller, de quem se conhece um verso admirável.
Arcádia, pátria ideal de toda a gente!
Sendo assim, errou o minúsculo sociólogo precipitado, A Arcádia da
Alemanha não é o Brasil.
Lá está dentro dela mesmo, no seu melhor retalho, na Prússia liricamente
guerreira e fantasista, onde, nesta hora, tumultuam não sabemos quantos marechais
devaneadores e não sabemos quantos filósofos belicosos.
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A VIDA DAS ESTÁTUAS
O artista de hoje é um vulgarizador das conquistas da inteligência e do
sentimento. Extinguiu-se-lhe com a decadência das crenças religiosas a maior de
suas fontes inspiradoras. Aparece num tempo em que as realidades demonstráveis
dia a dia se avolumam, à medida em que se desfazem todas as aparências
enganadoras, todas as quimeras e miragens das velhas e novas teogonias, de onde
a inspiração lhe rompia, libérrima, a se desafogar num majestoso simbolismo. Resta-
lhe, para não desaparecer, uma missão difícil: descobrir, sobre as relações positivas
cada vez mais numerosas, outras relações mais altas em que as verdades
desvendadas pela analise objetiva se concentrem, subjetivamente, numa impressão
dominante. Aos fatos capazes das definições científicas ele tem de superpor a
imagem e as sensações, e este impressionismo que não se define, ou que
palidamente se define "como uma nova relação, passiva de bem estar moral,
levando-nos a identificar a nossa sinergia própria com a harmonia natural".
E a "verdade extensa", de Diderot, ou o véu diáfano da fantasia, de Eça de
Queiroz, distendido sobre todas as verdades sem as encobrir e sem as deformar,
mas aformoseando-as e retificando-as, como a melodia musical se expande sobre
as secas progressões harmônicas da acústica, e o arremessado maravilhoso das
ogivas irrompe das linhas geométricas e das forças friamente calculadas da
mecânica.
Daí as dificuldades crescentes para o artista moderno em ampliar e transmitir,
ou reproduzir, a sua emoção pessoal. Entre ele e o espectador, ou leitor, estão os
elos intangíveis de uma série cada vez maior de noções comuns — o perpetuum
mobile dessa vasta legislação que resume tudo o que se agita e vive e brilha e canta
na existência universal. Diminui-se-lhe a primitiva originalidade. Vinculado cada vez
mais ao meio, este lhe impõe a passividade de um prisma: refrata os brilhos de um
aspecto da natureza, ou da sociedade, ampliando-os apenas e mal emprestando-lhe
os cambiantes de um temperamento. Já lhe não é indiferente, nestes dias, a idéia ou
o assunto que tenha de concretizar no mármore ou no livro.
O seu trabalho é a homogênea da sua afetividade e da consciência coletiva. E
a sua personalidade pode imprimir-se fundamente num assunto, mas lá
permanecera inútil se destoar das idéias gerais e dos sentimentos da sua época...
Tomemos um exemplo.
Há uma estátua do marechal Ney, em que se têm partido todos os dentes da
crítica acadêmica e reportada.
Dos múltiplos aspectos da vida dramática e tormentosa do valente, o escultor
escolheu o mais fugitivo e revolto: o final de uma carga vitoriosa.
O general, cujo tronco se apruma num desgarre atrevido, mal equilibrado
numa das pernas, enquanto a outra se alevanta em salto impetuoso, aparece no
mais completo desmancho: a farda desabotoada, e a atitude arremetente num
arranco terrível, que se denuncia menos na espada rijamente brandida que na face
contorcida, onde os olhos se dilatam exageradamente e exageradissimamente a
boca se abre num grito de triunfo.
E um instantâneo prodigioso. Uma vida que se funde no relance de um delírio
e num bloco de metal. Um arremesso que se paralisa na imobilidade da matéria,
mas para a animar, para a transfigurar e para a idealizar na ilusão extraordinária de
uma vida subjetiva e eterna, perpetuamente a renascer das emoções e do
entusiasmo admirativo dos que a contemplam.
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Mas para muitos são perfeitamente ridículos aquela boca aberta e muda,
aquele braço e aquela perna no ar. Em um quadro, sim, conclamam, à frente de um
regimento, aquela atitude seria admirável. Ali, não; não se compreende aquela
nevrose, aquela violência, aquela epilepsia heróica no isolamento de um pedestal.
Entretanto, o que a miopia da crítica até hoje ainda não distinguiu, adivinhou-o
sempre a alma francesa; e o legitimista, o orleanista, o bonapartista e o republicano,
divergentes, ali se irmanam, enleados pelos mesmos sentimentos, escutando a
ressoar para sempre naquela boca metálica o brado triunfal que rolou dos Pireneus
à Rússia, e vendo na imprimadura transparente e clara daqueles ares não o
regimento tão complacentemente requisitado, mas todo o grande exército ...
E que a escultura, sobretudo a escultura heróica, tem por vezes a
simultaneidade representativa da pintura, de par com a sucessão rítmica da poesia
ou da música. Basta-lhe para isto que se não limite a destacar um caráter dominante
e especial, senão que também o harmonize com um sentimento dominante e
generalizado.
Neste caso, malgrado o restrito de seus recursos e as exigências máximas de
uma síntese artística, capaz de reproduzir toda a amplitude e toda a agitação de
uma vida num bloco limitado e imóvel este ideal é notavelmente favorecido pelo
sentimento coletivo. A mais estática das artes, se permitem o dizer, vibra então na
dinâmica poderosa das paixões e a estátua, um trabalho de colaboração em que
entra mais o sentimento popular do que o gênio do artista, a estátua aparece-nos
viva - positivamente viva, porque é toda a existência imortal de uma época, ou de um
povo, numa fase qualquer de sua história que para perpetuar-se procura um
organismo de bronze.
Porque há até uma gestação para estes entes privilegiados, que renascem
maiores sobre os destroços da vida objetiva e transitória. Não bastam, às vezes,
séculos. Durante séculos, gerações sucessivas os modelam e refazem e aprimoram,
já exagerando-lhes os atributos superiores, já corrigindo-lhes os deslizes e vão
transfigurando-os nas lendas que se transmitem de lar em lar e de época em época,
até que se ultime a criação profundamente humana e vasta. De sorte que, não raro,
a estátua virtual, a verdadeira estátua, esta feita, restando apenas ao artista o
trabalho material de um molde.
A de Anchieta, em S. Paulo, é expressivo exemplo.
Tome-se o mais bisonho artista; e ele a modelara de um lance.
Tão empolgante, tão sugestiva é a tradição popular em torno da memória do
evangelizador que o seu esforço se reduzira ao trabalho reflexo de uma cópia.
Não pode errar. As linhas ideais do predestinado corrigem-lhe os desvios do
buril. O elemento passivo, ali, não é a pedra ou o bronze, é o seu gênio. A alma
poderosa do herói, nascente do culto de todas as almas, absorve-lhe toda a
personalidade, e transfigura-o e imortaliza-o com o mais apagado reflexo da sua
mesma imortalidade..
— Mas há ocasiões (e aqui se nos antolha uma contraprova desta psicologia
transcendental e ao parecer singularmente imaginosa) em que a estátua nasce
prematura.
Falta-lhe a longa elaboração do elemento popular. Possui talvez admiráveis
elementos capazes de a tornarem grande ao cabo de um longo tempo - um longo
tempo em que se amorteçam as paixões e se apaguem, pelo só efeito de uma
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dilatada perspectiva histórica, todas as linhas secundárias de uma certa fase da
existência nacional...
Mas não se aguarda esse tempo; não se respeita esse interregno, ou essa
quarentena ideal, que livra as grandes vidas dos contágios perniciosos das nossas
pequenas vidas; e decreta-se uma estátua, como se fosse possível decretar-se um
grande homem.
Então, neste vir fora de tempo, ela é historicamente inviável.
E não há golpes de gênio que a transfigurem.
E uma estátua morta.
ANCHIETA
O grande missionário reconcilia-nos com a Companhia de Jesus.
É o seu maior milagre.
Votada em parte é antipatia de uma forte corrente de sábios e pensadores,
como um elemento dispersivo na solidariedade moral dos povos, a instituição, para
eles irrevogavelmente condenada, tem, na historia, na feição de José de Anchieta,
talvez a sua feição mais atraente.
Combatente, na Europa, como centro de resistência do catolicismo ante a
irrupção impetuosa da Reforma, combatente no Extremo Oriente ante as regiões
seculares do paganismo, ela, ante as tribos ingênuas da América, foi humana,
persuasiva, evangelizadora. Incoerente e sombria, pregando no século XVI,
exageradamente, através da justificação singular da estranha teoria do regicídio de
Mariana, a soberania do povo, e combatendo, aliada aos tronos, essa mesma
soberania quando surgia triunfante no século XVIII; precipitando ora os reis sobre os
povos, ora os povos sobre os reis; traçando, através da agitação de três longos
séculos atumultuados, os meandros de espantosas intrigas — ela foi, na América,
coerente na missão civilizadora e pacífica, seguindo a trajetória retilínea do bem,
heróica e resignada, difundindo nas almas virgens dos selvagens os grandes
ensinamentos do Evangelho. Não dispersou, uniu.
Ligou à humanidade, emergente da agitação fecunda da Idade Média, um
povo inteiro — espíritos jungidos a um fetichismo deprimente, forças perdidas nas
correrias guerreiras dos sertões...
E para esta empresa imensa teve entre nós uma alma simples, sem violentos
ímpetos de heroicidade — amplíssima e casta — iluminada pela irradiação serena
do ideal.
Daí todo o encanto que ressalta à simples contemplação da bela figura de
Anchieta, entregue hoje à existência subjetiva da história, e cujo nome tem na nossa
terra a propriedade de fundir todas as crenças e opiniões numa veneração comum.
E que em virtude de causas múltiplas, em que preponderam de um lado as
condições do meio e de outro o próprio sentimento dos missionários, a Companhia
de Jesus perdeu, no novo mundo, a feição batalhadora.
Longe das controvérsias irritantes que circulavam a dissolução do regime
católico-feudal, os apóstolos que agiram fora da convulsão que abalava a Europa,
com S. Francisco Xavier nas Índias e com Anchieta e Nóbrega no Ocidente, ao
desdobrarem, diante do gentio deslumbrado, a significação divina da vida, num
cândido misticismo, souberam fazer da humildade a forma mais nobre do heroísmo e
venceram pelo incutir nas almas obscuras dos bárbaros todo o fulgor que lhes
esclarecia as próprias almas.
E foram além na missão evangelizadora.
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A nossa história o diz: depois do combate incruento à idolatria, depois da
catequese das tribos, através de esforços que lembram os primeiros séculos da
igreja, animou-os a preocupação capital de salvá-las da escravidão. A ambição
extraordinária de audazes aventureiros exigia a força inconsciente do selvagem para
as longas pesquisas nos sertões.
A história dolorosa das reduções jesuíticas terminada pelo sombrio epílogo de
Guaíra, patenteia uma inversão singular de papéis: o missionário reagia à frente dos
bárbaros arrancados às selvas, contra os bárbaros oriundos das terras civilizadas.
Desse conflito resulta, em muitos pontos, a feição verdadeiramente heróica do
nosso passado.
Ora, os que arcavam, no Brasil, com esta missão múltipla e elevada, definem-
se admiravelmente em Anchieta — um nome que é a síntese de uma época.
Grande homem, segundo a definição profunda de Carlyle, a sua história
abrange um largo trecho da nossa própria história nacional.
Desde 1554, ao criar o terceiro colégio regular no Brasil, erigindo Piratininga,
graças ao estabelecimento de um melhor sistema de proselitismo, esse centro
diretor da larga movimentação das missões brasileiras, até 1597, ao expirar em
Reritibá, rodeado pelos discípulos e pelas tribos catequizadas, a sua existência, dia
por dia, hora por hora, constante no devotamento à mais sagrada das causas, irradia
sobre uma época tumultuosa como uma apoteose luminosa e vasta.
Soberanamente tranqüilo sobre a revolta das paixões, nada o perturbou —
nem mesmo quando, colaborando diretamente para a organização futura da nossa
nacionalidade, ele ligou a palavra ardente de apóstolos ao cintilar da espada heróica
de Estácio de Sá ou impelindo ao combate os guaianases leais, repelia as hordas
ferozes dos tamóios que investiam contra S. Paulo.
Preso entre esses últimos, sob a ameaça persistente do martírio e da morte, a
sua alma religiosa expande-se em poema belíssimo no qual a dicção aprimorada se
alia à erudição notável. Seguindo ásperos itinerários nos sertões em busca do
aimoré bravio, à amplitude do seu espírito não escapa a nossa natureza
deslumbrante acerca da qual faz estudos, lidos mais tarde com surpresa por todos
os naturalistas, que o proclamaram, pela pena de Aug. Saint-Hilaire, um dos homens
mais extraordinários do século XVI. Por toda a parte, em todas as situações de uma
carreira longa e brilhante, como simples irmão ou no fastígio do provincialado,
enfeixando nas mãos poderes extraordinários, não há um salto, um hiato, um
acidente ligeiro perturbando a continuidade da sua existência privilegiada de grande
homem – útil, sincero e bom.
Fora longo e dificílimo traçá-la, palidamente embora.
Mais alto e com mais eloqüência do que nós, fala este sentimento sagrado de
veneração que pressentimos em torno, amplo, forte e generoso, inacessível às
diversidades de crenças e sob cujo influxo se opera em nosso tempo a ressurreição
do grande morto de há três séculos.
GARIMPEIROS
O forasteiro que rio último quartel do século XVIII demandasse os povoados
de Minas Gerais, erecto da noite para o dia na extensa zona do distrito Diamantino,
sentia a breve trecho o mais completo contraste entre a aparência singela daqueles
modestos vilarejos e as gentes que neles assistiam.
Entrava pelas ruas tortuosas e estreitas, ora marginando as lezírias dos
córregos em torcicolos, ora envesgando, clivosas, pelo viés dos pendores, ladeadas
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de casas deprimidas de beirais desgraciosos e saídos; percorria-as calcando um
áspero calçamento de pedras malgradadas; desembocava num largo irregular onde
avultava a picota do pelourinho, ameaçadora e solitária; deparava mais longe duas
ou três pesadas igrejas de taipa; e, certo, sentiria crescer a desoladora saudade do
torrão nativo se naquele curto trajeto não se lhe antolhassem singularíssimos
quadros.
Surpreendiam-no, empolgantes, o excesso de vida daqueles recantos
sertanejos e o espetáculo original da Fortuna domiciliada em pardieiros.
E se conseguisse abarcar de um lance a multidão doudejante e inquieta, que
atestava as vielas e torvelinhava nas praças, teria a imagem estranha de uma
sociedade artificial, feita de elementos díspares transplantados de outros climas e
mal unidos sobre a base
instável, dia a dia destruída, ruindo solapada pela vertigem mineradora — da
própria terra em que pisavam.
Acampado nos cerros, o povo errante levava para aqueles rincões — escalas
transitórias ocupadas à ventura - todos os hábitos avoengos que não afeiçoavam ao
novo meio. E estadeava todos os seus elementos incompatíveis fortuitamente
reunidos, mas repelindo-se pelo contraste das punições e das raças: — dos congos
tatuados que moirejavam nas lavras, com a rija envergadura mal velada pelas
tangas estreitas ou rebrilhando, escura, entre os rasgos das roupas de algodão; aos
contratadores ávidos e opulentos, passando por ali como se andassem nas cidades
do reino, entrajando as casacas de veludo, de portinholas e canhões dobrados,
abertas para que se visse o colete bordado de lantejoulas, descidas sobre os
calções de seda de Macau atacados com fivelas de ouro. A grenha inextricável do
africano chucro contrastava com a cabeleira de rabicho, empoada e em volta de um
cadarço de gorgorão rematando numa laçada, do peralvilho rico; a alpercata de
couro cru estalava rudemente junto do sapato fino, pontiagudo, cravejado de
pérolas, do reino casquilho, graciosamente bamboleante com o andar que
ensinavam os "mestres de civilidade"; o cacete de guarda-costas vibrava próximo do
bastão de biqueira de ouro, finamente encastoado; e o facão de cabo de chifre, do
mateiro, fazia que ressaltassem, mais artísticos, os brincos de ourivesaria dos
floretes de guarnições luxuosas dos fidalgos recém-vindos.
Ia-se de um salto de uma camada social a outra.
Parecia não haver intermédios àquela simbiose da Escravidão com o Ouro,
porque não havia encontrá-los mesmo no agrupamento incaracterístico, e mais
separador que unificador, dos solertes capitães-do-mato, dos meirinhos odientos,
dos bravateadores oficiais de dragões, dos guarda-mores, dos escrivães, dos
pedestres e dos exatores, açulados pelas ruas, farejando as estradas e as picadas,
perquirindo os córregos e os desmontes, em busca do escravo; filando-se às pernas
ágeis dos contrabandistas; colados no rastro dos contraventores; e espavorindo os
faiscadores pobres, inquirindo, indagando, prendendo, intimando e, quase sempre,
matando...
Sobre tudo isto dois tremendos fiscais que a Corte longínqua despachara
apercebidos de faculdades discricionárias: o Ouvidor da comarca e o Intendente dos
diamantes.
Tinham a tarefa fácil de uma justiça que por seu turno se exercitava entre
extremos, monstruosa e simples, mal variando nos "termos de prisão, hábito e
tonsura"; oscilando em mesmices torturantes, da devassa ao pelourinho, do confisco
à morte, dos troncos das cadeias aos dez anos de degredo em Angola.
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E que a terra farta, desentranhando-se nos minérios anelados, não era um lar,
senão um campo de exploração predestinado a próximo abandono quando as
grupiaras ricas se transmudassem nas restingas safaras, e fossem avultando,
maiores, mais solenes e impressionadoras, sobre a pequenez dos povoados
decaídos, as Catas silenciosas e grandes montões de argila revolvidos tumultuando
nos ermos à maneira de ruínas babilônicas...
Mas fora da mineração legal adscrita na impertinência bárbara dos alvarás e
cartas régias; trabalhada de fintas, alternativamente agravada pelo quinto e pela
captação exaurida a princípio pelos contratadores e depois pela extração real,
estendera-se intangível, e livre, e criminosa, irradiante pelos mil tentáculos dos
ribeirões e dos rios, desdobrando-se pelos tabuleiros, ou remontando às serras, a
faina revolucionária e atrevida dos garimpos.
Despejados dos arraiais; esquivos pelas matas que varavam premunidos de
cautelas porque não raro no glauco das paisagens coruscavam, de golpe, os talins
dourados e os terçados dos dragões girando em sobre-rondas céleres; caçados
como feras - os garimpeiros, incorrigíveis devassadores das demarcações interditas,
davam o único traço varonil que enobrece aquela quadra.
Vinham de um tirocínio bruto de perigos e trabalhos, nas velhas minerações;
e, únicos elementos fixos numa sociedade móvel, de imigrantes, iam capitalizando
as energias despendidas naqueles assaltos ferocíssimos contra a terra.
Desde as primitivas buscas pelos leitos dos córregos, dos caldeirões e das
itaipavas, com o almocrafe curvo ou a bateia africana, na atividade errante das
faisqueiras; aos trabalhos nos tabuleiros, arcando sob os carumbés refertos ou
vibrando as cavadeiras chatas até aos lastros ásperos dos nódulos de hematita das
tapanhuacangas; às catas mais sérias, às explorações intensas das grupiaras pelos
recostos dos morros que broqueados de cavas circulares e sarjados pelas linhas
retilíneas e paralelas das levadas, desmantelados e desnudos, tornavam maiores as
tristezas do ermo; e, por fim, à abertura das primeiras galerias acompanhando os
veios quartzosos, mas sem os resguardos atuais, tendo sobre as cabeças o peso
ameaçador de toda a massa das montanhas — eles percorreram todas as escalas
da escola formidável da força e da coragem.
Vibraram contra a natureza recursos estupendos.
Abriram canais de léguas ajustados às linhas das cumiadas altas; e adunando
a centenas de metros de altura, em vastos reservatórios, as águas captadas,
rompiam-nos. Ouviam-se sons das trompas e buzinas prevenindo os eitos de
escravos derramados nas encostas, para se desviarem; e logo após uma vibração
de terremoto, um como desabamento da montanha, a avalancha artificial
desencadeada pelos pendores, tempesteando e rolando — troncos e galhadas,
fraguedos e graieiros, confundidos, embaralhados, remoendo-se, triturando-se,
descendo vertiginosamente e batendo embaixo dentro dos amplos mundéus onde
acachoava o fervor da vasa avermelhada lampejante das palhetas apetecidas...
Desviavam os rios; invertiam-lhes as nascentes, ou torciam-nos cercando-os;
e, por vezes, alevantavam-nos, inteiros, sobre os mesmos leitos. Todo o
Jequitinhonha, adrede contido e alteado por uma barragem, derivou certa vez por
um bicame colossal, de grossas pranchas presas de gastalhos, deixando em seco,
poucos metros abaixo, o cascalho sobre que fluia há milênios...
E ali embaixo, centenares de titães tranqüilos, compassando as modinhas
dolentes com o soar dos almocrafes e alavancas, labutavam, cantando descuidados,
tendo por cima o dilúvio canalizado...
Assim foram crescendo...
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De sorte que quando a metrópole, exagerando a antiga avidez ante a fama
dos novos "descobertos", se demasiou em rigores e prepotências para tornar efetivo
o monopólio da extração, isolando aquela zona de todo o resto do mundo,
dificultando as licenças de entrada e os passaportes, multiplicando registos e
barreiras, extinguindo os correios, e tentando mesmo circunvalar as demarcações,
não lhe bastando o permanente giro das esquadras de pedestres, baldaram-se-lhe
em parte os esforços ante os rudes caçadores furtivos da fortuna, inatingíveis às
fintas, às multas, às tomadias, aos confiscos, às denúncias, às derramas; e que
aliados aos pechilingueiros vivos, aos tropeiros ardilosos passando entre as
patrulhas com o contrabando precioso metido entre os forros das cangalhas, aos
comboieiros que enchiam os cabos ocos das facas com as pedras inconcessas, ou
aos mascates aventureiros intercalando-as nos remontes dos coturnos grosseiros —
estendiam por toda a banda, até ao litoral, a agitação clandestina, heróica e
formidável.
"Desaforados escaladores da terra!..." invectivavam as ríspidas cartas régias,
delatando o desapontamento da Corte remota ao pressentir escoarem-se-lhe as
riquezas pelos infinitos golpes que lhe davam nos regimentos aqueles adversários.
E armou contra eles exércitos.
Bateram longamente os caminhos as patas entaloadas dos corpos de
dragões.
Adensaram-se em batalhões as patrulhas errantes e dispersas dos pedestres;
e avançaram ao acaso pelas matas em busca dos adversários invisíveis.
Os garimpeiros remontavam às serras: espalhavam-se em atalaias;
grupavam-se em guerrilhas diminutas; e por vezes os graves intendentes
confessavam aos conselhos de ultramar a "vitória de uma emboscada de
salteadores".
Finalmente se planearam batalhas.
Rijos capitães-generais, endurados nas refregas da Índia, largaram dos
povoados ao ressoar das preces propiciatórias e sermões, chefiando os terços
aguerridos, e arrastando penosamente pelos desfreqüentados desvios as colubrinas
longas e os pedreiros brutos.
Mas roncearam, inutilmente, pelos ermos.
Enquanto à roda, desafiando-os, alcandorados nos itambés a prumo;
relampeando no súbito fulgir das descargas, das tocaias; derivando em
escaramuças pelos telhados dos montes; arrebentando à boca das velhas minas em
abandono, de repente escancaradas numa explosão de tiros — os "desaforados
escaladores da terra", os anônimos conquistadores de uma pátria, zombavam
triunfalmente daqueles aparatos guerreiros, espetaculosos e inofensivos.
UMA COMÉDIA HISTÓRICA
Na Europa diplomática do século XVIII o Portugal de D. João V era urna
exceção desanimadora. Despeara-se no progresso geral e ia atingir a quadra
revolucionária, mal disfarçando, com a exterioridade deslumbrante das minas do
Brasil, os máximos desfalecimentos da originalidade e da vida.
Há um atestado expressivo desse fato: a feição literária do tempo, incolor e
exótica, laivada de perífrases e trocadilhos, ou sulcada de metáforas extravagantes,
reveladoras dos ressaibos corruptores das canzoni alambicadas de Mazini ou das
agudezas e hipérboles assombrosas de Gongora.
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Era um recuo deplorável. O italianismo e o espanholismo, que haviam sido
um característico geral da literatura européia, em passado recente, desapareciam
em toda a banda. Na Inglaterra, o excêntrico eufuísmo, que lembra um assalto de
cansaço depois da formidável elaboração shakespeariana, alastrando-se da fantasia
maravilhosa de Milton, as rimas infamíssimas de Wicherley — desaparecia ante a
frase lapidaria de Burton; na França, o preciosismo acabava pelo próprio exagero,
embora se abrisse no salão de Luiz XIV o grande molde dourado do classicismo,
com o recato do pensar e o requintado polido das maneiras e do dizer; e na mesma
Itália, de onde surgira o primado efêmero dos pensieri o lirismo vigoroso de
Metastasio iniciava triunfalmente uma era nova. É que nestes países se formara a
energia de uma renovação científica e filosófica que, com F. Bacon, Descartes e
Galileu, alevantara sobre a rumaria da escolástica os elementos do espírito
moderno. Em todos a arte de escrever era apenas um aspecto, o mais sedutor
talvez, e nada mais, das inteligências que, em breve, encontrariam no maior operário
da Enciclopédia - a um tempo romancista, dramaturgo, crítico, cientista e filósofo —
em Diderot, o exemplo vivo do quanto importam ao mais ousado idealizar estético os
mais aparentemente frios recursos positivos.
Em Portugal, não. A língua forte dos quinhentistas gaguejava nas silvas e
acrósticos alambicados, nas maravilhas do falar e no requinte estéril de um
culteranismo, onde a fragilidade das idéias facultava aos períodos vazios o
caprichoso das formas mais bizarras. A terra de Bieira dava quase o espetáculo da
desordem da palavra numa espécie de afasia literária.
O século XVIII teve o seu aspecto filosófico e o seu aspecto mundano. Teve
Voltaire e teve Crebillon. Portugal copiava o último, ao mesmo tempo que D. João V
imitava a frivolidade resplandecente do rei Sol dos minuetes e das etiquetas,
olvidando o Luiz XIV dos tratados.
Daí o burlesco daquela tentativa de transferir para Lisboa um lampejo de
Versalhes, numa grandeza achamboada e informe que era, como todas as paródias,
um contraste. E o contraposto entre o medido das frases e das idéias, que na corte
parisiense transmudavam o classicismo numa sistematização da vulgaridade, e o
retumbante e amaneirado das glosas e madrigais dos versejadores portugueses.
Comparem-se o Camões do Rocio e Boileau; ou então a pragmática dos saraus de
Rambouillet aos festejos ruidosos de Lisboa onde se viam, sem escândalo à fradaria
inumerável, rompentes nas procissões ou saracoteando nos salões, ao toar dos
alaúdes e guitarras, a Poesia, a Gramática (a gramática!) e a Retórica com a sua
ninhada de Tropos espalhafatosos, de Metáforas nervosas, de Gerúndios rotundos e
de supinos desfibrados, materializados todos num grande excesso de objetivismo.
Esta literatura refletia uma época.
A terra forte que se sacrificara ao progresso geral, repontando à tona da
Renascença para mergulhar numa outra Idade Média e reconstituir no novo mundo o
mundo antigo que acabara — chegava, surpreendida e deslumbrada, à quadra
maravilhosa. Quis encalçá-la e só lhe absorveu os estigmas remanescentes.
A própria galanteria, que encontrara no abade Prevost — e na maioria dos
padres voltairianos, que embarcavam galantemente para Cítera — intérpretes
inimitáveis, ali se derrancara nas requestas perigosas. O amor era brutal, liricamente
brutal se o quiserem, armado de capa e espada, de botas e esporas, marchando
para as entrevistas como para os fossados arriscados. Ao cair da noite, espessa e
impenetrável, sem a fresta única de um lampião mortiço, as ruas de Lisboa tinham
os pavores das azinhagas solitárias.
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Eram o paraíso tenebroso dos chichibéus errantes, e mascarados num
requinte de resguardos, porque as formas se lhes diluíam no escuro, apagadas e
imperceptíveis, num deslizamento silencioso de lemures cautelosos. E o estrangeiro
curioso que os acompanhasse, ou que os apartasse nos duelos subitamente
travados ao acaso, no volver das esquinas, podia encontrar o faquista
desclassificado, o pródigo doudivanas, o frade corrompido, o fidalgo marialva, ou o
rei...
A aventura noturna de D. João IV e D. Francisco Manoel não fora
deslembrada. E embora D. João V, mais precavido e prático, preferisse, ao arriscado
destes encontros, os recatados cômodos do harém seráfico de Mafra, tinha no
irmão, o infante D. Francisco, e no Duque de Cadaval, uns dignos continuadores das
mesmas tropelias romanescas.
Felizmente entre estes nobres gandaieiros, um espadachim atrevido, um
mestiço à volta dos vinte anos, um tal Sebastião José de Carvalho, aparecia às
vezes, compartindo as desordens que ele mais tarde extinguiria, porque lhes
aquilatara, experimentalmente, os inconvenientes e as torpezas.
Mas havia também um homem, o mesmo homem que Oliveira Lima, no
Secretário d'El-Rei nos apresenta sob uma de suas mais interessantes modalidades
— Alexandre de Gusmão.
Era brasileiro; mas nesta circunstância fortuita não está o interesse que ele
nos desperta. O que dele nos impressiona é o contraste de uma individualidade
original e forte e a decrepitude do meio em que ela agiu. Aquele escrivão da
puridade preso pelo contato diário à corte e pelo cargo obrigado a submeter-se a
todas as exigências da época e a tacanhear o talento nos escaninhos e nas
estreitezas dos relatórios enfadonhos - reponta-nos nas suas admiráveis cartas a D.
Luiz da Cunha, com a atitude inesperada de um fiscal incorruptível, irônico e
formidável. Nele, sim, enfaixavam-se todos os estímulos céticos, agressivos e
assombrosamente demolidores que se esboçavam na França.
A sociedade pecaminosa de D. João V, onde o monstruoso substituía a
grandeza, com as suas antíteses clamorosas, com os seus lausperenes e as suas
devassidões, com o trágico da inquisição e a glorificação de todos os ridículos, com
o idiota cardeal Mota que acabou com as trovoadas riscando-as da folhinha do ano,
com o seu místico tenente Santo Antonio, jogralescamente promovido por atos de
bravura, e com o cínico Encerrabodes tolerado em todas as salas — o Portugal
paraguaio dos Jesuítas com os seus monges, os seus padres, os seus rufiões, a sua
patriarcal, a sua escolástica garbosamente fútil e a sua literatura desfalecida, teve no
seu primeiro ministro o seu mais implacável juiz.
Sob este aspecto, a figura ainda não bem estudada de Alexandre de Gusmão
é impressionadora.
Foi um voltairiano antes de Voltaire: a mesma espiritualidade expansiva, em
que pese uma cultura menor, a mesma mobilidade, os mesmos arrebatamentos, o
mesmo sarcasmo diabólico e a mesma emancipação intelectual, revolucionária e
brilhante.
Não o considerou sob essa feição complexa Oliveira Lima, que dificílimo fora
constrigi-lo nos três atos de uma comédia.
Fixou-o, porém, por uma de suas faces encantadoras: a adorável
complecência de uma alma sobranceira às ruínas de um amor não correspondido e
verdadeiramente heróica no amparar o rival feliz que o compartia.
O assunto, como se vê, é profundamente dramático. A índole do protagonista,
entretanto, transmudou-o numa comédia.
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O grande homem pareceu-nos talvez apequenado no tortuoso de uma intriga
vulgar, mas traça, cortando uma situação trivialíssima, a linha impressionadora de
uma individualidade nova no meio de uma sociedade envelhecida. Realmente, o que
hoje para nós é uma vulgaridade - este triste humorismo com que na pressão atual
da vida moderna disfarçamos cautelosamente as maiores desventuras e este "levar
as coisas a rir mesmo quando elas são de fazer-nos chorar" — eram uma novidade
na época brutal em que a fraqueza irritável das gentes supersticiosas e incultas
predispunha ao impulsivo e ao desafogo máximo das paixões.
Assim considerado, o Secretário d'El-Rei é um livro belíssimo.
Que outros, mais vezados à técnica teatral, lhe apontem todos os defeitos.
Nós, não. Satisfez-nos o aprumo impecável, a fidalguia espirituosa com que
Alexandre de Gusmão, sem destoar da nota superior de seu caráter, destramou o
intrincado de um incidente passional que o colhera de improviso no meio dos seus
relatórios e dos seus livros — sem criar uma situação de fraqueza às suas
magníficas rebeldias do pensar e do sentir.
PLANO DE UMA CRUZADA
CAPÍTULO I
As secas do extremo norte delatam, impressionadoramente, a nossa
imprevidência, embora sejam o único fato de toda a nossa vida nacional ao qual se
possa aplicar o princípio da previsão. Habituamo-nos àquelas catástrofes periódicas.
Desde a lancinante odisséia de Pero Coelho, no alvorar do século XVII, até ao
presente, elas vêm formando, à margem da nossa história, um tristíssimo apêndice
de indescritíveis desastres. A princípio, mercê do próprio despovoamento do
território, ninguém as percebeu. Notou-as, apreensivo, o primeiro sertanista que se
afoitou, naquelas bandas, com o desconhecido: os flagelos revelados mal rebrilham
e repontam, fogacíssimos, rompentes da linguagem perra e nebulosa dos roteiros...
Depois, à medida que se povoava a terra, cresceu-lhes a influência, e desvendaram-
se-lhes os aspectos, deploráveis todos.
Em 1692, em 1793 e em 1903 - para apontarmos apenas as datas seculares
entre as quais se inserem, inflexivelmente, como termos de uma série, outras,
sucedendo-se numa razão quase invariável - o seu limbo de fogo abrangendo toda a
expansão peninsular que o cabo de S. Roque extrema abriu, intermitentemente,
largos hiatos nas atividades. Outrora, completavam-lhe os efeitos as depredações do
tapuia - tribos errantes precipitando-se, estonteadas, para o litoral, e para o sul,
refluídas pelos sóis bravios; hoje, as incursões dos jagunços destemerosos — almas
varonis, que a desventura maligna, derrancando-as nas aventuras brutais dos
quadrilheiros; e sobre umas e outras, em todas as quadras, o epílogo forçado das
epidemias devastadoras rematando as espantosas tragédias que mal se denunciam
no apagado de imperfeitas notícias ou inexpressivas memórias.
Há uma estética para as grandes desgraças coletivas. A peste negra na
Europa aviventou um renascimento artístico que veio do verso triunfal de Petrarca à
fantasia tenebrosa de Albert Dürer e ao pincel funéreo de Rembrandt. A dança de S.
Guido, que sacudiu convulsivamente as populações ribeirinhas do Reno, criou a
idealização maravilhosa da dança Macabra. A morte imortalizou os artistas definidos
pelo gênio misterioso de Holbein, e perdida a aparência lutuosa, o seu espectro
hilariante, arrebatado na tarântula infernal, percorreu entre os aplausos de um triunfo
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doloroso todos os domínios da arte, das páginas de Manzoni, às rosáceas
rendilhadas das catedrais, às iluminuras dos livros de Horas dos crentes e ao
caprichoso cinzelado dos copos das espadas gloriosas...
Mas entre nós estes transes tão profundamente dramáticos não deixam
traços duradouros. Aparecem, devastam e torturam; extinguem-se e ficam
deslembrados.
Entretanto, senão pelos seus feitos desastrosos, pela sua insistência, pela
impertinência insanável com que se ajustam aos nossos destinos, eles são o mais
imperioso desafio às forças do nosso espírito e do nosso sentimento.
Mas criaram sob o ponto de vista artístico raras páginas incolores de um ou
outro livro, e alguns alexandrinos resplandecentes de Junqueiro; na ordem
administrativa, medidas que apenas paliam os estragos; e no campo das
investigações cientificas o conflito estéril da algumas teorias desfalecidas.
E que o fenômeno climático, tão prejudicial a um quinto do Brasil, só nos
impressiona quando aparece; é uma eterna e monótona novidade; estudamo-lo
sempre nas aperturas e nos sobressaltos dos períodos certos em que ele se
desencadeia.
Então a alma nacional, de chofre comovida, ostenta o seu velho
sentimentalismo incorrigível desentranhando-se em subscrição e em sonetos, em
manifestos liricamente gongóricos e em telegramas alarmantes; os poderes públicos
compram sacos de farinha e organizam comissões, e os cientistas apressados - os
nossos adoráveis sábios à la minute — ansiando por salvarem também um pouco a
pobre terra, imaginam hipóteses.
Ora, a feição proteiforme destas últimas é expressiva. Dos fatos geométricos
mais simples (a forma especial do continente norte-oriental), às circunstâncias
orográficas da orientação das serras, à fatalidade astronômica da rotação das
manchas solares, às considerações mais sérias relativas à constituição litológica dos
terrenos - em todos estes pontos, que formam, afinal, toda a psiografia do extremo
norte, tem doidejado as indagações com o efeito único de revelarem o traço
característico do nosso espírito afeiçoado a um generalizar espetaculoso com o
sacrifício da especialização tenaz, mais modesta, mais obscura e mais útil.
Diante da enorme fatalidade cosmológica, temos uma atitude de amadores; e
fazemos física para moças. Daí a instabilidade e o baralhamento dos juízos.
Acompanhamos o fenômeno escravizados à sua cadência rítmica; não lhe
antepomos à intermitência a continuidade dos esforços. Entretanto, o próprio variar
das causas precipitadas nos revela. a sua feição complexa, exigindo longos e
pacientes estudos. E evidente que estes serão sempre estéreis, adstritos aos
paroxismos estivais, desdobrando-se na plenitude das catástrofes desencadeadas
com o objetivo ilusório de as debelar, quando uma intervenção realmente eficaz só
pode consistir no prevenir as secas inevitáveis, do futuro.
Estabelecido de modo iniludível o fatalismo das leis físicas, que estão
firmando o regime desértico em mais de um milhão de quilômetros quadrados do
território e torturando cerca de três milhões de povoadores, impõe-se-nos a
resistência permanente, constante, inabalável e tenaz — uma espécie de "guerra
dos cem anos" contra o clima — sem mesmo a trégua dos largos períodos benignos,
porque será exatamente durante eles que nos aperceberemos de elementos mais
positivos para a reação.
As secas do norte interessam a dez Estados. Irradiantes do Ceará, vão, pelo
levante, ao centro do Piauí, buscando as extremas meridionais do Maranhão, de
onde alcançam as do norte de Goiás; alongam-se para o ocidente abarcando com o
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limbo fulgurante o Rio Grande do Norte, a Paraíba, Pernambuco e Alagoas,
lançando as últimas centelhas pelo mar em fora até Fernando de Noronha; e
alastram-se pela Bahia e Sergipe, para o sul, até às raias setentrionais de Minas.
Sendo assim, qualquer que seja o desfalecimento econômico do país,
justifica-se a formação de comissões permanentes, de profissionais — modestas
embora, mas de uma estrutura inteiriça — que, demoradamente, desvendando com
firmeza as leis reais dos fatos inorgânicos observados, possam esclarecer a ação
ulterior e decisiva do governo.
Não há mais elevada missão à nossa engenharia. Somente ela, ao cabo de
uma longa tarefa (que irá das cartas topográficas, e hipsométricas, aos dados sobre
a natureza do solo, às observações meteorológicas sistemáticas e aos
conhecimentos relativos à resistência e desenvolvimento da flora), poderá delinear o
plano estratégico desta campanha formidável contra o deserto.
Então, podarão concorrer, reciprocamente nas suas influências variáveis, os
vários recursos que em geral se sugerem isolados: a açudada largamente
disseminada, já pelo abarreirar dos vales apropriados, já pela reconstrução dos
lanços de montanhas que a erosão secular das torrentes escancelou em boqueirões,
o que vale por uma restauração parcial da terra; a arborização em vasta escala com
os tipos vegetais que, a exemplo do joazeiro, mais se afeiçoam à rudeza climática
das paragens; as estradas de ferro de traçados adrede dispostos ao deslocamento
rápido das gentes flageladas; os poços artesianos, nos pontos em que a estrutura
granítica do solo não apresentar dificuldades insuperáveis; e até mesmo uma
provável derivação das águas do S. Francisco, para os tributários superiores do
Jaguaribe e do Piauí, levando perpetuamente à natureza torturada do norte os
alentos e a vida da natureza maravilhosa do sul...
É, por certo, um programa estonteador; mas único, improrrogável, urgente.
Há bem pouco tempo, num artigo notável, Barbosa Rodrigues demonstrou o
empobrecimento contínuo das nossas fontes, dos nossos rios e até mesmo das
poderosas artérias fluviais da Amazônia.
A palavra austera do naturalista não logrou vingar o reduzido círculo de
alguns estudiosos. Vibrou, inutilmente, como o grito de alarma de uma atalaia
longínqua, avantajada demais. Entretanto, dela se conclui que, dada a generalidade
daquele fato e o seu crescendo desconsolativo, deve engravescê-lo numa escala
maior o regime excessivo dos sertões do norte. O deserto invoca o deserto. Cada
aparecimento de uma seca parece atrair outra, maior e menos remorada, dando à
terra crescente receptibilidade para o flagelo.
Os intervalos que as separam estreitam-se, acelerando-lhe o ritmo,
agravando-lhe o grau termométrico das canículas que são a febre alta daquela
sezão monstruosa da terra. O interessante paralelismo de datas, que lhes dava um
movimento uniforme nos séculos anteriores, parece destruir-se a pouco e pouco; e
os seus ciclos, outrora amplíssimos, reproduzem-se, cada vez mais céleres e
constritos, como arrastados nos giros cada vez menores de uma espiral invertida.
Deste modo não há vacilar numa ação decisiva e, sobretudo, permanente.
Os holandeses não se limitaram a construir grande parte da Holanda: ainda
hoje, quando tufam as marés e a onda ensofregada acachoa ruidosa, chofrando a
antemural dos diques, escuta-a da outra banda uma legião tranqüila e vigilante de
engenheiros hidráulicos, os primeiros do mundo.
A França no arrancar, transfigurada, a Tunísia do Saara, reata a empresa
muitas vezes secular dos romanos.
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Porque para esses desastrosos desvios da natureza só vale a resistência
organizada, permanente e contínua.
Além disto, para o nosso caso, trata-se de uma velha dívida a saldar.
De efeito, por um contraste impressionador, as soalheiras que requeimam o
norte, são elementos benfazejos ao resto do Brasil. Por um lado os alísios, refertos
da umidade captada na travessia do Atlântico, ao tocarem a superfície calcinada dos
sertões superaquecem-se, conservando, no altear o ponto de saturação, as chuvas
que conduzem; e repelidos pelas colunas ascencionais dos ares em fogo, que se
alevantam das chapadas desnudas, refluem às alturas e vão rolando para o
sudoeste, indo condensar, nas vertentes dos rios que derivam para o Amazonas e
para o Prata, as águas que originam os seus cursos perenes e a fecundidade das
terras.
Por outro lado, aqueles titânicos caboclos, que a desventura expulsa dos
lares modestíssimos, têm levado a todos os recantos desta terra o heroísmo de uma
atividade incomparável: povoaram a Amazônia; e do Paraguai ao Acre estadearam
triunfalmente a sua robustez e a sua esplêndida coragem de rija sub-raça já
constituída.
Assim, sob um duplo aspecto nós devemos, em parte, à sua miséria um
pouco da nossa opulência relativa, e às suas desgraças a melhor parte da nossa
glória.
E esta dívida tem mais de quatrocentos anos...
CAPÍTULO II
Delineando no artigo anterior um fugitivo esboço da reação contra o clima
singular que vitima todo o norte do Brasil, vimos de relance os vários recursos que,
simultaneamente aplicados, poderiam melhorá-lo; mas do mesmo passo verificamos
que a ação governamental seria ilusória se não a esclarecessem os elementos e
dados positivos adquiridos em um aturado estudo daquelas paragens,
sistematicamente executados por um grupo permanente de profissionais que, mercê
de uma longa estada sobre o território, estabelecessem com a sua natureza, ainda
em grande parte desconhecida, uma estreita intimidade, facultando-lhes o
conhecimento de seus variadíssimos aspectos e, ao cabo, a revelação completa dos
agentes nefastos que a malignam e devastam.
Não vai nisto a teimosia impertinente de um teórico incorrigível. Esta
exploração científica da terra - coisa vulgaríssima hoje em todos os países — é uma
preliminar obrigatória do nosso progresso, da qual nos temos esquecido
indesculpavelmente, porque neste ponto rompemos com algumas das mais belas
tradições do nosso passado. Realmente, a simples contemplação dos últimos dias
do regime colonial, nas vésperas da independência, revela-nos as figuras esculturais
de alguns homens que hoje mal avaliamos, tão apequenadas andam as nossas
energias, e tão grandes o descaso e o desamor com que nos voltamos para os
interesses reais deste país. Ricardo Franco de Almeida Serra, Silva Pontes e
Lacerda e Almeida são hoje uns quase anônimos. Entretanto, os estóicos
astrônomos, que os grosseiros agulhões mal norteavam nas espessuras nunca
percorridas, sem o arsenal suntuoso dos atuais aparelhos, determinaram as
coordenadas dos mais remotos pontos e desvendaram muitos traços proeminentes
da nossa natureza. Ao último não lhe bastou o perlustrar o Brasil de extremo a
extremo. Transpôs o mar, e foi atravessar a África . . .
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Não se podiam encontrar melhores mestres, nem mais empolgantes
exemplos. Mas, precisamente ao adquirirmos a autonomia política — talvez porque
com ela ilogicamente se deslocasse toda a vida nacional para os litorais agitados —
olvidamos a terra; e os esplendores do céu, e os encantos das paisagens, e os
deslumbramentos recônditos das minas, e as energias virtuais do solo, e as
transfigurações fantásticas da flora, entregamo-los numa inconsciência de pródigos
sem tutela, à contemplação, ao estudo, ao entusiasmo, e à glória imperecível de
alguns homens de outros climas. Ao nosso nativismo nascente — e já ouriçado com
os estilhaços dilaceradores da noite das garrafadas, não escandalizaram os ww
ensarilhados, os yy sibilantes, e o estalar dos kk, e o ranger emperrado dos rr de
alguns nomes arrevesados e estranhos. Koster, John Mawe, Wied-Newied,
Langsdorf, Aug. Saint-Hilaire... primeiros termos de uma série, onde aparecem, num
constrangimento de intrusos, raros nomes brasileiros – e que veio quase interrupto
até Frederico Hart, e que aí está contínua, imperecível e fecunda com Eugen
Hussack, Orville Derby e Emílio Goeldi.
Ora, quaisquer que sejam os inestimáveis serviços deste grupo imortal de
abnegados, são desanimadores.
Não lhes admiremos o brilho até à cegueira. Porque afinal é lastimável que
ainda hoje procuremos nas velhas páginas de Saint-Hilaire... notícias do Brasil.
Alheamo-nos desta terra. Criamos a extravagância de um exílio subjetivo que dela
nos afasta, enquanto vagueamos como sonâmbulos pelo seu seio desconhecido.
Daí, em grande parte, os desfalecimentos da nossa atividade e do nosso
espírito. O verdadeiro Brasil nos aterra; trocamo-lo de bom grado pela civilização
mirrada que nos acotovela na rua do Ouvidor; sabemos dos sertões pouco mais
além da sua etimologia rebarbativa, desertus; e, a exemplo dos cartógrafos
medievos, ao idealizarem a África portentosa, podíamos escrever em alguns trechos
dos nossos mapas a nossa ignorância e o nosso espanto: hic abent liones...
Não admiram o incolor, o inexpressivo, o incaracterístico, o tolhiço e o inviável
na nossa arte e das nossas iniciativas: falta-lhes a seiva materna. As nossas
mesmas descrições naturais recordam artísticos decalques, em que o alpestre da
Suíça se mistura, baralhado, ao distendido das landes: nada do arremessado
impressionador dos itambés a prumo, do áspero rebrilhante dos cerros de quartzito,
do desordenado estonteador das matas, do dilúvio tranqüilo e largamente esparso
dos enormes rios, ou do misterioso quase bíblico das chapadas amplas... É que a
nossa história natural ainda balbucia em seis ou sete línguas estrangeiras, e a nossa
geografia física é um livro inédito.
Aí está para o demonstrar esta questão gravíssima das secas. Nenhuma
outra reclama mais imperativamente conhecimentos positivos acerca da estrutura
dos terrenos.
Entre os recursos sugeridos, que se não excluem e cuja simultaneidade é
indispensável a uma solução definitiva, aponta-se, preeminente, a açudada em vasta
escala.
As mais ligeiras noções climatológicas denotam-lhe o valor: os numerosos e
minúsculos lagos largamente espalhados na região terão o efeito moderador de um
mediterrâneo subdividido; desaparecerão as colunas ascencionais dos ares adustos,
que por ali repulsam vivamente os alísios, e com eles a umidade recolhida nos
mares; as irrigações fecundarão a terra e, a breve trecho, despertas as suas
energias adormecidas, a renascença da flora ultimará a intervenção humana. Mas
este meio, tão decisivo pelos efeitos prefigurados, será ilusório sem a preliminar de
investigações complexas, desdobrando-se dos simples trabalhos de nivelamento,
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aos exames relativos à permeabilidade ou inclinação dos extratos, até aos estudos
mais sérios e delicados da fisiologia vegetal. Porque mesmo na passividade
inorgânica dos fatos naturais se entrelaçam solidários. Vai para meio século que Elie
de Beaumont o demonstrou, num dos lances de sua intuição genial. É uma aliança
indestrutível em que os incidentes mais díspares se acolchetam, e os vários
aspectos naturais se desenrolam numa seqüência impecável, lembrando um enredo
firme de onde ressaltam as grandes vicissitudes e, diríamos melhor, o drama
comovedor da existência indefinida da terra. Jamais o apreenderemos no afogadilho
das empreitadas científicas, de todo inaptas a nos facilitarem, numa síntese final, a
imagem aproximada desses misteriosos passados geológicos, que tanto
esclarecem, às vezes, a nossa situação presente.
Ainda hoje quem contempla, na plenitude do estio, a natureza estranha do
norte, sobretudo nos trechos em que se desatam as chapadas intermitentemente
cindidas de serros aspérrimos e abruptos — não sabe bem se está sobre o chão
recém-emergido de algum mar terciário, ou se pisa um velhíssimo afloramento do
globo, brutalmente trabalhado pelos elementos; se tudo aquilo é a desordem de um
cenário em preparativos para novas maravilhas da criação, ou um país que está
morrendo; uma construção prodigiosa, em começo, ou o desabar de uma ruinaria
imensa...
A drenagem de águas selvagens, que por ali se exercita nas quadras
tempestuosas, os seus rios que quando transitoriamente cheios volvem as águas
num ímpeto de torrentes colossais, tão céleres que mesmo quando eles cansam, no
falar dos matutos, prestes a secarem, não dão vau; e o desmantelo das encostas e
os pendores arruinados; e aqueles singulares boqueirões, tão lucidamente vistos por
I. Joffili, que as águas rasgaram nas montanhas — tudo isto denuncia a segunda
hipótese. E para logo nos empolga a imagem retrospectiva de uma terra admirável e
farta e feracíssima — um vastíssimo jardim à margem dos grandes lagos — nos
velhíssimos tempos fora da órbita da nossa história, antes que estourassem os seus
diques de montanhas e a natureza viesse lentamente definhando — roída pelas
torrentes e calcinada pelos sóis, até ao melancólico aspecto que hoje patenteia...
Ora, se uma série suficiente de realidades observadas desse algum valor a
esta demasiado imaginosa conjectura e pudéssemos reconstruir este episódio
assombrosamente dramático dos nossos fastos geológicos, bastaria, certo, à nossa
intervenção o acompanhar, numa marcha invertida, os rastos indeléveis dos
estragos. Encadeadas as torrentes e os rios, e restauradas as velhas represas
naturais, ligando-se, mesmo sem a primitiva imponência, os muramentos arruinados
das terras — todo aquele território volveria à fisionomia antiga, pelo simples jogo
equilibrado dos mesmos agentes físicos que hoje tumultuariamente o devastam.
Mas para que isto suceda, para que nos aparelhemos de uma série completa
de elementos garantidores de uma ação decisiva, faz-se mister que este problema
urgentíssimo das secas seja um motivo para que demos maior impulso a uma tarefa,
que é o mais belo ideal da nossa engenharia neste século: a definição exata e o
domínio franco da grande base física da nossa nacionalidade.
Aí está a nossa verdadeira missão.
A outros destinos talvez mais altos: a organização das atividades e do regime
geral da riqueza, o doutrinamento filosófico e a direção política, a remoção das
dificuldades presentes e o alevantamento das tradições históricas; mas todos esses
grandes atos exigem antes de tudo um cenário amplíssimo que os abranja e não se
reduza como até hoje às bordas alteadas dos planaltos e à estreita faixa de uma
costa desmedida. Tudo quanto fizermos fora deste traçado será vão ou efêmero.
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Será o eterno tatear entre as miragens de um progresso falaz e duvidoso, até agora
medido pelos estoques das sacas de café, pelas levas de imigrantes e por umas
combinações políticas que ninguém entende.
CAPÍTULO III
A expansão imperialista das grandes potências é um fato de crescimento, o
transbordar naturalíssimo de um excesso de vidas e de uma sobra de riquezas em
que a conquista dos povos se torna simples variante da conquista de mercados. As
lutas armadas que daí resultam, perdido o encanto antigo, transformam-se,
paradoxalmente, na feição ruidosa e acidental da energia pacífica e formidável das
indústrias. Nada dos velhos atributos românticos do passado ou da preocupação
retrógrada do heroísmo. As próprias vitórias perderam o significado antigo. São até
dispensáveis. A Inglaterra suplantou o Transvaal ao cabo de sucessivas derrotas;
amanhã a Rússia, constantemente batida, talvez esmague o Japão. Estão fora dos
lances de gênio dos generais felizes e do fortuito dos combates. Vagas humanas
desencadeadas pelas forças acumuladas de longas culturas e do próprio gênio de
raça, podem golpeá-las à vontade os adversários que as combatem e batem
debatendo-se, e que se afogam. Não param. Não podem parar. Impele-as o
fatalismo da própria força. Diante da fragilidade dos países fracos, ou das raças
incompetentes, elas recordam, na história, aquele horror ao vácuo, com que os
velhos naturalistas explicavam os movimentos irresistíveis da matéria.
Revelam quase um fenômeno físico. Por isso mesmo nesta expansão
irreprimível, não é do direito, nem da Moral com as mais imponentes maiúsculas,
nem de alguma das maravilhas metafísicas de outrora que lhes despontam
obstáculos.
E da própria ordem física.
Realmente, à parte a Rússia seguindo para o levante entre os mesmos
paralelos, a Europa e os Estados Unidos abandonaram as latitudes onde se
formaram; e como, qualquer que seja a flexibilidade do homem para o clima, os
limites históricos dos povos se traçam pelas zonas terrestres onde surgiram, o
problema capital do imperialismo está menos no adquirir um pedaço de território que
na adaptação do território adquirido. Trata-se de inquirir se a raça branca afeiçoada
às zonas temperadas, que são as das civilizações duradouras, poderá viver e
crescer fora do seu deslumbrante habitat.
Porque as disposições geográficas imutáveis lhe oferecem os maiores
cenários precisamente na África adusta, na Ásia meridional ardentíssima ou na
Austrália desértica, deixando-lhe como únicas paragens, próprias a uma aclimação
rápida, um trecho do Brasil do Sul, a Argentina, o Chile, uma faixa do Canadá, a
ponta da África e algumas ilhas do Pacífico.
Daí, seguindo de par com a marcha expansionista, industrial e guerreira, das
potências, um movimento científico adrede disposto a facilitar estas mudanças de
povos.
Desbravados os caminhos pelos exércitos, estabelecidas as primeiras levas
de colonos e delineados os primeiros entrepostos — os governos entregam aos
cientistas de todos os matizes a campanha maior e mais longa contra o clima, e toda
a responsabilidade deste transplante das civilizações sem prejuízo do organismo das
raças que as representam. Felizmente a empresa coincide com a época em que,
dominando a máxima especialidade de ofícios, se entrelaçam, em generalizações
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admiráveis, todos os resultados das ciências. Profissões ontem distintas, fundem-se,
vinculadas. A engenharia não lhe bastam os recursos que vão da matemática à
química. As próprias exigências da tecnologia sanitária dilatam-se à biologia e às
mais altas indagações sobre a vida; enquanto a medicina, deparando na radiologia
nascente inesperados elementos, se alonga pela física, ou vai, pela bacteriologia,
para a amplitude das ciências naturais.
Médicos ou geômetras, ou geógrafos, todos por igual naturalistas,
confundem-se, indistintos, numa tarefa inteiramente nova, a do saneamento da terra.
Passam, sem um desvio na profissão complexa, da geologia maciça à física quase
espiritualizada, do rádio, ou às indagações biológicas; e inscrita de todo no quadro
dos agentes exteriores, a existência humana vai aparecendo-lhes feita um índice
abreviado de toda a vida universal.
Pelo menos hoje a amparam leis naturais tão rigorosas, que já não se
considera vã a tentativa de bater-se vantajosamente a fatalidade cosmológica dos
climas.
Esta empresa belíssima, porém, realiza-se obscuramente. As linhas
telegráficas não a espalham, são poucas a irradiarem as notícias e os mínimos
pormenores das batalhas. Mal se adivinham no rastro dos exércitos os
agrupamentos pacíficos, armados de inofensivos aparelhos, dos que observam, e
experimentam, e compram, e induzem; profissionais e operários, estudando as
modalidades climáticas ou corrigindo-as, lucidamente teóricos e maciçamente
práticos, passando da análise dos extratos do solos à dinâmica das correntes
atmosféricas; aqui, redimindo pelas drenagens uma superfície condenada, mais
longe fazendo ressurgir, transfigurado pela irrigação, um trato morto, de deserto — e
por toda a parte polindo ou afeiçoando o chão maninho, ou os ares perniciosos, às
novas vidas que os procuram.
Obedecem a um programa prescrito e inviolável. Na Franca e na Inglaterra as
escolas de "Medicina Colonial", onde se matriculam engenheiros oficiais de marinha,
denunciam, pelo simples título, a carreira nova destinada a sistematizar todos os
dados e a balancear todos os recursos decisivos para esta luta contra os novos
meios, desdobrada dos mais simples trabalhos de campo à mais difícil profilaxia das
moléstias que lhes são imanentes, de modo a auxiliar a adaptação compensadora
do organismo europeu a ambientes tão díspares dos que lhe são habituais.
E assim se transfiguram a Tunísia e o Egito à ourela dos desertos, a ilha de
Cuba, recentemente; e vão-se transfigurando o Sudão, a Índia e as Filipinas...
Ora, inegavelmente, um tal objetivo basta a nobilitar as invasões modernas.
Redime-lhe todas as culpas e as grandes brutalidades da força esta empresa
maravilhosa, que é urna espécie de reconstrução da terra, aparecendo cada dia
maior e oferecendo à história novos cenários no seio das paragens mortas que
ressurgem. . .
Mas para nós brasileiros, tudo isto é um desapontamento.
Realmente, nesta agitação utilíssima, que fazemos nós?
A parte os Estados do sul, estamos num país que a aclimação, apenas
favorecida pela mestiçagem, condena às formas medíocres da humanidade.
A faixa da zona tórrida que entra no litoral do Pacífico ao norte do Peru inflete
para o sul, abrange Mato Grosso e vem sair perto de Santos, deixando-se interferir e
cortar pela linha tropical. Deste modo o Brasil, na sua maior área, está vinculado
pelas condições físicas mais videntes à África Central, à Índia, às ilhas que se
salteiam de Madagascar a Borneo e à Nova Guiné, e ao extremo norte calcinado da
Austrália - em plena "Régio adusta" fechada à aristocracia dos povos. E um fato
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plenamente sabido. Ressalta ao mais breve olhar sobre um mapa. Não há fantasias
patrióticas que no-lo escondam.
E quaisquer que sejam as teorias e hipóteses e imaginosas teses que desde
Montesquieu se degladiam, irreconciliáveis, acerca do valor das influências extremas
— não há desconhecer-se que temos aquele perpétuo coeficiente de redução do
nosso desenvolvimento, atirando-nos em plano inferior ao da Argentina e do Chile.
Entretanto, não nos impressionamos. Num tempo em que se demonstra a
eficácia da ação do homem sobre o meio, capaz de deslocar os climas, quedamos
numa indiferença muçulmana sob o clima que nos fulmina. Não o estudamos mesmo
rudimentarmente, pela rama, e com objetivo de o transfigurar. Não temos mesmo
esparso, mesmo reduzido nos pontos principais dos Estados, um serviço
meteorológico sistemático e plenamente generalizado de modo a permitir uma
comparação permanente e contínua das modalidades climáticas. Da terra, sob os
infinitos aspectos que vão da rocha à flor, sabemos apenas o que se colhe em vários
livros estrangeiros e raras monografias nacionais; e ainda hoje, quando se nos
antolha uma bacia de carvão de pedra, ou um veieiro farto de ouro, faz-se-nos mister
a importação de um sábio.
Deslumbrados pelo litoral opulento e pelas miragens de uma civilização, que
recebemos emalada dentro dos transatlânticos, esquecemo-nos do interior
amplíssimo onde se desata a base física real da nossa nacionalidade. Ali se
patenteiam dois casos invariáveis: ou as populações, sobre o solo estéril, vegetam
miseravelmente decaídas pelo impaludismo, tão característico das regiões incultas,
e vão formando, pela hereditariedade dos estigmas, uma raça de mestiços
lastimáveis, agitantes num quase deserto; ou as populações, sobre o solo
exuberante, atacam-no ferozmente, a ferro e fogo, nas derribadas e nas queimadas
das largas culturas extensivas, e vão fazendo o deserto.
Este caso é notável no refletir o círculo vicioso da atividade nacional. Numa
época em que dominam os milagres da engenharia e da biologia industrial — tão
grandes os ianques em três anos transformaram num prado o deserto clássico de
Colorado-a nossa cultura tem como efeito final o barbarizar a terra.
Malignamo-la, desnudamo-la rudemente, sem a mínima lei repressiva
refreando estas brutalidades — e a pouco e pouco, nesta abertura contínua de
sucessivas áreas de insolação, vamos ampliando em S. Paulo, em Minas, em todos
os trechos, mais apropriados à vida, a faixa tropical que nos malsina.
Não há exemplo mais típico de um progresso às recuadas. Vamos para o
futuro sacrificando o futuro, como se andássemos nas vésperas do dilúvio.
Não nos contentamos em resolver a golpes de subscrições intermitentes a
fatalidade das secas, que vitimam o norte; vamos além: alargamo-las criando no sul,
sobre as vastas áreas insoladas, continuadamente crescentes, todas as mínimas
barométricas que no-las atrairão mais tarde...
E tudo isto — esta indiferença ou esta intervenção, ambas prejudiciais, se
observa numa época em que o único significado verdadeiramente civilizador do
movimento expansionista das raças vigorosas sobre a terra, está todo em afeiçoar
os novos cenários naturais a uma vida maior e mais alta — condensando-se o duro
esrnagamento das raças incompetentes com a redenção maravilhosa dos
territórios...
A MISSÃO DA RÚSSIA
A Rússia é bárbara.
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Entre a sociabilidade cortes, o sentimento da justiça e a expansiva
espiritualidade latina, ou saxônia, penetrou, vigorosamente, o impulsivo e a rude
selvatiqueza do tártaro, para se criar o tipo histórico do eslavo — isto é, um
intermediário, um povo de vida transbordante e forte e incoerente, refletindo aqueles
dois estádios, sob todas as suas formas, da mais tangível à mais abstrata, desde
uma arquitetura original, em que passa do bizantismo pesado para o gótico ligeiro e
deste para a harmonia retilínea das fachadas gregas - ao temperamento emocional
e franco, a um tempo infantil e robusto, paciente ensofregado, em que se misturam
uma incomparável ternura e uma assombradora crueldade.
Polida demais para o caráter asiático, inculta demais para o caráter europeu
— funde-os. Não é a Europa, e não é a Ásia: é a Eurásia desmedida, desatando-se,
do Báltico ao Pacifico, sobre um terço da superfície da terra e desenrolando no
complanado das estepes o maior palco da história.
A Rússia veio ocupá-la retardatária.
Nasceu quando os demais povos renasciam. Tártara até o século XV,
apareceu — engatinhando para o futuro balbuciante na sua língua sonora e
incompreendida - quando a Europa em peso, num repentino refluxo para o passado,
ia transfigurar-se entre os esplendores da Renascença e iniciava os tempos
modernos, deixando-a, a iniciar, tateando e tarda, a sua longa Idade Média, talvez
não terminada.
Mas aí está a sua força e a garantia de seus destinos. Ninguém pode prever
quanto se avantajará um povo que, sem perder a energia essencial e a coragem
física das raças que o constituem, aparelhe a sua personalidade robusta, impetuosa
e primitiva, de bárbaro, com os recursos da vida contemporânea.
E nenhum outro, certo, no atual momento histórico, talvez gravíssimo - porque
devem esperar-se todas as surpresas deste renascer do Oriente, que o Japão
comanda — é mais apto a garantir a marcha, o ritmo e a diretriz da própria
civilização européia.
Há quem negue isto. No último número, de junho, da North American Review,
Carl Blind, nome que se ajusta bem a um deslumbrado diante do grande plágio do
Japão — negando ao império moscovita o papel de campeão da raça ariana contra
o perigo amarelo, esteia-se numa sabidíssima novidade: o russo é duplamente
mongólico: é-o pela circunstância inicial de o constituírem as tribus khazares e
turanas, e pelo fato acidental da conquista tártara, no século XIII, dos netos de
Gengis Khan.
Atraído pela simplicidade deste argumento, conclui que não pode ser uma
barreira ao pan-mongolismo um povo tão essencialmente asiático.
Mas se esquece de que o russo é, antes de tudo, o tipo de uma raça histórica.
Turano pelo sangue, transmudou-se, em quinhentos anos de adaptação forçada,
sob o permanente influxo do Ocidente.
A sua melhor figura representativa é a daquele original e inquieto Pedro, o
Grande, perlustrando a Europa toda num perquirir incansável, que o arrebatava das
escolas para os estaleiros, dos estaleiros para as oficinas, das oficinas para os
salões, entre os filósofos, entre os mestres e artífices, entre os cortesãos e os reis,
observando, indagando e praticando, imperador, aprendiz e discípulo, bárbaro
perdidamente enamorado da civilização, propelido por uma ânsia inextinguível de
saber e iniciar-se em todos os segredos da existência nova, que anelava
transplantar ao seu povo ingênuo, grandioso e robusto...
Sabe-se quanto foi longa a tarefa.
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Durante todo este tempo, não rebrilha o mais apagado nome eslavo. Houve
as tormentas sociais do século XV com a renascença literária e a renascença
religiosa; houve o deslumbramento do período clássico, e a renovação filosófica
subseqüente, e o cataclismo revolucionário; por fim, de par com o desafogo franco
das ciências, o alvorecer encantador do romantismo.
A mesma Turquia teve no renascimento a sua idade de ouro, na corte do
magnífico Solimão, onde imperava absolutamente o místico Baki, "o sultão da poesia
lírica".
A Rússia, não. Na sua iniciação demorada, impondo-lhe o abandono da
originalidade de pensar e sentir pela imitação e pela cópia obrigatórias, quedou
pouco além das rudes rapsódias heróicas dos kalmukos.
Apareceu de golpe, já feita, e foi um espanto. Na região tranqüila das ciências
e das artes, parecia reproduzir-se a invasão da "Horda Dourada" dos mongóis. De
um lado, Wronsky, uma espécie de Átila da matemática, convulsionando-a com a
sua alucinação prodigiosa de gênio, ora transviado nos maiores absurdos, ora
nivelado com Lagrange na interpretação positiva do cálculo; e de outro lado,
Pouchkine, prosador e poeta, imprimindo no verso e na novela o vivo
sentimentalismo e a energia e as esperanças do seu país. Então, o poder
assimilador do gênio eslavo ostentou-se em toda a plenitude; e, pouco depois, a
nação, educada pela Europa, aparecia-lhe com uma originalidade inesperada,
apresentando-lhe aos olhos surpreendidos e aos aplausos que rebentaram,
espontâneos, com Turguenieff, com Dostoiewski, com Tchkkorf e com Tolstoi, esse
naturalismo popular e profundo repassado de um forte sentimento da raça, que tanto
contrasta com a organização social e política da Rússia.
Estava feita a transformação: as gentes, constituídas de fatores tão
estranhos, surgiram revestidas das melhores conquistas morais do nosso tempo.
Mostra-o essa mesma literatura, onde vibra uma nota tão impressionadora dramática
e humana. Qualquer romance russo é a glorificação de um infortúnio. Quem quer
que os deletreie variando vontade de autores e de assuntos, deparara sempre a
dolorosa mesmice da desdita invariável, trocados apenas os nomes aos
protagonistas: todos humildes, todos doentes, todos os fracos: o mujique, o
criminoso impulsivo, o revolucionário, o epiléptico incurável, o neurastênico bizarro e
louco. Desenvolvendo este programa singular e inexplicável, porque, segundo
observa Talbot, não há país que possua menor número relativo de degenerados, o
que domina o escritor russo não é a tese preconcebida, ou o caráter a explanar
friamente, senão um largo e generoso sentimento da piedade, diante do qual se
eclipsam, ou se anulam, o platônico humanitarismo francês e a artística e seca
filantropia britânica.
Nada mais expressivo no trair a alma nova de uma raça do mesmo passo em
conflito com a retrógrada organização social, que a comprime, e com o utilitarismo
absorvente destes tempos. Conforme um acerto de F. Loliée, o que caracteriza esta
mentalidade é a preocupação superior dos fatos morais, o eterno problema altruísta,
para que tendem todos os impulsos individuais ou políticos, através de uma análise
patética dos menores abalos da natureza humana e visando, essencialmente, no
franco estadear dos males profundos da Rússia, estimular as suas grandes
aspirações e a sua marcha para o direito e para a liberdade. O próprio niilismo, com
as suas mulheres varonis, os seus pensadores severos, os seus poetas sentimentais
e ferozes, e os seus facínoras românticos — um desvario dentro de um generoso
ideal - reponta às vezes nesta crise, como a forma tormentosa e assombradora da
justiça.
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No conflito o que se distingue bem é o choque inevitável das duas Rússias, a
nova, dos pensadores e artistas, e a Rússia tradicional dos czares; o recontro do ária
e do kalmuko.
Daí a sua fisionomia bárbara, porque é incoerente e revolta, surgindo numa
profusão extraordinária de vida, em que os velhos estigmas ancestrais, cada vez
mais apagados, mal se denunciam entre os esplendores de um belo idealismo cada
vez mais intenso e alto ...
Mas daí também a sua missão histórica neste século. Conquistada pelo
espírito moderno, a Rússia tem, naqueles estigmas remanescentes, admiráveis
recursos para a luta que nesta hora se desencadeia no Extremo Oriente. O seu
temperamento bárbaro será o guarda titânico invencível, não já de sua civilização,
mas também de toda a civilização européia.
O conceito é de Havelock Ellis: o centro da vida universal dos povos tende a
deslocar-se para o Pacífico circundado pelas nações mais jovens e vigorosas da
terra — a Austrália, o Japão e as Américas.
Ali a Rússia não tem apenas o privilégio de ser a única representante da
Europa, senão o de ser a única entre as nacionalidades que, por um longo contacto
com a barbaria, pelo hábito de vencer e dominar os impérios orientais tipicamente
bárbaros e por conservar ainda vivazes os atributos guerreiros do homem primitivo -
está mais bem aparelhada a constituir-se o núcleo de resistência do "bloc" ocidental
contra a ameaça asiática.
E inevitavelmente - quaisquer que sejam os prodígios dos bravos generais e
dos bravíssimos almirantes japoneses — a civilização seguirá para aquele novo
mundo do futuro — que margeará o Pacífico — tomando uma passagem no
Transiberiano...
TRANSPONDO O HIMALAIA
Um despacho para o War Office transmitiu as informações do coronel
Younghusband, acerca da primeira vitória decisiva das tropas que constituem a
expedição do Tibete - e aquele telegrama mal desviou a atenção geral, toda
entregue à emocionante luta russo-japonesa.
Entretanto, ali estão as primeiras linhas de um drama menos teatral e ruidoso,
mas, talvez, mais profundo e de mais imprevistas conseqüências práticas, como
sempre, a Inglaterra aproveitou as aberturas atuais da Rússia e transpôs a muralha
do Himalaia.
Que vai fazer? Adiante, deixada a orla formosíssima do vale de Cachemira,
desata-se-lhe o planalto, asperamente revolto, que recorda uma dilatação lateral de
enorme cordilheira. Os terrenos ondulam, riçados de gargantas, dobrando-se em
vales numerosos e empinando-se em contrafortes crespos de fraguedos, formando-
se os pamirs desolados e ásperos, quase despidos, onde uma flora escassa, mal
abrolhando entre pedras, reflete todo o excessivo de um clima impiedoso: de verão,
calcinando no reverbero fulgurante das soalheiras; de inverno, amortalhando a
natureza toda no sudário branco das geadas.
Ali não ha firmar-se a mais indecisa continuidade de um esforço. A vida
deriva-se tolhida e incompleta, num permanente mal das montanhas.
Dada uma centena de passos, o forasteiro estaca, ofegante, no delíquio de
um repentino assalto de fadiga, sentindo que não lhe basta aos pulmões afeiçoados
aos ares nativos, toda a atmosfera rarefeita que o envolve. Fala, e mal percebe a
própria voz. Grita, e o grito extingue-se logo, sem ecos, num abafamento de
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segredo. Depara os primeiros habitantes e assombra-se. Está diante de uns
originalíssimos colossos-anões, que resumem na estatura meã todos os extremos
da plástica: amplos torsos de atletas sobre pernas bambeantes e finas, de cretinos.
Compreende então, de pronto, as terríveis exigências de aclimação
deformadora, capaz daquela caricatura horripilante de titãs.
O inglês, desempenado e rijo, tem naqueles lugares, na sua impecável
harmonia orgânica, uma condição desfavorável e a fraqueza paradoxal da própria
robustez, meio asfixiado num ambiente que lhe não basta. suplanta-o o indígena
desfibrado, o chepang, ou o hayn, o monstrengo que vive à custa da redução da
vida e da miséria orgânica, largamente satisfeita com uma hematose imperfeitissíma.
Este, sim, lá se equilibra. Não lhe pula o sangue, a escapar-se no afogueado rubor
das arteríolas refertas; não o estonteia a vertigem: e o seu pulmão, amplificado à
custa da atrofia de todo o organismo, colhe bem, no espaço rarefeito, a exígua meia
ração de ar de que precisa.
Chegam-lhe, além disso, a fartar, os aleatórios recursos do solo esterilizado e
pobre. E quando não lhe bastassem, lá está, para ampará-lo e transmudar-lhe em
benefícios as misérias, a sua religiosidade extraordinária, maior que todas as outras,
no sistematizar a renunciação e os sacrifícios.
Realmente, o Tibete - este "teto do mundo", consoante a hipérbole oriental —
tem, na sua maior cidade, Lassa, o Vaticano do budismo.
A filosofia, que é um prodígio de imaginação e de incoerência - toda baseada
na idéia essencial do nada, ao mesmo passo que vê na natureza uma infinita série
de decomposições e recomposições sem princípio e sem fim - não podia encontrar
melhor cenário, nem mais apropriada gente.
O Tibete é uma vasta Tebaída misteriosa. Um terço de sua população é de
lamas — monges miseráveis e repulsivos, vestidos de trapos de mortalhas, meio
idiotas e errantes de mosteiro em mosteiro, de povoado em povoado, ou à toa, pelos
descampados, a pregarem, alucinadamente, a extinção da personalidade, o dogma
do desespero e o tédio universal da vida: enquanto os dois terços restantes se
abatem aniquilados, inteligências mortas sob o fardo de deuses e de mundos e de
kalpas seculares da mitologia formidável, que as estonteia e que as esmaga...
Toda essa gente ali se agita, num meio sonambulismo. O viajante encontra,
por vezes, em todos os cantos de ruas, à entrada das casas, ou dos templos,
incontáveis moinhos, tocados pelos escravos, ou pelos ventos, ou pela água — e
tem a ilusão do trabalho. Mas a ilusão apenas. A breve trecho, nota que os cilindros
gigantes não esmoem o trigo, ou separam a lã; sacodem, esterilmente, as orações e
as fórmulas consagradas que contêm.
As energias escassíssimas das gentes vão-se naquele industrialismo místico
da reza.
Então, avalia bem a identidade admirável que no Tibete, associa,
indissoluvelmente, o homem e a terra. Lança o olhar em volta. Contempla as
paragens desoladas e abruptas, tumultuando em píncaros desnudos, perdidos no
silêncio misterioso das alturas, e compreende que para aquele recanto do planeta,
alternadamente trabalhado pelos maiores estios e pelos maiores invernos - só
mesmo a quietude eterna e a imensidade vazia do Nirvana...
— Que vai fazer, ali, o inglês?...
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Vai defender a Índia. Lorde Curzon, o atual vice-rei, declara-o formalmente; a
Índia é uma enorme fortaleza triangular, tendo o Índico como um fosso envolvendo-a
por dois lados e, pelo outro, o muro do Himalaia.
Transposto este, está uma esplanada, o glacis, que deve jazer na mais
absoluta neutralidade. E a região ao sul do Tibete. Este porém abandonando, nos
últimos tempos, o seu isolamento milenário, mandou emissários ao tzar, abrindo
espontaneamente à política asiática da Rússia um dilatado campo, que se expande,
a partir das fronteiras orientais do Turquestão. Deste modo, a Rússia, sobre o glacis,
irá ajustar-se, por terra, às lindes da mais imponente das possessões inglesas,
bloqueando-lhe daquele lado trezentos milhões de súditos.
Daí, esse movimento de contrapolítica, que o Times resume limpidamente: "A
resolução do governo inglês é clara. Para o russo dominante no Turquestão, o
Tibete é um pais muito distante, que tem muito perto, a um passo, a Índia. E, embora
este passo tenha de dar-se por cima do Himalaia, a grande cordilheira, de modo
algum se compara ao imenso planalto enregelado, onde o caminhante opresso,
numa altitude de 5.000 metros, calca, durante dois meses, a neve sem ver um
homem, sem ver uma única árvore entre os piamos do Turquestão e as primeiras
cabanas dos caçadores, a 200 quilômetros de Lassa. Este planalto, e não a
cordilheira, é que forma a fronteira setentrional da Índia; e o governo inglês não
permite que lha ocupem num movimento ameaçador e contorneante.
A Inglaterra não vai conquistar, povoar, ou colonizar aquele trato do território.
O que a Inglaterra não quer, e tenazmente, é que lhe extingam aquele deserto — e
que penetre no país, perpetuamente malignado pelo clima, pela imbecilidade dos
lamas e pela vadiagem aventureira dos tchandalas, a alma forte e maravilhosa dos
russos."
Ressalta, nesta circunstância, o significado interessantíssimo do caso.
A nação mais prática entre todas – onde a inteligência, conforme a frase de
Emerson, está numa espécie de materialismo mental, porque nada produz sem se
basear num fato positivo — coloca-se, inesperadamente, ao lado da infinita
idealização estagnada do budismo...
Porque, afinal, o que convém à política inglesa na Índia é a permanência da
sociedade decaída e apática, o vazio da célebre "esplanada" — com tanta seriedade
e tão involuntário humorismo exposta pelo previdente Lorde Curzon.
E para isso, armou-se uma expedição, que lá está, há meses, assoberbada
de dificuldades de toda a ordem, num solo onde as armas inglesas, encontrando nos
tibetanos uma resistência inesperada, ainda não perderam o brilho, somente devido
à bravura e à tenacidade inamolgável dos gurkas e siks do Nepal, os melhores
soldados do velho mundo.
A tomada de Giantsé, efetuada pelo coronel Younghusband, depois de um
rude canhoneio, deu-lhes um ponto estratégico de primeira ordem. Aquela cidade
era o primeiro objetivo da campanha. Segundo se colhe de notícias anteriores, o
governador da Índia pretendia, expugnando-a, transformá-la num centro de
negociações diplomáticas com os grandes lamas e com o Dalai-Lama de Lassa, por
maneira a firmar o prestígio britânico, sem maiores dispêndios de sacrifícios.
A este propósito, citou-se, mesmo, o grande lama de Tashe Lump, "o grande
mestre", como o denominam, que assiste em Shigtsé, a poucas léguas de Giantsé.
Ao que se figura, porém, as tentativas neste sentido fracassaram.
Os últimos despachos noticiam que a expedição, agora sob o mando direto do
general MacDonald, segue rumo decisivo para o seu objetivo lógico, para Lassa,
para o âmago do país, para a Roma intangível do budismo...
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Vai desenrolar-se um dos mais empolgantes episódios da história universal.
Realmente, devem aguardar-se todas as surpresas, e até as revelações mais
imprevistas, deste recontro: um conflito entre o povo que melhor equilibra as
energias da civilização moderna e a velhíssima raça, onde melhor se conserva o
desvairado misticismo das sociedades primitivas.
CONJECTURAS
Entre os enredos prováveis que em breve embaralharão a luta do Extremo
Oriente avulta, a ressaltar em destaque sobre todas as conjecturas, uma ação
interventiva da Inglaterra.
Tudo a sugere. A parte um sem número de outras circunstâncias, mostram-
na, com toda a clareza de um traçado geométrico, os itinerários seguidos pelas duas
grandes nacionalidades no velho mundo.
A princípio marcharam paralelamente: o inglês pelo Egito, pelo Afeganistão,
pela Índia; o russo pelo norte do Turquestão e pela Sibéria em forma a defrontar o
Pacífico; e, certo, teriam no Tibete e na China propriamente dita uma larga superfície
isolante, que devia garantir a imiscibilidade de suas poderosas vagas invasoras, se
uma delas, a russa, não houvesse de inflectir forçadamente para o sul, tendendo
para um encontro, que será um conflito.
De feito, a rota do eslavo para o Oriente — a mais lenta e a maior de todas as
invasões — não denuncia, como a do saxônio, um excesso de vida, porem a mesma
necessidade inflexível de viver. Não obedece a um traçado sistemático e seco; não
vai num percurso de gentes disciplinadas avançando adstritas à retitude de
programas prefixos - e um espraiamento largo a assoberbar fronteiras, o refluxo
desordenado e em massa de um povo rudemente repelido num final espantoso de
batalhas.
Realmente, a guerra de Criméia fechou o ocidente da Europa à Rússia e
despenhou-a sobre a Ásia. A típica bonomia política de Napoleão III, com servir tão
complacentemente aos interesses da Inglaterra, em 1853, afigura-se hoje um lance
aquilino de estadista maquiavélico, porque toda aquela campanha recorda um
reconhecimento armado preparando meio século mais tarde uma luta titânica a'
adversária secular da França.
Era fácil prevê-la. O colosso moscovita, vencido, ficara inteiramente
bloqueado: o Bósforo interdito seqüestrava-o nos seus estepes, sem saída; e a
indústria triunfante das raças vitoriosas malsinava-lhe, suplantando-lho, o
desenvolvimento econômico incipiente. A Rússia, com a sua estrutura social
variadíssima e imperfeita e a sua atividade ainda tateante entre a servidão e a
liberdade, seria para sempre vencida pelo trabalho organizado e pelas riquezas
estáveis de todo o resto da Europa.
Mas dominou a situação gravíssima. Contornou-a; transmudou todo aquele
recuo num avançamento; e abalou para o levante num movimento de flanco
admirável entre ameaçador e pacífico, porque não lho estimulava ou inspirava
apenas o velho sonho guerreiro de Pedro, o Grande, a conquista do mar, senão
também o anelo de deparar em outras terras novos centros produtivos, de cultura.
Ao revés da expansão britânica na Índia, não buscava mercados para o desafogo de
indústrias que não tinha, mas novas áreas de produção industrial e agrícola, onde as
caravanas anuais dos mujiques das Terras Negras — dois milhões de homens
periodicamente postos fora dos lares pela miséria - encontrassem o abrigo salvador
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dos territórios ferozes que demoram além dos plainos estéreis do Turquestão ou da
Sibéria.
Para a sua grande vida vacilante e distensa procurou a base econômica da
China — uma Canaã vastíssima...
E assim se traçou a "estrada do império" o transiberiano, menos um caminho
comercial do que um dreno desmedido canalizando para a Rússia européia toda a
força vital da Ásia conquistada.
Para isso se demasiou em esforços em que as empresas militares mal se
destacam entre os prodígios de uma diplomacia incomparável.
Não há resumi-los. Diante dos hábeis diplomatas, de Mouravieff a Cassini,
abria-se o desconhecido: o Império do Meio, com a sua contextura política
indecifrável, onde a autoridade periclitante de uma dinastia intrusa mal se equilibra
entre os Kanatos anárquicos da Mongólia — e a força religiosa dos lamas do Tibete.
Neste sistema desfalecido, em que divergem os poderes mal unidos pela identidade
das crenças difundidas na amplitude do budismo, penetrou a componente dominante
da política russa, que os equilibrou ou os dirigiu, ou os anulou pelo contraste dos
interesses em jogo; de sorte que a breve trecho a nacionalidade, que se perdia na
grandeza inútil da Sibéria, tendo no Pacifico, em Petropavlosky, uma saída única
obstruída pelos gelos, se dilatou para o sul até Vladivostock; firmou-se depois, mais
avantajada, em Porto Arthur - de onde assoberbando todo o vale do Amur, abrangeu
a Manchúria, e conquistou o protetorado franco da Mongólia, onde se estréia a
suserania do Tibete...
Em cinqüenta anos expandiu-se em superfície capaz de cobrir a de toda a
Europa ocidental de onde refluíra em 1853.
Foi um triunfo e um revide.
Completa-os — fato sugestivo, ainda que desvalioso — uma destas minúcias
pinturescas tão em destaque as vezes entre os maiores acontecimentos.
De fato, o último aspecto desta estupenda hipertrofia territorial recorda-lhe o
ponto de partida. A extremidade peninsular de Liao-Tong — neste momento o mais
ruidoso palco do drama russo-japonês é a miniatura da Criméia. Ali ainda se retrata,
estereotipado no desmantelamento da terra, o cataclismo geológico que destacou o
Japão da Coréia, deixando-lhes de permeio a rumaria esparsa das "Dez mil ilhas",
que fervilham entre Fuzan e Nangasaki. A ponte extrema da peninsular Kuang-Tong,
a "espada do regente", embebida no mar à feição de gládio desmedido, denteia-se
de numerosas enseadas ou reentrâncias nos ásperos costões de micaxisto... Numa
delas o acesso se faz por uma passagem estreita, breve angustura de taludes a
pique à maneira de brecha de muralha.
E lá dentro, no encerro da baía, as falésias a prumo desatam-se em cortinas
unidas, encimadas de baluartes, desenrolam-se ou entrelaçam-se
entrincheiramentos, acompanhando os sulcos das ravinas, e os cerros torreados
crivam de fortalezas as alturas ...
É Porto Arthur — a Sebastopol ameaçadora do Pacífico.
Ora, esta expansão vitoriosa contrabate, de um lado, os interesses imediatos
do Japão transfigurado nos últimos trinta anos, com uma vida intensíssima a
desbordar no âmbito de suas ilhas para o cenário maior do continente fronteiro — e
de outro aos interesses futuros da Inglaterra na Índia, sobre a qual descerá direta e
esmagadoramente o peso morto formidável deste antigo mundo restituído à história.
Daí a luta - a luta às claras do Japão, arrojando na Manchúria todo o seu
exército, e a luta surda da Inglaterra, mal disfarçada sob a forma meio diplomática,
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meio militar, da missão do Tibete, que neste momento chega aos muros de Lassa, a
"impenetrável".
Mas neste investir com a capital interdita do budismo, as armas inglesas vão
bater precisamente no centro irradiante das inspirações superiores da diplomacia
moscovita. De fato, toda ela, a despeito da sua complexidade e das infinitas
muralhas em que enleou a metade da Ásia, tem consistido em destacar o prestígio
eslavo entre a fidelidade precária dos chineses à dinastia reinante e a aversão
nacional à expansão econômica do Ocidente. Teve que harmonizar coisas opostas:
captar a confiança da primeira, protegendo-a ou dirigindo-a, e ao mesmo tempo o
apoio da grande maioria do povo, em quem o nacionalismo antidinástico é um caso
particular de xenofobia, o ódio ao estrangeiro, que o caracteriza.
Ora, o instrumento desta maquinação — a maior e mais vasta de quantas
intrigas rememora a história foi o mais alto fator da vida oriental, o clero búdico, a
oligarquia teocrática de Lassa, o árbitro pré-excelente de todas as questões
asiáticas.
Tudo mais está num plano subordinado; os nove mil quilômetros de rails que
prendem Porto Arthur a Petersburgo; os possantes locomóveis que correm hoje
pelos plainos da Mongólia, arrastando pesadíssimos trens e resolvendo o problema
da rápida viação sem trilhos; as cidades russas emergentes com os seus nomes
caracteristicamente russos por toda a Manchúria; as operações em vasta escala do
Banco Russo-Chinês, açambarcando todas as finanças do Oriente; e todo o vasto
acampamento que perlonga as vias férreas, onde em cada estação se abarraca uma
sotnia de cossacos; todas estas formas materiais e imponentes do domínio têm a
garantia maior da aliança habilmente estabelecida, desde 1901, entre o papa
ortodoxo do Neva e o imperador teocrático de Lassa.
Graças a ela, desenvolveu-se o protetorado russo na Mongólia e a suserania
virtual do czar sobre toda a China. E quando a corte mandchu, rudemente molestada
pela última intervenção européia, se acolheu sob o amparo da Rússia, desvendou-
se inteiramente> diante da Europa surpreendida, a aliança singularíssima
entreabrindo uma nova fase na história do Oriente.
Delatou-a incidente expressivo. O chefe do budismo, o super-homem
tibetano, modificou a cerimônia tradicional com que através dos séculos ele
consagra os poderes supremos da Ásia: o chanceler de Lassa, conduzindo os
presentes simbólicos do domínio, não se dirigiu mais a Pequim. Dirigiu-se para a
Livadia.
Era a sagração do czar — logo depois sancionada pela própria dinastia
mandchu com o tratado confidencial de julho de 1902. E o enorme bloc russo-
búdico, descendo esmagadoramente sobre a Ásia meridional, cerrou todas as
passagens à expansão inglesa.
Compreende-se, então, a última entente cordialíssima entre a Inglaterra e a
França, rematando tão de improviso uma rivalidade secular. Não no-la explicam as
simples tendências galófilas do antigo príncipe de Gales. A política inglesa é a
menos sentimental das políticas, e embora a inquinassem os nossos belos defeitos
latinos, o seu aparelho complexo repele todos os influxos pessoais. A explicação
reponta das linhas anteriores. A arrogância britânica, tão desafiadora ainda há pouco
em Fashoda, transmudou-se em dócil cortesia, porque se lhe antolhava, depois do
problema africano resolvido no Transvaal, o problema asiático, mais sério e quase
misterioso no intricado de infinitas incógnitas.
Previu próxima e inevitável deslocação da sua força para a Ásia, a enterreirar
um antagonista que além da própria robustez lhe tem às portas, separado pelas seis
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horas de travessia da Mancha, um aliado respeitável. Era-lhe preciso remover todas
as interpretações inconvenientes da aliança franco-russa. Daí as suas transigências
quanto aos pontos controvertidos em Sião, o abandono dos projetos de linhas
férreas contrapostos aos interesses franceses no sudoeste chinês, assim como as
suas imprevistas concessões do norte da África e na Terra Nova — e sobretudo o
afogo, a ânsia, a vibratibilidade perfeitamente latina com que se precipitam os
debates do acordo anglo-francês, na Câmara dos Comuns. De qualquer modo,
deixando o seu esplêndido isolamento, o Reino Unido enfraquecerá os
compromissos franceses na dupla aliança e poderá abalançar-se à maior das
guerras.
A situação é clara.
Se a Rússia for vencida, não terá o apoio do Ocidente num trabalho de paz
que lhe salve ao menos uns restos de domínio. A convenção anglo-japonesa de
julho de 1902, tão denunciativa do largo descortínio de Chamberlain, e destinada
sobretudo a fechar as estradas da Índia e do Pacífico à Rússia, terá todos os seus
efeitos, e o governo de Mikado ficará largamente compensado do amargo
desapontamento daquele ilógico tratado de Simonosaki, em que as nações
interventoras, entoando um vae victoribus! extravagante, lhe remataram as vitórias
sobre a China, obrigando-o a respeitar a integridade territorial do vencido. A Coréia,
o Império da Manhã Serena, cairá inteiramente na órbita do Sol Levante...
E se a Rússia triunfar — o historiador futuro terá de narrar uma campanha tão
anormal, tão vasta e cheia de titânicas batalhas, que todos os recontros e assaltos
desta rude refrega, desencadeada agora no Oriente, surgirão apequenados, feitos
simples combates de vanguardas.
CONTRASTES E CONFRONTOS
Quem vai com Humboldt através das serras e das gentes do Peru, observa
um paralelismo interessante.
Copiam-se, refletem-se. A história, ali, parece um escandaloso plágio da
natureza física. Busquemo-la em todos os tempos e em todas as datas — com o
arqueólogo nos baixos relevos dos templos desabados, com o geólogo nas páginas
unidas dos extratos que se dobram nas vertentes abruptas, ou com os cronistas
coloniais nas emocionantes narrativas dos "conquistadores" e veremos um
baralhamento de contrastes em que os fatos sociais recordam um decalque dos
fatos inorgânicos, repontando, reproduzindo-se e traduzindo-se entre dois extremos:
os Andes e a civilização dos incas, os terremotos e o Peru dos "pronunciamentos".
Vai-se da terra que se retalha e se esboroa presa nas redes vibrantes das
curvas sismais que rudemente a sacodem, à impotência imóvel da cordilheira
equilibrada numa ossatura rígida de dolerito; do império patriarcal, e esteado numa
teocracia inflexível e do regime das castas, à república revolta e doidejante,
intermitentemente abalada pela fraqueza irritável dos caudilhos.
Não se disfarçam estes contrastes e estas identidades. Eles lá estão na faixa
litorânea amaninhada pelas dunas e na montana feracíssima, que as matas
ajardinam. Numa e noutra se fronteiam um passado imemorial quase maravilhoso e
um presente indefinido e deplorável. Fronteiam-se e repelem-se. Destacam-se tão
incompatíveis que o viajante, sem que o perturbem os agrupamentos
incaracterísticos que hoje ali se agitam, pode reconstruir nos seus aspectos
dominantes toda a idade de ouro dos aimaras.
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Segue a princípio pelo deserto salpintado de oásis, que se desata de Arica e
Tumbez, e encontra para logo, nas huacas subterrâneas, a própria sociedade antiga:
múmias ressequidas, abertos no escuro das colônias tumulares os olhos de esmalte,
num protesto eloqüentíssimo contra a destruição.
Mais longe, nas cercanias de Pachacamac, as ruínas dos primeiros
santuários do Sol: longas galerias de muros derruídos culminando as serranias, e os
primeiros baluartes arremessados na altura nos cimos que sobranceiam o Pacifico,
denunciando um tino incomparável nos dispositivos para a defesa do território.
Prossegue até Trujillo e desponta-lhe um traço superior de caráter utilitário da
administração incaica; as acéquias e os diques que canalizavam ou abarreiravam os
rios, alastrando em largas superfícies as redes irrigadoras, permitindo culturas
opulentas em lugares onde jamais chove, ou um trecho muitas vezes secular, de
estrada incomparável, investindo com os primeiros esporões da cordilheira...
Subindo-a, vai num crescendo a imagem retrospectiva do passado.
A paisagem torturada da serra, em que a luz crua do trópico não anima as
cores apagadas da flora rarefeita, e os horizontes se abreviam no escarpado dos
pendores, não impressiona. Suplanta-a a ruinaria da civilização lendária: É a
princípio a mesma estrada que se pisa: uma avenida do Equador ao Chile,
torneando as encostas em cortes na rocha viva, transpondo despenhadeiros em
pontes suspensas que precederam de séculos às da nossa engenharia pretensiosa,
e evocando nos traços remanescentes dos postos militares, nas estações
intervaladas, nos parques escalonados em que se encerravam os lamas
velocíssimos, os tempos gloriosos em que lhe batiam no calçamento de silhares o
tropear dos exércitos, o galope dos correios céleres e a marcha das longas
caravanas dos mercados tranqüilos.
Ladeiam-na fortalezas e templos.
De Cajamarca a Cuzco não há talvez um quilômetro onde uma pirâmide
truncada, um obelisco, um pilar, um pedaço de muro, um pórtico desabado, um
bloco de granito polido com desenhos em relevo, e um renque de monólitos, e uma
cariátide monstruosa de porfiro azulado — não recordem a raça extraordinária que,
sem conhecer o ferro, se afoitou a cinzelar a pedra, e com uma frágil ferramenta de
bronze criou uma escultura monumental em blocos de montanhas.
Em Olaitaitambo os santuários talharam-se na rocha viva.
Pisace é um contraforte de cordilheira e uma fortaleza; coroam-na sete
píncaros, sete baluartes; ninguém lhe marca o ponto em que as ousadias do homem
cederam às grandezas naturais, porque com lhe derivarem as encostas em taludes
fortes, as plataformas circulantes que lhas dominam em sucessivos patamares
multiplicaram-se, cobrindo-as inteiramente com a imagem exata de uma assombrosa
escadaria de gigantes.
A estas brutalidades da força aliaram-se, maiores, os prodígios da
inteligência. A natureza que lhe negava as chuvas, o inca contrapôs a preocupação
científica do estudo persistente do clima, ainda hoje tão bem denunciado no aquário
de pedra do observatório higrométrico de Quenco.
Foi buscar os mananciais eternos dos nevados; captou-os; dirigiu-os em
aquedutos, ora ajustados às vertentes, ora, subterraneamente, varando serranias;
ou então — pormenor que é um recuo considerável das origens da hidráulica
moderna — lançados de uma a outra serra em vasos comunicantes desmedidos.
Por fim, nos lugares onde não encontrou o cerne rijo da terra para erigir os seus
monumentos, inventou os aparelhos poligonais ciclópicos: uma arquitetura para
desafiar o cataclismo...
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Mas não previu o espanhol do século XVI.
A raça forte e pacífica, que dava os primeiros lugares aos inspetores
agrícolas, aos engenheiros, que lhe abriam as estradas e os canais, e aos arquitetos
que lhe alteavam os templos, foi colhida à traição pela brutalidade militar da
Espanha.
Fez-se na história a cópia servil de um daqueles terremotos que no Peru
subvertem cidades em minutos.
A unidade da raça autóctone, disciplinada e integra, marchando com um
método tão seguro que lhe permitiu tão altos cometimentos, contrapôs-se a
desordem de uma exploração em larga escala e o dispersivo dos caracteres de
imigrantes atraídos de todos os países.
Porque o peruano é, ainda mais do que nós, uma ficção etnográfica.
Em 1873 Charles Wiener contemplou, numa das ruas de Lima, uma galeria de
quase todas as raças — o branco, o negro, o amarelo e o bronzeado e todos os
cambiantes destas cores do bambo ao cholo, do mulato ao chino-cholo
completada por uma separação absoluta de classes, do cooli, que aluga a liberdade,
substituindo o negro, ao estrangeiro que ali chega, explora adoidamente a terra e
vai-se embora, ao quíchua, espalhando na tristeza incurável a doença de sua gens
que está morrendo... No alto o neto dos conquistadores, o quase hidalgo, em que
pese a mestiçagem, o condutício dos caudilhos, o irrequieto industrial das
revoluções, o que se diz peruano, guardando, intacta, a velha altivez espanhola,
quer a estadeie entre as opulências das haciendas, ou a levante, mais
impressionadora, revestido de andrajos, e mendigando intimamente como se fosse
um gentil-homem da miséria...
Ora, toda essa gente — à parte as culturas nos pontos em que se
desenterram as acéquias dos antigos — de um modo geral se aplica aferradamente,
numa agitação ansiosa, aos únicos trabalhos que lhe não implicam as disparidades
de um temperamento e as divergências de esforços: saqueia a terra e o passado.
Arrebata-lhes o ouro, e a prata, e os nitratos, e o guano, e as múmias, e as pedras
dos templos.
Desbastam-se as costas e as ilhas, degradam-se os flancos das serranias,
profanam-se as pirâmides funerárias, e revolvem-se as huacas, que, às vezes,
valem pelas melhores minas, bastando notar-se que com um quinto de ouro de uma
delas se construiu Trujillo...
Não se define o repulsivo dessas pesquisas lúgubres e dessa indústria
macabra, que tem como matéria-prima arcabouços disjungidos e profanados, ou
velhos sudários em pedaços.
Nada caracteriza melhor o parasitismo, o apego as tradições, a falta de
solidariedade e o desequilíbrio da energia das gentes que abarracaram por aquelas
bandas.
O passado é um despojo.
Aproveitam-no na sua forma estreitamente utilitária. E neste apropriar-se a
esmo, a sociedade revolucionária e frágil vai dando uma expressão tangível ao
contraste que a apequena ante a sociedade morta: vêem-se então mesquinhos
pardieiros desequilibradamente erectos sobre embasamentos ciclópicos; ou cidades,
e citemos apenas o Huamachuco, construídas com os blocos arrancados dos
templos: uma triste projeção horizontal de velhas fachadas, um acaçapado
estiramento de grandezas repartidas em casas de tetos deprimidos e paredes
espessas, e uma melancólica arquitetura de ruínas...
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Ora, esta atividade, que um sem-número de causas físicas e sociais tornaram
impulsiva, agitadíssima e estéril, derivando em desfalecimentos e arrancos, rebate-
se na existência política do Peru. Daí a monotonia irritante dos pronunciamentos, os
desastres das guerras infelizes e o tumultuário das perigosas sucessões
presidenciais, que ora se fazem, progressivamente, à americana, a revólver, ora com
o requinte feroz daquele suplício dos dois usurpadores Gutierres — expostos,
oscilantes, nas torres da Catedral de Lima, e despenhados depois, do alto daquelas
duas Trapeas barrocas para as fogueiras vingadoras acesas na Plaza de Armas...
Confrontados estes contrastes, acredita-se quase que as incursões peruanas,
neste momento exercitadas nas fronteiras remotas do Alto Juruá, se traduzam como
uma retirada, uma tendência para abandonar a estreita e alongada região onde uma
nacionalidade, cujos antecedentes étnicos prefiguram mais elevados destinos, jaz
bloqueada entre o maior dos mares e a maior das cordilheiras, sobre um solo batido
pelo desequilíbrio dos agentes físicos e em contacto com um passado que tanto tem
influído na sua desfortuna.
Realmente, no levante, transmontada a segunda cadeia dos Andes,
desdobra-se a natureza estável — sem catástrofes e sem ruínas — guardando
intactas as forças criadoras, à espera da componente prodigiosa do trabalho, e
oferecendo, no remanso das culturas, na disciplina da atividade adstrita a longos
esforços consistentes, e na sugestão permanente da própria harmonia natural, a
situação de parada que sempre faltou aos peruanos para que se lhes despertassem
os notáveis atributos, até hoje suplantados por uma combatividade, que é uma
fraqueza e é um anacronismo. Mas esta só poderá engravecer, criando-lhes maiores
desditas, se, ressurgindo sob um novo aspecto, for encontrar novos alentos nas
arrancadas dos caucheiros que estão prolongando na devastação das grandes
matas, um longo, um antiquíssimo tirocínio de tropelias.
CONFLITO INEVITÁVEL
As incursões peruanas não denunciam apenas a avidez de alguns
aventureiros doidamente ferretoados da ambição que os arrebata às paragens
riquíssimas dos seringais. São mais sérias; são quase um expressivo movimento
histórico, desencadeado com uma finalidade irresistível. Não as determinam apenas
as energias sociais instáveis e dispersivas da república sul-americana mais
malignada pela caudilhagem, senão as mesmas leis físicas invioláveis de toda
aquela zona.
Realmente, quem quer que contemple através da visão prodigiosa de
Humboldt, ou da clara inteligência de C. Wiener, todo o trato de terras que vai de
Arica a Trujillo, constrito entre o Pacífico e os Andes, compreende que os destinos
do Peru oscilam entre dois extremos invariáveis: ou a extinção completa da
nacionalidade suplantada por uma numerosa população adventícia, que assume
todas as modalidades do alemão industrioso ao cooli quase escravo — ou um
desdobra. mento heróico para o futuro, uma entrada atrevida na Amazônia, um rush
salvador às cabeceiras do Purus, visando do mesmo passo uma saída para o
Atlântico e um cenário mais e mais fecundo às atividades. Não há escapar às
aperturas do dilema.
A posição prejudicial dos Andes cria ao Peru, como à Bolívia, regimes que se
combatem: um litoral estéril que mal se alarga em dunas ondeantes, separado, por
uma cordilheira, da porção mais vasta e mais exuberante do país. Na estreita faixa
da costa, onde se adensou o povoamento e se erigiu a capital, e pulsa toda a
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existência política da república, estira-se um esboço de deserto; na montana
alpestre do levante e mais longe nas planícies amplas, cobertas de florestas
estupendas, por onde derivam, remansados, os últimos galhos dos tributários do
Amazonas - pervagam, errantes, as tribos dos quichuas inúteis.
Deste modo a natureza criadora e forte do oriente se desentranha em
riquezas incalculáveis diante das vistas incuriosas do selvagem enquanto no
ocidente as praias e vales areentos mal revestidos de uma flora tolhiça onde
rebrilham os cristais nitrosos e se derrama em largas superfícies a lava endurecida,
vão a pouco e pouco molificando o temperamento dos descendentes diretos dos
"conquistadores".
Realmente, ali, naquela tira litorânea e primeiros recostos andinos, que
formam, afinal, toda a geografia política do Peru, a sociedade não se irmana à terra,
desatando-lhe as energia recônditas e nobilitando-a pelas culturas. Faz uma aliança
com os terremotos: devasta-a.
Enquanto estes lhe devoram as cidades, e lhe desviam os rios, e a retalham
de fendas em que se enredam, baralhadas, as curvas sismais dos cataclismos — ela
despedaça os flancos das montanhas em procura de ouro e de prata; perfura,
escava e esquadrinha as dunas onduladas onde repousa há séculos, nas huacas
subterrâneas, a sociedade espectral dos incas mumifícados com as suas
incalculáveis riquezas, perquire e tala os descampados na faina estonteadora da
exploração dos nitratos de sódio; e desbasta as costas e as ilhas na pesquisa do
guano, que exporta para o estrangeiro sem notar que a natureza previdente lhe
oferece ao lado da esterilidade do solo os adubos pré-excelentes que a destroem.
Mas ainda nesta atividade febril e parasitária, desencadeada à ventura, o
peruano não está só. Em qualquer rua de Lima, já o notou um observador, se
ostenta a mais numerosa galeria etnográfica da terra: do caucásio puro, ao africano
retinto, ou amarelo desfibrado e ao quichua decaído; e entre estes quatro termos
principais, as incontáveis variedades de uma mestiçagem dissímil do mulato de
todos os sangues, aos zampos e cafuzos, aos cholos que lembram os nossos
caboclos, e aos interessantíssimos chino-cholos em cujos rostos se fundem as
linhas capitais de quase todas as raças. Assim, ao desordenado das atividades se
prende o conflito inevitável dos temperamentos. A vida decorre sem continuidade,
sem a disciplina resultante de uma harmonia de esforços que extinga o dispersivo
indispensável dos ofícios; e a sociedade incaracterística, sem tradições definidas —
porque a invade e a perturba, intermitentemente, a grande massa de estrangeiros
que a explora e abandona - parece refletir na ordem política o desequilíbrio das
forças naturais que lhe convulsionam o território, oscilando, dolorosamente, sacudida
pelos terremotos e pelos "pronunciamentos". Ninguém lhe lobrigou ainda um aspecto
estável, um caráter predominante, um traço nacional incisivo. Perenemente em
começo, nesse agremiar os tipos adventícios de todos os quadrantes, vai
absorvendo-lhes e refletindo-lhes por igual os atributos superiores e os estigmas.
Quem lhe deletreia os fastos segue através de uma vertigem, e sofre o constante
saltear das emoções mais opostas emergentes num baralhamento de sucessos que
se entrechocam díspares. Depois de sentir o mesmo espanto de Darwin ao ver em
1832, na catedral de Lima, desdobrar-se sobre a tropa genuflexa a lúgubre bandeira
negra de uma revolta inesperada, completando um Te-Deum — sente a frívola
alegria de Offenbach ao divisar a mantilha rendada da Perichole que tanto justificou
a ironia popular (Perra e chola!) pela vida desmandada na corte pretensiosa do
antigo Peru dos vice-reis.
Passa do trágico ao repulsivo, do assombroso ao gracil.
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Ora, este jogar de contrastes oriundos em grande parte do viver aleatório de
uma sociedade que parece estar apenas abarracada no território alongado que
prolonga o Pacífico, não escapou aos estadistas peruanos. Nascem daquela
localização prejudicial sobre um chão maninho encerrando riquezas ocasionais que
dia a dia decrescem, que se não reproduzem e dão ao trabalho improdutivo de as
descobrir um triste aspecto de pilhagem — confundindo na mesma azáfama
tumultuária a aglomeração irrequieta em que há todos as raças e não há um povo...
A salvação está no vingar e transpor a cordilheira. Ali ao menos há a
sugestão dominadora da civilização surpreendente dos incas: a estrada de duas
milhas distendida de Quito às extremas do Chile, lastrada pelas neves eternas,
contorneando encostas abruptas em releixos de rocha viva, alcandorada em pontes
pênseis sobre abismos, e estirando nas planuras as calçadas eternas de silhares
unidos com cimento betuminoso; e os velhíssimos baluartes pré-incaicos feitos de
montanhas inteiras arremessando-se nas alturas em sucessivos patamares
ameados; e a ruinaria dos santuários do Sol com os seus aparelhos ciclópicos de
blocos poligonais de porfiro brunido; e os longos aquedutos do monte Silva, em
cujos canais subterrâneos, perfurando as serras, se espelham esforços de uma
engenharia titânica...
Depois, descidas as vertentes orientais da primeira cadeia dos Andes,
transposta a "montaña" e a segunda cordilheira — a terra exuberante é de medida,
prefigurando nas grandes matas a mesma hiloe amazonense.
Nesta região, tão outra, está — pela implantação do trabalhador e pelo
equilíbrio da existência agrícola a redenção daquelas gentes que possuem os
melhores fatores para um elevado tirocínio histórico.
Mas, ao mesmo passo que lhes despontam estas esperanças, extingue-lhas a
mesma cordilheira com o seu largo tumultuar de píncaros e de pendores
impraticáveis num alude vivo de muralha, que lhes trancam quase por completo as
comunicações com o litoral. De fato, o Pacifico, ainda que se rasgue o canal de
Nicarágua, parece que pouco influirá no progresso do Peru. O seu verdadeiro mar é
o Atlântico; a sua saída obrigatória o Purus. Sabem-no há muito os seus melhores
estadistas: a expansão para o levante traduz-se-lhes como um dever elementar de
luta pela vida. Revelam-no todos os insucessos de numerosas tentativas buscando
libertá-los das anomalias físicas que o deprimem. Revelou-as desde 1879 C. Wiener:
"Os peruanos aquilatam bem a importância enorme que teriam as estradas, ligando
os afluentes navegáveis do Amazonas e do Ucayali às cidades do litoral; fizeram
todos os esforços para executá-las porque lhas impõem a lógica e o interesse; mas
parece que a sua força de vontade é menor que a constituição física dos
autóctones".
De feito, contemplando-se diante de um mapa a faixa costeira entre
Pachacamas e Tumbez, nota-se um como diagrama daquelas tentativas
desesperadas e constantes.
Foi a princípio, no extremo norte, a linha férrea de Paita e Piura, procurando
os tributários setentrionais do Solimões; depois, próxima e ao sul, uma outra, de
Lambayaque a Ferenafe: ambas estacionaram, trilhos imersos nos areais da costa.
A terceira, lançada de Pascamayo à estação terminus de Cajamarca, e a quarta
partindo de Salavery, pouco ao sul de Trujíllo — buscavam as linhas de derivação do
Ucayali: embateram ambas de encontro às fílades espessas e aos dolentos e
quartzos duríssimos das cordilheiras. A quinta, a admirável estrada de Oroya,
dominou parte da serrania, mas ficou bem longe do seu objetivo essencial no
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transmontar as últimas cordas de serras, varar pelas planícies do Sacramento e
alcançar o Purus.
Esta é expressiva: mostra como o traçado do grande tributário do Amazonas,
em cujas margens contendem agora os flibusteiros, norteia de há muito a
administração daquela república.
Por outro lado, desde 1859, com Faustino Maldonado e dez anos depois com
o coronel Latorre, sucessivas expedições se lançam para o oriente impelidas por
alguns abnegados caídos todos naqueles lugares remotos, numa extraordinária
intuição dos interesses reais. do seu país.
Estes antecedentes delatam nas perturbações que lavram em toda aquela
zona um significado bem diverso do que lhe podem dar algumas correrias de
seringueiros.
A guerra iminente tem uma feição gravíssima.
Se contra o Paraguai, num teatro de operações. mais próximo e acessível,
aliados às repúblicas platinas, levamos cinco anos para destruir os caprichos de um
homem - certo não se podem individuar e prever os sacrifícios que nos imporá a luta
com a expansão vigorosa de um povo.
CONTRA OS CAUCHEIROS
A remessa de sucessivos batalhões para o Alto Purus — movimento de armas
recordando um começo de guerra declarada — parece uma medida elementar de
previdência.
É um erro. Não implica apenas o desfalecido das nossas finanças, nem se
limita a projetar, de golpe, um brilho perturbador de baionetas no meio de um debate
diplomático; vai além: prejudica de antemão a campanha provável e torna desde já
precária a defesa das circunscrições administrativas criadas pelo tratado de
Petrópolis.
Estas afirmativas parecem paradoxais, e vão muito ao arrepio da corrente
geral da opinião revoltadíssima contra esse Peru — tão fraco diante da nossa
própria fraqueza. Mas são demonstráveis. Está passado o tempo em que a honra e
a segurança das nacionalidades se entregavam, exclusivamente, ao rigor das tropas
arregimentadas.
A última guerra do Transvaal, à parte os efeitos materiais, teve conseqüências
surpreendentes. Estão ainda vivíssimos em todas as memórias os admiráveis
episódios daquela esgrima magistral dos boers contra as armas pesadas da
Inglaterra; e entre eles, um que pelo aparecer constante e invariável nos dois
campos adversos, se reveste quase do caráter de uma lei, se é que as tem a
maneira heróica de brutalidade humana. Indiquemo-lo: em Paardeberg, quando as
tropas regulares inglesas recuaram rudemente repelidas dos entrincheiramentos de
Cronje, ampararam-na os voluntários canadenses num assalto brilhante, que ultimou
no assédio; Kimberley, defendida pelos cidadãos armados, reagiu com mais eficácia
e diante de mais numerosos sitiantes do que Ladsmith guarnecida pela tropa de
linha; em Magersfontain o pânico dos soldados teve o corretivo instantâneo de uma
ducha, na fria impassibilidade dos highlanders escoceses... São fatos expressivos.
Não escaparam à visão dos modernos profissionais da guerra. O coronel
Henderson, que os testemunhou de perto, no estado-maior de Lorde Roberts,
explica-os pelos terríveis efeitos desmoralizadores do armamento moderno e pelos
embaraços criados pela pólvora sem fumaça.
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O espírito de classe e a alta responsabilidade que lhe advém do cargo que
ocupou junto ao comandante em chefe, não lhe tolheram o dizer nuamente que toda
a luta sul-africana fora a glorificação dos lutadores improvisados, e a triumph for the
principle of voluntary service.
De Bloch foi ainda mais incisivo: a preeminência do civil resulta-lhe, iniludível,
das mesmas condições do campo das batalhas modernas, onde a virulência e
rapidez do tiro impõem uma dispersão de todo oposta aos dispositivos das paradas
e das manobras. Em tais circunstâncias os oficiais não podem dirigir efetivamente os
soldados, e estes, sem o hábito das deliberações próprias, estonteiam, desunidos e
inúteis, porque quanto maior é a sua disciplina e o "training" da fileira, tanto menor é
a aptidão individual de agir.
O argumento é impressionadoramente claro: o civil apanhado a laço, o
voluntário de pau e corda, o caipira a quem a farda aterroriza-mas cuja capacidade
de ação se desenvolveu autônoma nas caçadas, na faina da lavoura, nos múltiplos
ofícios, nas viagens e nas várias peripécias de uma existência modesta e livre, surge
de improviso desarticulando todas as peças da sinistra entrosagem em que a arte
militar tem triturado os povos.
E para que isto sucedesse bastou que esta última se desenvolvesse ao ponto
de deslocar todas as velharias da tática, firmando a única garantia dos combates nas
faculdades de iniciativa.
A conclusão é tão arrojada, e deforma tanto os moldes do conceito vulgar,
que precisamos afastá-la da nossa responsabilidade de latinos sentimentais e
exagerados. Deixemo-la aí blindada na rigidez britânica: "It is this quality which
makes the superiority of the boers over the british. And it is this also which accounts
for the superiority of the british civilian over the british regular". (De Bloch — The
wars of the f uture) .
Assim se esclarecem notáveis anomalias: a glória napoleônica, em que
colaborou talvez o precipitado de recrutas colhidos em todos os pontos e que iam
aperrar pela primeira vez as espingardas na frente do inimigo; as batalhas
estupendas da guerra da Sucessão; o esporte ruidoso e álacre dos americanos em
Cuba; e, neste momento, os desfalecimentos da formidável disciplina russa diante
da vibratibilidade japonesa...
Inesperado desfecho: a guerra cresceu para diminuir na guerrilha; e depois de
devorar os povos devora os próprios filhos, extinguindo o soldado. Não é Marte, é
Saturno.
Reagiu à reprimenda dos filósofos e ao sentimentalismo dos poetas; evolveu
ilogicamente apropriando-se dos recursos da ciência, que a repelem, e dos da
indústria, que é a sua antítese; por fim, armou-se com uns dez milhões de baionetas
e transformou-as na arma única que a trespassa. Acaba como os velhos facínoras
salteados pela fadiga moral dos próprios crimes. Suicida-se.
Ora, um fato que ressalta tão vivo no esmoitado e no desimpedido dos
campos mais próprios aos combates e aos seus alinhamentos prescritos,
naturalmente se ampliará no embaralhado e no revolto do Alto Purus e do Alto
Juruá, onde, até materialmente, são impossíveis aqueles dispositivos.
Ali não nos aguardam tropas alinhadas. Esperam-nos os caucheiros solertes
e escapantes, mal reunidos nos baleões de voga, dispersos nas ubás ligeiras, ou
derivando velozmente, isolados, à feição das correntes, nos mesmos paus boiantes
que os rios acarretam; e repontando, a súbitas, na orla florida dos igapós, e
desaparecendo, impalpáveis, no afogado dos paranamirins, onde se entrançam as
ramagens das árvores que os escondem; ou girando pelas infinitas curvas e pelos
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incontáveis furos que formam a interessantíssima anastomose hidrográfica dos
tributários meridionais do Amazonas.
A imagem material de uma campanha, ali, será o labirinto inextricável dos
igarapés. Aos nossos estrategistas não impenderá a tarefa relativamente fácil de
bater o inimigo — mas a empresa, talvez insuperável, de lobrigar o inimigo. Iludem-
se os que imaginam que o só aparecimento de alguns corpos de tropas regulares no
desmarcado trato de terras que demoram entre o Juruá e o Acre — baste a policiá-
las, e a garantir os povoadores, e a impedir a violação de uma fronteira
indeterminada. Os batalhões maciços, presos a uns tantos preceitos e ao retilíneo
das formaturas, serão tanto mais inúteis quanto mais disciplinados e feitos à
solidariedade de movimentos. O melhor de sua organização militar impecável
culminará no péssimo da mais completa inaptidão a se ajustarem ao teatro das
operações, e a enfrentarem o torvelinho dos recontros súbitos ou a se subtraírem
aos perigos das tocaias. Não exemplifiquemos, recordando lastimáveis sucessos da
nossa história recente.
Sobre tudo isto uma consideração capital. Aqueles longínquos lugares do
Purus — mais conhecidos hoje, depois da exploração de Chandless, do que muitos
pontos do nosso far west paulista — exigem uma aclimação dificílima e penosa.
Apesar de um rápido povoamento, de cem mil almas em pouco mais de trinta anos,
tem ainda o caráter nefasto das paragens virgens onde a copiosa exuberância da
vida vegetal parece favorecida por um ambiente impróprio à existência humana. O
seu quadro nosológico assombra, pela vasta série de doenças, que vão das maleitas
permanentes à hipoemia intertropical entorpecedora e àquela originalíssima
"purupuru" que não mata mas desfigura, embaciando a pele do selvagem e dando-
lhe um facies de cadáver, pondo no rosto do negro, salpintado de manchas brancas,
uma espantada máscara demoníaca, e imprimindo no do branco a brancura
repulsiva do albinismo . . .
Vê-se bem quantos agentes, dispares nos aspectos mas convergentes nos
efeitos, das conclusões mais recentes da técnica guerreira às mínimas exigências
climáticas, concorrerão no invalidar a ocupação estritamente militar daquela zona.
Além disto, as forças para repelir a invasão já ali se acham, destras e
aclimadas, nas tropas irregulares do Acre, constituídas pelos destemerosos
sertanejos dos Estados do norte, que há vinte anos estão transfigurando a
Amazônia. Eles formam o verdadeiro exército moderno como o preconizam, como o
desejam, como o proclamam altamente, dentro dos círculos militares da Europa, os
luminares da guerra precitados — não já para o caso especial das guerrilhas, mas
para todas as formas das campanhas, quer estas se desenrolem nos campos
clássicos da Bélgica, quer na topografia revessa do Transvaal. E confiados naqueles
minúsculos titãs de envergadura de aço enrijada na têmpera das soalheiras
calcinantes, a um tempo bravos e joviais, afeitos às deliberações rápidas e decisivas
de uma tática estonteadora, que improvisam nos combates com a mesma
espontaneidade com que lhes saltam das bocas as rimas ressoantes dos folguedos
— poderemos permanecer tranqüilos.
Para o caucheiro — e diante desta figura nova imaginamos um caso de
hibridismo moral: a bravura aparatosa do espanhol difundida na ferocidade mórbida
do quichua — para o caucheiro um domador único, que suplantará, o jagunço.
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ENTRE O MADEIRA E O JAVARI
Não há em todo o Brasil região alguma que tenha tido o vertiginoso progresso
daquele remotíssimo trecho da Amazônia, onde não vingou entrar o devotamento
dos carmelitas nem a absorvente atividade, meio evangelizadora, meio comercial,
dos jesuítas. Ha pouco mais de trinta anos era o deserto. O que dele se conhecia
bem pouco adiantava às linhas desanimadoras do padre João Daniel no seu
imaginoso Tesouro Descoberto: "Entre o Madeira e o Javari, em distância de mais
de 200 léguas, não há povoação alguma nem de brancos nem de tapuias mansos
ou missões". O dizer é do século XVIII e podia repetir-se em 1866 na frase de
Tavares Bastos: "O Amazonas é uma esperança; deixando as vizinhanças do Pará
penetra-se no deserto".
Entretanto, nada explicava o olvido daquele território.
Compreende-se que os próprios norte-americanos tenham reprimido até 1868
a vaga povoadora impetuosíssima que assoberbou a barreira dos Alleganis e a
transmontou, espraiando-se no far west; sopeara-lhe o arremesso a maninhez
desalentadora dos terrenos absolutamente estéreis que se desatam a partir das
vertentes orientais das Rocky Mountains.
Entre nós, não. As nossas duas maiores linhas de penetraçáo, a de S. Paulo
e a do Pará, convergentes ambas em Cuiabá, nortearam-se desde o começo como a
procura de empecilhos de toda a ordem.
Os sertanistas que abalaram de Porto Félix à feição do Tietê e do Paraná,
para vencerem as águas torrenciais do Pardo até alcançarem pelo Taquari e pelo
São Lourenço aquele longínquo objetivo depois de uma navegação de cerca de
quatro mil quilômetros - e os que demandavam, a partir de Belém, sempre ao arrepio
das águas do Amazonas, do Madeira e do Guaporé, numa travessia de mais de
setecentas léguas, iam apostados a luta formidável com os baques das catadupas,
com o acachoar das itaipavas, com a monotonia inaturável das varações remoradas,
com o choque das correntes e com os torvelinhos dos peraus. Venceram-nos; e o
planalto dos Parecis, expressivo divortium aquarum, de onde irradiam caudais para
todos os quadrantes, teve, em pleno contraste com este caráter físico dispersivo,
uma função histórica unificadora que só será compreendida quando o espírito
nacional tiver robustez para escrever a epopéia maravilhosa das Monções.
Entretanto, demoravam-lhes no ocidente paragens que seriam facilmente
percorridas sem aquela extraordinária dissipação de esforços.
A queda do maciço brasileiro, irregular e abrupta noutros pontos e originando
regimes fluviais perturbadíssimos, que alguns rios, como o Tocantins e o S.
Francisco, prolongam quase ao litoral, ali se desafoga na maior expansão em
longitude da América do Sul, precisamente na zona em que a viva deflexão dos
Andes para o ocidente propiciou uma área à maior bacia hidrográfica da terra. Daí o
remansado e o desimpedido dos seus fartos tributários. O Purus e o Juruá são,
depois do Paraguai e do Amazonas, os rios mais navegáveis do continente.
Descidas as vertentes orientais dos últimos contrafortes andinos, onde lhes
abrolham as fontes, e repontam as suas únicas cachoeiras, volvem as águas num
declive que o mais rigoroso aparelho às vezes não distingue. Ajustam-se à rara
uniformidade dos terrenos. tão eloqüentemente exposta, à mais breve contemplação
de um mapa, no paralelismo dos grandes cursos de água que correm entre o
Madeira e o Javari, drenando lentamente a região desimpedida que prolonga os
piamos bolivianos e onde a natureza equilibrada esconde as opulências de uma flora
incomparável nos labirintos. dos igarapés...
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Mas ninguém a procurou. A metrópole que firmara a posse da terra nas
cabeceiras do Rio Branco, do Rio Negro, no Solimões e no Guaporé com as
paliçadas e os pedreiros de bronze dos velhos fortes de S. Joaquim,. Marabitanas,
Tabatinga e Príncipe da Beira — quatro, enormes escudos desafiando a rivalidade
tradicional da. Espanha - evitara por completo (como se recuasse ante a ferocidade,
tão fabulada pelos cronistas, dos muros irradios) aqueles longínquos tratos do
território — até que no-las desvendassem, em 1851, Castelnau e o tenente da
marinha norte-americana F. Maury.
Foi uma revelação. O descobrimento coincidia com uma renascença da
atividade nacional. Na imprensa, o robusto espírito prático de Souza Franco aliara-se
à. inteligência fulgurante de Francisco Otaviano nessa propaganda irresistível pela
franquia do Amazonas a todas as bandeiras, a que tanto ampararam o lúcido critério
de Agassiz, as pesquisas de Bates, as observações de Brunet e os trabalhos de
Souza Coutinho, Costa Azevedo (Ladário) e Soares Pinto, até que ela desfechasse
no decreto civilizador de 6 de dezembro de 66.
Tavares Bastos, não lhe bastando, à alma varonil e romântica, o tê-la
esclarecido com o fulgor das melhores páginas das Cartas de um solitário,
transmudava-se num sertanista genial: perlustrou o grande rio trazendo-nos de lá um
livro, O Vale do Amazonas, que é um reflexo virtual da Hiloe portentosa e é ainda
hoje o programa mais avantajado do nosso desenvolvimento. Ora, neste largo
expandir de novos horizontes, um explorador tenaz, Chandless, traçou
repentinamente a diretriz de um objetivo definido. Levara-o até lá, no trecho onde os
grandes rios misturam as suas águas na anastomose das nascentes, o intento de
descobrir uma passagem do Acre para o Madre-de-Dios — o velho problema da
ligação das bacias do Amazonas e do Paraguai. Não o resolveu. Fez mais:
sugestionado pelas maravilhas naturais, transformou-se num pioneiro salteado de
ambições e fundou ali o primeiro estabelecimento que fixou o homem à terra;
enquanto um mateiro destemeroso, Manoel Urbano da Conceição, um quase
anônimo, como o é a grande maioria dos nossos verdadeiros heróis, batia
longamente o reticulado inextricável dos furos e, desvendando as nascentes de
todos os tributários do Purus, preparava a um outro dominador de desertos, o
coronel Rodrigues Labre, grande parte do terreno para um rápido e intensíssimo
povoamento.
De feito, foi uma transfiguração. Em pouco, sucessivas vagas de imigrantes
reproduziam em nossos dias o tumulto das entradas do século XVIII.
O látex das seringueiras, o cacau, a salsa, a capaíba e toda a espécie de
óleos vegetais, substituindo o ouro e os diamantes, alimentavam as mesmas
ambições ensofregadas.
A terra, até então entregue às tribos erradias, teve em cerca de dez anos
(1887) uma população de 60.000 almas, ligando-se as suas mais remotas paragens
de Sepatini e Hintanaam a Manaus, pela Companhia Fluvial de Amazonas, com um
primeiro desenvolvimento de 1.014 milhas, logo depois de distendidas na navegação
dos tributários superiores que vão do Ituxi ao Acre. E por fim uma cidade, uma
verdadeira cidade. Lábrea, repontou daquela forte convergência de energias
trazendo desde o nascer um caráter destoante do de nossos povoados sertanejos —
com o requinte progressista de uma imprensa de dois jornais, o Purus e o Labrense,
e o luxo suntuário de um teatro concorrido, e colégios, e as ruas calçadas e
alinhadas: a molécula integrante da civilização aparecendo, repentinamente, nas
vastas solidões selvagens...
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Ora, estes sucessos, que formam um dos melhores capítulos da nossa
história contemporânea, são, também, o exemplo mais empolgante da aplicação dos
princípios transformistas às sociedades. Realmente, o que ali se realizou> e está
realizando-se, é a seleção natural dos fortes. Para esse investir com o desconhecido
não basta o simples anelo das riquezas: requerem-se, sobretudo, uma vontade, uma
pertinácia, um testemor estóico e até uma constituição física privilegiada. Aqueles
lugares são hoje, no meio dos nossos desfalecimentos, o palco agitadíssimo de um
episódio da concorrência vital entre os povos. Alfredo Marc encontrou, nas margens
do Juruá, alguns parisienses, autênticos parisienses, trocando os encantos dos
bulevares pela exploração trabalhosa de um seringal fartíssimo; e acredita-se que o
viajante não exagerou. Lá estão todos os destemerosos convergentes de todos os
quadrantes. Mas, sobrepujando-os pelo número, pela robustez, pelo melhor
equilíbrio orgânico da aclimação, e pelo garbo no se afoitarem com os perigos, os
admiráveis caboclos do norte que os absorverão, que lhes poderão impor a nossa
língua, os nossos usos e, ao cabo, os nossos destinos, estabelecendo naquela
dispersão de forças a componente dominante da nossa nacionalidade.
E o que deve acontecer.
Volvendo ao paralelo que, pouco há, indicamos, ao notarmos a súbita parada
da expansão norte-americana no far west, levemo-lo às últimas conseqüências.
Por uma circunstância realmente interessante, os ianques, depois de
estacionarem largos anos diante das Rochosas, saltaram-nas, vivamente atraídos
pelas minas descobertas na Califórnia, precisamente no momento em que nos
avantajávamos até ao Acre. O paralelismo. das datas é perfeito. No mesmo ano de
1869, em que nos prendíamos por uma companhia fluvial àquelas esquecidas
fronteiras, eles se ligavam ao Pacifico pela linha férrea do Missouri, audaciosamente
locada nas cordilheiras e nos desertos.
Emparelhamo-nos, neste episódio da vida nacional, com a grande república.
Aceitemos, por isto mesmo, uma lição de Bryce.. Traçado magistralmente o quadro
da expansão ianque, o historiador nos demonstra que, diante do exagerado..
Afastamento da costa oriental, as gentes localizadas nas novas terras do Pacífico
formariam inevitavelmente uma outra nacionalidade, se os recursos da engenharia
atual lhes não houvessem permitido uma intimidade. permanente com o resto do
país.
O nosso caso é idêntico, ou mais sério.
As novas circunscrições do alto Purus, do alto Juruá e do Acre devem refletir
a ação persistente do governo em um trabalho de incorporação que, na ordem
prática, exige desde já a facilidade das comunicações e a aliança das idéias, de
pronto transmitidas e traçadas. na inervação vibrante dos telégrafos.
Sem este objetivo firme e permanente, aquela Amazônia onde se opera agora
uma seleção natural de energias e diante da qual o espírito de Humboldt foi
empolgado pela visão de um deslumbrante palco, onde mais cedo ou mais tarde se
de concentrar a civilização do. globo, a Amazônia, mais cedo ou mais tarde, se
destacará do Brasil, naturalmente e irresistivelmente, como. se despega um mundo
de uma nebulosa — pela expansão centrífuga do seu próprio movimento.
SOLIDARIEDADE SUL-AMERICANA
A República tirou-nos do remanso isolador do império para a perigosa
solidariedade sul-americana: caímos dentro do campo da visão, nem sempre lúcida,
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do estrangeiro, insistentemente fixa sobre os povos, os governos e os "governos"
(ironicamente sublinhados ou farpeados de aspas) da América do Sul.
O imperador, em que pese à sua educação imperfeita e às suas sensíveis
falhas de estadistas, era o grandes plenipotenciário do nosso bom senso equilibrado
e da nossa seriedade. A sua bela meia ciência, toda ornada de excertos hebraicos e
das estrelas da astronomia doméstica de Flammarion, mas ansiosamente atraída
para o convívio dos sábios e costumaz freqüentadora de institutos, era a nossa
mesma ânsia, talvez precipitada, mas nobilíssima, de acertar, e a sua bonomia, os
seus hábitos modestos e simples, os mesmos hábitos modestos, certo sem brilhos,
mas em todo o caso decentes, com que andávamos na história.
Tinha a força sugestiva e dominadora dos símbolos, ou das imagens. Era,
para a civilização tão distraída por infinitos assuntos mais urgentes e mais sérios, um
índice abreviado onde ela aprendia de um lance os aspectos capitais da nossa vida:
o epítome vivo do Brasil.
Talvez não fosse bem certo e carecesse de uma mondadura severa, ou
revisão acurada, mas tinha a vantagem de nos determinar uma consideração à
parte. Na atividade revolucionária e dispersiva da política sul-americana, apisoada e
revolta pelas gauchadas dos caudilhos, a nossa placidez, a nossa quietude, digamos
de uma vez, o nosso marasmo, delatavam ao olhar inexperto do estrangeiro o
progresso dos que ficam parados quando outros velozmente recuam. E, dada a
complexidade étnica e o apenas esboçado de uma sub-raça onde ainda se caldeiam
tantos sangues, aquela placabilidade e aquele marasmo recordavam-lhe na ordem
social e política a imprescindível tranqüilidade de ambiente que, por vezes, se exige,
na física, para que se completem as cristalizações iniciadas...
Hoje, não. Sem aquele ponto de referência, a opinião geral desvaira;
derranca-se em absurdos e em erros; estonteia num agitar sem sentido, de
maravalhas inúteis; confunde-nos nas desordens tradicionais de caudilhagem;
mistura os nossos quatorze anos de regime novo a mais de um século de
pronunciamentos; e como, durante esta crise de crescimento, nos saltearam e
salteiam desastres — que só podem ser atribuídos à República por quem atribuía ao
firmamento as tempestades que no-lo escondem – já não nos distingue nos mesmos
conceitos. E que conceitos ...
Deletreiem-se as revistas norte-americanas, para não citarmos outras, e
vejam-se o desabrido da palavra, o cruciante dos assertos e até o temerário de
futuros planos de absorção, sempre que acontece tratar-se das sister republics,
curioso eufemismo com que se designa vulgarmente o vasto e apetecido res nullius,
desatado do Panamá ao cabo Horn.
Para os rígidos estadistas que não nos conhecem, e a quem justamente
admiramos, as Repúblicas latinas — "as que se dizem Repúblicas" no dizer
dolorosíssimo de James Bryce, patenteiam, impressionadoramente, o espetáculo
assombroso de algumas sociedades que estão morrendo. Aplicando à vida
superorgânica as conclusões positivas do transformismo, esta filosofia
caracteristicamente saxônia, e exercitando crítica formidável a que não escapam os
mínimos sintomas mórbidos de uma política agitada, expressa no triunfo das
mediocridades e na preferência dos atributos inferiores, já de exagerado mando, já
de subserviência revoltante, o que eles lobrigam nas gentes sul-americanas é uma
seleção natural invertida: a sobrevivência dos menos aptos, a evolução retrógrada
dos aleijões, a extinção em toda a linha das belas qualidades do caráter,
transmudadas numa incompatibilidade à vida, e a vitória estrepitosa dos fracos sobre
os fortes incompreendidos...
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Imaginai o darwinismo pelo avesso aplicado à história...
Ora, precisamos anular estes conceitos lastimáveis, que às vezes nos
marcam situações bem pouco lisonjeiras. Porque, ainda os há que excetuam o
México disciplinado por Porfirio Díaz e enriquecido por José Ignez, embora
abrangido de todo pela órbita comercial e industrial da Norte-América; e o Chile com
a sua rígida estrutura aristocrática; e a Argentina, que poucos anos de paz vão
transfigurando, sob o permanente influxo do grande espírito de Mitre — um homem
que é o poder espiritual de um povo.
Nós ficamos alinhados com o Paraguai, convalescente; com a Bolívia,
dilacerada pelos motins e pelas guerras; com a Colômbia e a abortícia república que
há meses lhe saiu dos flancos; com o Uruguai, a esta hora abalado pelas cavalarias
gaúchas e com o Peru.
Não exageramos. Poderíamos fazer numerosas e até monótonas citações,
recentes todas, espalhadas em livros e em revistas, onde se move esta extravagante
e crudelíssima guerrilha de descrédito.
Aqui, um secretário de legação — poupemos o seu nome — que na North-
American Review patenteia um adorável ciúme ante a expansão teutônica em Santa
Catarina e bate alarmadamente a afinadíssima tecla do princípio de Monroe; e
demasia-se depois no excesso de zelo de denunciar a nossa apatia de filhos de uma
terra onde é sempre de tarde — a land where it is always afternoon! — e a nossa
miopia patriótica que não percebe em Von den Stein, em Hermann Meyer, em
Landerberg os caixeiros sábios de Hansa, os batedores sem armas do germanismo;
além do pretenso sociólogo — deixemos também em paz o seu nome e o seu livro,
que ambos não valem a escolta dos mais desarranjados adjetivos — que
pontificando dogmaticamente, genialmente canhestro
,
acerca do imperfeito da
instrução japonesa, aponta-a como inferior a das Repúblicas sul-americanas,
"exceto o Paraguai e o Brasil", recusando-nos, nesta parceria, a mesma procedência
alfabética...
Realmente, o que surpreende em tais artigos não é o extravagante das
afirmativas; é faltar-lhes, subscrevendo-os, a assinatura de Marc Twain, o mestre
encantador da risonha gravidade da ironia ianque.
Ora esta campanha iminente com o Peru pode ser um magnífico combate
contra essas guerrilhas extravagantes.
Fizemos tudo por evitá-la, sobrepondo à fraqueza belicosa da nação vizinha o
generoso programa da nossa política exterior no últimos tempos, tão elevada no
sacrificar interesses transitórios aos intuitos mais dignos de seguirmos à frente das
nações sul-americanas como os mais fortes, os mais liberais e os mais pacíficos. O
recente tratado de Petrópolis — resolvido há quarenta anos, quase pormenorizado
por Tavares Bastos e Pimenta Bueno — todo ele resultado de uma inegável
continuidade histórica — é o melhor atestado dessa antiga irradiação superior do
nosso espírito, destruindo ou dispensando sempre o brilho e a fragilidade das
espadas. Nada exprime melhor a nossa atitude desinteressada e originalíssima, de
povo cavaleiro-andante, imaginando na América do Sul, robustecida pela
fraternidade republicana, a garantia suprema e talvez única de toda a raça latina
diante da concorrência formidável de outros povos.
Mas não a compreendeu nunca a opinião estrangeira, que um excesso de
objetivismo leva à contemplação exclusiva do quadro material das nossas desditas,
à análise despiedada de tudo quanto temos de mau, à indiferença sistemática por
tudo quanto temos de bom: e interpretam-na talvez como um sintoma de fraqueza as
próprias nações irmãs do continente.
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Desiludamo-las.
Aceitemos tranqüilamente a luta com que nos ameaçam, e que não podemos
temer.
Não será o primeiro caso de uma guerra reconstrutora. Mesmo quando
rematam aparentes desastres, estes conflitos vitais entre os povos, se os não
impelem apenas os caprichos dinásticos ou diplomáticos, traduzem-se em grandes e
inesperadas vantagens até para os vencidos. A França talvez não monopolizasse
hoje as simpatias da Europa sem a catástrofe de 70, que fez a dolorosa glorificação
do seu espírito e o ponto de partida de uma regeneração incomparável, toda
esteada numa experiência duríssima. Entram muito na glória imortal da Gambeta os
planos estratégicos de Moltke.
Tão certo é que as artificiosas combinações políticas, afeiçoadas ao egoísmo
dos grupos, se despedaçam nos largos movimentos coletivos, que não abrangem. E
nós, afinal, precisamos de uma forte arregimentação de vontade e de uma sólida
convergência de esforços, para grandes transformações indispensáveis.
Se essa solidariedade sul-americana é um belíssimo ideal absolutamente
irrealizável, com o efeito único de nos prender às desordens tradicionais de dois ou
três povos irremediavelmente perdidos, pelo se incompatibilizarem às exigências
severas do verdadeiro progresso — deixemo-la.
Sigamos-no nosso antigo e esplêndido isolamento — para o futuro; e,
conscientes da nossa robustez, para a desafronta e para a defesa da Amazônia,
onde a visão profética de Humboldt nos revelou o mais amplo cenário de toda a
civilização da terra.
O IDEAL AMERICANO
Roosevelt é um estilista medíocre. A frase adelgaça-se-lhe no distendido de
uns períodos oratórios cheios de incidentes intermináveis e rematados pela
simulcadência inaturável das mesmas idéias repisadas, volvidas e revolvidas sob
todas as faces, com o sacrifício absoluto da forma à clareza, ou à exposição
desatada em pormenores e minúcias exemplificadoras. Não escreve, leciona. Não
doutrina, demonstra. Não generaliza, não sintetiza e não se compraz com os
aspectos brilhantes de uma teoria: analisa, disseca, induz friamente
,
ensina.
Mas isto sem o aprumo pretensioso de um lente que pontifica, senão com a
modéstia fecunda de um adjunto que rediz, experimenta e mostra.
E o grande repetidor da filosofia contemporânea. Nada diz de novo.
Diz tudo de útil.
O seu último livro, o Ideal Americano, é uma sistematização de truísmos, para
adotarmos o anglicismo indispensável às coisas sabidíssimas e claras. E no primeiro
momento, deletreadas as primeiras páginas, imaginamo-nos às voltas com um
excêntrico rival de Marc Twain, abalançando-se a ressuscitar velharia e a
demonstrar axiomas.
No entanto, a pouco e pouco ele nos domina e absorve. Há um encanto
irresistível naquela rudeza de rough rider e de quaker; e o paladino rejuvenescido de
coisas tão antigas - a energia, a ocupação aparente dos destinos de seu pais, vai,
realmente, traçando todas as condições imprescindíveis à vida de todos os países.
Para nós, sobretudo, a sua leitura é imperiosa e urgente.
Copiamos, numa quase agitação reflexa, com o cérebro inerte, a Constituição
norte-americana, arremetendo com as mais elementares noções do nosso tirocínio
histórico e da nossa formação, violando do mesmo passo as nossas tradições e a
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nossa índole; é natural e obrigatório que lhe vejamos, a par da grandeza, os males,
sobretudo quando eles entendem especialmente com a nossa situação presente e o
nosso caráter nacional.
De fato, Roosevelt,
ao delatar os "perigos excepcionais" que ameaçam a
grande República, antepõe-lhes por vezes de relance, mas insistentemente, feito
uma contraprova expressiva, o quadro da anarquia sul-americana; "rusguento grupo
de Estados, premidos pelas revoluções, onde um único senão destaca mesmo como
nação de segunda".
Deste modo, enquanto recuamos espavoridos imaginando o espantalho do
perigo ianque, o estrênuo professor de energia põe, na frente da opinião ianque, o
espantalho do perigo sul-americano. Temos medo daquela força; e, no entanto, ela
é quem se assusta e foge apavorada da nossa fraqueza.
Ora, infelizmente para nós, a covardia paradoxal do colosso é mais
compreensível que a infantilidade dos nossos receios.
Folheiem-se ao acaso as primeiras folhas do Ideal Americano. Depara-se-nos
para logo uma novidade: o homem tão representativo do absorvente utilitarismo e do
triunfo industrial da América do Norte é um idealista, um sonhador, um poeta
incomparável de virtudes heróicas.
Para ele, as garantias de sucesso da sua terra estão menos nos prodígios da
atividade e no assombro de uma riqueza material sem par,
do que nas belíssimas
tradições de honra, e eficiência, traduzidas na ordem política pelos nomes que se
inserem entre os de Washington e Lincoln, e na ordem social pelo repontar
ininterrupto dessas emoções generosas, que propelem aos verdadeiros estadistas e
sem as quais as nações se transmudam "em trambolhos obstrutivos de alguns tratos
da superfície terrestre". Não lhe bastam as virtudes da economia e do trabalho;
superpõe-lhes a glorificação permanente da honra nacional, da coragem e da
persistência, do altruísmo, da lealdade e das grandes tradições provindas das
façanhas passadas, formando a capacidade crescente para as empresas maiores do
futuro...
Traçado este rumo, é inflexível. Caem-lhe sob o passo de carga de uma
lógica inteiriça, confundidos, embolados e ruídos no mesmo esmagamento: — o
político tortuoso e solerte que, malignado pelo oblíquo incurável da visão moral, faz
da política um meio de existência e supre com a esperteza criminosa a superioridade
de pensar; o doutrinador estéril que não transforma a vida numa força ativa e
combatente; o indiferente que resmoneia, agressivo, contra a corrupção política ou
administrativa, e não intervém num protesto vigoroso e alto, definito por atos
decisivos; o jornalista que não exercita uma critica intrépida dos homens e dos
partidos, ou se desfaz em lisonjarias indecorosas... e sobre todos eles, os que
formam a platéia louvaminheira, não só para lhes explorar as ações como para lhas
divinizar e aplaudir, garantindo-lhes no mesmo lance a impunidade dos crimes e a
recompensa das males perpetrados
Ao lermos estas páginas impiedosas, pressentimos o dardo de uma alusão
ferina. Ali está, latente, um comentário interlinear, de onde ressalta o pior da nossa
desalentadora psicologia.
Mas prossigamos. Há identidades mais empolgantes. O impávido moralista
repisa logo adiante uma outra novidade velha: firma de modo inflexível a
necessidade de um largo americanismo, um forte sentimento. nacional contraposto a
um localismo deprimente e dispersivo. Combate às claras — numa lúcida
compreensão,. que não possuímos, do verdadeiro regime federal — o maligno
espírito de paróquia e esse estreito patriotismo de campanário provincial ou
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estadual, que subordina a nacionalidade ao bairrismo e retrata, em nosso tempo, o
federalismo incoerente da antigüidade grega, das Repúblicas medievais da Itália, e
dos retrógrados Estados da Alemanha antes de Bismarck.
Neste lance, aponta ainda uma vez os fatos "abjetos e sangrentos" da
América do Sul. E tão desanimador se lhe afigura este vício do regime, que se
apressa em lhe denunciar a quase extinção na América do Norte, graças a uma
evolução inegável e positiva, porque significa, ali, a passagem de uma forma
incoerente e dispersiva a uma forma mais coerente e definida, consoante o preceito
elementar do maior pensador da sua raça.
Trata-se como se vê, de um mal que lá está em plena decadência, próximo a
extinguir-se, mas que ainda atemoriza; ao passo que entre nós ele surge vigoroso, e
se desenvolve e irradia para toda a banda, delineando umas fronteiras ridículas, ou
ostentando irritantemente umas questões de limites inclassificáveis, e deixa-nos
impassíveis...
Completa-o um outro.
Ao patriotismo diferenciado alia-se, pior, o cosmopolitismo - essa espécie de
regime colonial do espírito que transforma o filho de um país num emigrado virtual
vivendo, estéril, no ambiente fictício de uma civilização de empréstimo. Mas não há
explicar-se a insistência do escritor neste ponto. O americano do norte é um
absorvente e um dominador de civilizações. Suplanta-as, transfigura-as, afeiçoa-as
ao seu individualismo robusto e ao seu bom senso incomparável; americaniza-as.
Para nós, sim, é que parecem feitas aquelas páginas severas riçadas de
repentinos e vivos golpes de ironia - porque entre nós é que se faz mister repetir
longamente, e monotonamente mesmo, que mais vale ser um original do que uma
cópia, embora esta valha mais do que aquele" e que o ser brasileiro de primeira
mão, simplesmente brasileiro, malgrado a modéstia do titulo, "vale cinqüenta vezes
mais do que ser a cópia de 2
ª
classe, ou servil oleografia, de um francês ou de um
inglês".
Parafraseando, diríamos: os nossos melhores estadistas, guerreiros,
pensadores e dominadores da terra, os que engenharam as melhores leis e as
cumpriram,
os homens de energia ativa e de coração, que definiram com mais brilho
a nossa robustez e o nosso espírito - todos sentiram, pensaram e agiram
principalmente como brasileiros; destacam-se, como no passado, de todo
destoantes da fisionomia moral de uma época onde o mesmo esboço de um
irrequieto e frágil nativismo foi pedir à história do estrangeiro o próprio nome do
batismo.
O Ideal Americano não é um livro para os Estados Unidos, é um livro para o
Brasil.
Os nossos homens públicos devem — com diurna e noturna mão — versá-lo
e decorar-lhe as linhas mais incisivas, como os arquitetos decoram as fórmulas
empíricas da resistência dos materiais.
E um compêndio de virilidade social e de honra política incomparável. Traçou-
o o homem que é o melhor discípulo de Hobbes e de Gunplowicz — um fanático da
força, um tenaz propagandista do valor sobre todos os aspectos, que vai da simples
coragem física ao estoicismo mais complexo.
Daí a sua utilidade, não nos iludamos. Na pressão atual da vida
contemporânea, a expansão irresistível das nacionalidades deriva-se, como a de
todas as forças naturais, segundo as linhas de menor resistência. A absorção de
Marrocos ou do Egito, ou de qualquer urna outra raça incompetente, é antes de tudo
um fenômeno natural, e, diante dele, conforme insinua a ironia aterradora de Mahan,
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o falar-se no Direito é extravagância idêntica à quem procura discutir ou indagar
sobre a moralidade de um terremoto.
É o darwinismo rudemente aplicado à vida das nações.
Roosevelt compara de modo pinturesco essa concorrência formidável a um
vasto e estupendo football on the green: o jogo deve ser claro, franco, enérgico e
decisivo; nada de desvios, nada de tortuosidades, nada de receios, porque o triunfo
é obrigatoriamente do lutador que hits tle line hard!
Aprendamos, enquanto é tempo, esta admirável lição de mestre.
TEMORES VÃOS
Numa quase mania coletiva da perseguição, andamos, por vezes, às
arrancadas com alguns espectros: o perigo alemão e o perigo ianque. Nunca, em
toda a nossa vida histórica, o terror do estrangeiro assumiu tão alarmante aspecto,
ou abalou tão profundamente as almas. Estamos, neste ponto, como os romanos da
decadência depois dos revezes de Varus: escutamos o rumor longínquo da invasão.
Uma diferença apenas: Átila não ruge o stella cadi, tellus fremit! descarregando-nos
à cabeça o frankisk pesado, e sobre o chão as patas esterilizadoras do cavalo, é
Guilherme II, um sonhador medieval desgarrado no industrialismo da Alemanha; e
Genserico, a despeito da sua envergadura rija de cowboy dominador das pastagens,
é Roosevelt, o grande professor da energia, o maior filósofo prático do século, o
ríspido evangelista da vida intensa e proveitosa.
Não é o bárbaro que nos ameaça, é a civilização que nos apavora. Esta
última consideração é expressiva. Mostra que os receios são vãos.
De fato, atentando-se para a maior destas ameaças, a da absorção ianque,
põe-se de manifesto que o imperialismo nos últimos tempos dominante na política
norte-americana não significa o fato material de uma conquista de territórios, ou a
expansão geográfica à custa do esmagamento das nacionalidades fracas — senão,
numa esfera superior, o triunfo das atividades, o curso irresistível de um movimento
industrial incomparável e a expansão naturalíssima de um país onde um
individualismo esclarecido, suplantando a iniciativa oficial, sempre emperrada ou
tardia, permitiu o desdobramento desafogado de todas as energias garantidas por
um senso prático incomparável, por um largo sentimento da justiça e até por uma
idealização maravilhosa dos mais elevados destinos da existência.
Esta vida prodigiosa alastra-se pela terra com a fatalidade irresistível de uma
queda de potenciais. Mas não leva exclusivamente o vigor de uma indústria em
busca de mercados, ou uma pletora de riquezas que impõe o desafogo de
emigração forçada dos capitais senão também as mais belas conquistas morais do
nosso tempo, em que a inviolabilidade dos direitos se ajusta cada vez mais ao
respeito crescente da liberdade humana.
Sendo assim, é pelo menos singular que vejamos uma ameaça naquela
civilização. Singular e injustificável. Tomemos um exemplo recentíssimo.
Quando o almirante Dewey rematou em Manilha a campanha acelerada que
em tão pouco tempo se alongara, num teatro de operações de 160
o
de longitude, da
ilha de Cuba às extremas do Pacifico, a conquista das Filipinas pareceu a toda a
gente uma intervenção desassombrada do ianque na partilha do continente asiático.
Os melhores propagandistas de uma política liberal e respeitadora da autonomia de
outros povos, os mesmos antiexpansionistas do North América, justificavam uma
posse arduamente conseguida através de uma luta penosa e ferocíssima. Além
disto, o arquipélago não decairia da situação anterior, permanecendo no sistema
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subalterno de colônia. Melhoraria com a troca das metrópoles; e as suas 114.000
milhas quadradas de terras fertilíssimas, onde se entranham as mais opulentas
minas e pompeiam os primores de uma flora surpreendente, eram um novo palco
que se abria às grandes maravilhas do trabalho. Realizava-se a profecia de J. Keill:
a civilização, depois de contornar a terra, volvia ao berço fulgurante do Oriente,
levando-lhe os tesouros de uma faina secular...
Deste modo, quando ao termo da campanha seguiu a primeira "comissão
filipina" a manter entre os tagalos o prestígio americano, consolidar a paz e instituir a
justiça, viu-se neste aparato pacífico o primeiro sintoma da absorção inevitável. E
era falso.
Aquela conquista, fato consumado pelo triunfo militar, pela aquiescência de
todas as nações, e pela submissão completa dos indígenas, sem nenhum empeço
material que se lhe oponha, é, neste momento, duvidosa, problemática e talvez
inexeqüível.
Não no-lo diz um sentimental; demonstra-o, friamente, num seco argumentar
incisivo, o homem mais competente para isto — Gould Shurmann, precisamente o
chefe daquela primeira comissão, e o intérprete mais veraz, senão único, dos intuitos
da política nos Estados Unidos naquele caso.
A sua linguagem é franca; não segreda ou coleia. no abafamento e nas
minúcias das informações oficiais; vibra às claras e alto numa revista — The Ethical
Record, de março último, onde o assunto, a great national question, está sob as
vistas de todo o mundo.
Ali se discutem os três destinos essenciais das Filipinas: a dependência
colonial, a independência incompleta, a exemplo do que sucede em Cuba, ou a
constituição de um território, prefigurando vindouro Estado confederado. E a
conclusão é surpreendente, sobretudo para os que tanto armam olhos e ouvidos aos
esgares truanescos e às versas extravagantes do Jingoismo ianque, tão
desmoralizado na própria terra onde se agita: Gould Shurmann, embora ressalvando
os interesses da sua terra, declara-se, com um desassombro raro, advogado da
independência Filipina. A seu parecer ela se impõe feito um corolário inflexível e
insofismável de princípios e tradições políticas que a grande República não poderá
negar ou iludir sem a renúncia indesculpável "da sua própria história e dos seus
próprios ideais."
Convenhamos em que estes dizeres, dada a autoridade oficial de quem os
emite, tornam bastante opinável o perigo ianque - a funambulesca Tarasca que tanto
desafia por aí o ferretoar dos pontos de admiração das frases patrióticas.
Afinal, ele não existe; como, afinal, não existe o perigo germânico,
inexplicável mesmo diante das nossas tentativas para que se ab-rogue
completamente o rescrito de Von der Heydt, que proibiu a emigração germânica para
o Brasil.
Concluímos que este pavor e este bracejar entre fantasmas são um simples
reflexo subjetivo de fraqueza transitória; e que estes perigos — alemão, ianque ou
italiano ou ainda outros rompentes ao calor das fantasias, e que se nos figuram
estranhos são claros sintomas de um perigo maior, do perigo real e único que está
todo dentro das nossas fronteiras e irrompe' numa alucinação da nossa própria vida
nacional: o perigo brasileiro.
Este, sim; aí está e se desvenda ao mais incurioso olhar sob infinitos
aspectos.
Mas não os consideramos.
Seria uma tarefa crudelíssima.
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Teríamos de contemplar, na ordem superior dos nossos destinos, o domínio
impertinente da velha tolice metafísica, consistindo em esperarmos tudo das
artificiosas e estéreis combinações políticas, olvidando que ao revés de causas elas
são meros efeitos dos estados sociais; e aos desastrosos resultados de um código
orgânico, que não é a sistematização das condições naturais do nosso progresso,
mas uma cópia apressadíssima, onde prepondera um federalismo incompreendido,
que é o rompimento da solidariedade nacional
Nos recessos mais íntimos da nossa vida, veríamos desdobrar-se um
pecaminoso amor da novidade, que se demasia ao olvido das nossas tradições; o
afrouxamento em toda a linha da fiscalização moral de uma opinião publica que se
desorganiza de dia a dia, e cada dia se torna mais inapta a conter e corrigir aos que
a afrontam, que a escandalizam, e que triunfam; uma situação econômica
inexplicavelmente abatida e tombada sobre as maiores e mais fecundas riquezas
naturais; e por toda a parte os desfalecimentos das antigas virtudes do trabalho e
perseverança que já foram, e ainda o serão, as melhores garantias do nosso
destino.
Concluiríamos que os temores são vãos.
Mesmo no balancear com segurança os únicos perigos reais que nos
assoberbam, não se distinguiriam males insanáveis — mas a crise transitória da
adaptação repentina a um sistema de governo que, mais do que qualquer outro,
requer, imperativamente, o influxo ininterrupto e tonificante da moral sobre a política.
Por isso mesmo ele nos salvará.
Firmar-se-á, inevitavelmente, uma harmonia salvadora entre os belos
atributos da nossa raça e as fórmulas superiores da República, empanados num
eclipse momentâneo; e desta mútua reação, deste equilíbrio dinâmico de
sentimentos e de princípios, repontarão do mesmo passo as regenerações de um
povo e de um regime.
Veremos então, melhor, todo o infundado de receios ou de imaginosas
conquistas, que são até uma calúnia e uma condenável afronta a nacionalidades
que hoje nos assombram, porque progridem, e que nos ameaçam pelo motivo único
de avançarem triunfante e civilizadoramente para o futuro.
A ESFINGE
(De um Diário da Revolta)
8 de fevereiro de 1894
...Determinação inesperada destacou-me para erigir urna fortificação ligeira
ao lado do edifício das Docas Nacionais.
Ainda bem. Deixei, afinal, aquele tristonho morro da Saúde, que há dois
meses retalho, e mino, e terrapleno, rasgando-lhe em degraus as encostas,
taludando-o e artilhando-o, numa azáfama guerreira de que sou o primeiro a me
surpreender. Lucro com a mudança. É uma variante ao menos. Livra-me do quadro
demasiado visto daquele recanto comercial que a Revolta paralisou — circulado de
trapiches desertos, atulhado pelo ciscalho bruto da ferragem velha da Mortona, e
banhado pelas águas mortas de uma reentrância da baia, onde bóiam,
apodrecendo, velhos pontões demastreados e inúteis.
Dei, por isto, para logo, rápidas ordens de partida, e os sapadores abalaram
em turmas - incorretos pelotões armados de picaretas e enxadas.
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Acompanhei-os; e não esqueci um adorável companheiro e mestre, Thomaz
Carlyle, em cujas páginas nobremente revolucionárias me penitencio do uso desta
espada inútil, deste heroísmo à força e desta engenharia malestreada...
Cheguei, em pouco, ao local indicado, encontrando novos trabalhadores. Um
apontador da diretoria de obras militares, armado de ordem terminante do
comandante da linha, e seguido de meia dúzia de praças, já havia percorrido as
tavernas e vivendas pobres das cercanias, à cata de operários como quem busca
criminosos. Avezado àquelas caçadas, não se demorara Em breve, algumas
dezenas de estivadores, de varias nacionalidades — patriotas sob a sugestão
irresistível dos rifles desembainhados e pranchadas iminentes — reforçaram as
turmas desfalcadas.
Havia braços de sobra. Podia-se abordar a empresa da construção de mais
uma Humaitá de sacos de areia, idêntica às que vêm hoje, debruando todo o litoral,
desde o Flamengo à Gamboa.
A que se projetava, porém, requeria avantajadas proporções. Destinava-se a
um Withworth 70, desentranhado da Armação (onde jazia desde a questão Christie)
e vindo por terra, em longo rodeio, até aqui.
Pesado e desgracioso, alongando por sobre o reparo sólido, à maneira de um
animal fantástico, o pescoço denegrido e áspero, ele parecia aguardar, ao lado, que
lhe preparassem o estrado onde pudesse ser conteirado à vontade, rugindo,
temeroso, sobre a rebeldia impenitente...
É o que sucederia, talvez, dentro de poucas horas.
Surdo boato, dos que por aí irrompem e se alastram, sem que se saiba de
onde partem, lançara nas. fileiras legais, comovidas, a nova de próximo embarque
— toda a maruja revoltosa em terra, desencadeada. em lances de desespero e
ousadias.
Urgia por mãos à tarefa. Certo não desfaleceria da minha banda a defesa da
Legalidade — belo eufemismo destes tempos sem leis.
Foi atacado o trabalho. Cento e tantos homens, agitantes sobre as ordens
ríspidas, arcados sob os sacos cheios de areia ou arrastando-os, arrumando-os,
superpostos, como grandes adobes de um muramento ciclópico, bracejavam durante
o dia todo...
De sorte que ao chegar a noite, brusca e varada de chuvisqueiros
intermitentes e frios, pude contemplar o meu prodígio de baluarte chinês, uma duna
ensacada, erguida em poucas horas sobre a crista do cais, dominante e desafiando
assaltos.
Protegidos por ela, e apagados, para maior resguardo, os lampiões de gás,
da vizinhança, os carpinteiros principiaram a ajeitar os pranchões aparelhados,
madeirando a plataforma.
Era a fase mais perigosa da empresa. Aquela agitação, que se realizara até
ali sem ruídos, ia transmudar-se, pela ação estrepitosa dos martelos, precisamente
na hora das surpresas, das repentinas visitas das torpedeiras traidoras.
Sustive-a, por isto, um momento, indeciso.
Considerei em torno...
Aquele trecho da Prainha espécie de White-Cheapel em miniatura, enredado
de bitesgas tortuosas e estreitas, onde mourejava população ativa, parecia
abandonado. Nem uma voz. Nem uma luz.
Em frente, no mar inteiramente calmo, avultavam, mal percebidos, os navios
de guerra estrangeiros, destacando-se melhor os couraçados brancos da esquadra
americana. Ao fundo, um cordão de pontos luminosos — Niterói. Adivinhavam-se
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ainda uns perfis de ilhas, as da Conceição e Mocanguê, vagos, numa difusão de
sombras; e a silhueta apagada do Tamandaré junto à última, imóvel, calada a
artilharia formidável, mudo na solidão das águas... Depois, para a direita, algumas
lanternas bruxoleantes, asfixiadas nas brumas: a do forte de Gragoatá, a de Santa
Cruz, mais longe, e a da fortaleza da Lage, intermitindo em cintilações longínquas,
chofradas pelas ventanias ríspidas da barra.
Nada mais na tela obscurecida...
O cenário quadrava bem a um episódio habitual e dramático, que embora
diuturnamente reproduzido não perde o traço emocionante e bárbaro.
Atravessando em silêncio a baía, o Vulcano, a Lucy ou qualquer outro sócio
de catástrofes – caldeiras surdas, fogos abafados, avançando em deslizamentos
velozes — abeira-se do litoral. Não o percebem as sentinelas, vigilantes no alto dos
parapeitos...
De repente, arrebenta-lhes adiante, nas águas, a explosão de uma cratera.
Desencadeia-se o alarma. Correm os soldados surpreendidos. Baqueiam alguns,
baleados. A maioria alinha-se nas trincheiras, carabinas estendidas sobre o plano de
fogo. Deflagram na treva os fulgores das descargas. Espingardeia-se por cinco
minutos, o vácuo... e reinam de novo o silencio e as sombras, enquanto o rebocador,
atacante, banhado nos últimos clarões do tiroteio, se afasta como uma salamandra
enorme, intangível, engolfando-se na noite.
Ora, o trabalho a iniciar-se ia atrair, sem dúvida, um desses recontros rápidos
e ferozes. Era, porém, improrrogável.
Um carpinteiro arriscou a primeira pancada, medrosa, vacilando. Depois
outra, mais firme — um estalo dilacerador na mudez absoluta. Sucederam-se outras;
e em breve, sem cadência, sacudidos pelos punhos trêmulos, vibrando na psicose
convulsiva do medo mal refreado, estrepitavam os martelos sobre as tábuas.
Tirei O relógio. Uma hora da madrugada. Ia acordar o Rio de Janeiro todo
com aquele despertador estranho que desandava, de chofre, à sua cabeceira.
Alguém, porém, fê-lo parar. As marteladas chegaram, alarmantes, ao
escritório do Lóide, onde aquartelava o comandante da linha, e este veio em pessoa
interrompê-las.
O bravo coronel — orgulho de Piauí — chegou dentro do seu dólmã vistoso e
do estado maior alarmado Traía no afogo da respiração a caminhada feita e a
emoção sagrada dos perigos. Ponderou a inconveniência daquela matinada heróica
àquelas horas. Proibiu-a. E voltou marcialmente, seguido do estado maior brilhante
num grande estrépito de espadas novas, batendo nas calçadas.
A medida era, afinal, prudente. Evitava-se que os revoltosos viessem, por sua
vez, inquirir de tal ruído, com as habituais arrancadas e sacrifícios inúteis de
inofensivos operários.
Suspensa a tarefa, estes se amontoaram por perto, abrigados pelo beiral
saído de velho armazém acaçapado, mudos, tiritando sobre a calçada resvaladia e
úmida.
E o silêncio desceu de novo, deixando distinguir-se, ao longo, o crepitar do
tiroteio escasso duma sortida qualquer, insignificante, como tantas outras que se
fazem todos os dias, pela tendência destruidora apenas, avultando, somadas, na
crônica sombria da Revolta...
Atravessando, como dardos, à noite, os feixes de luz do refletor elétrico do
morro da Glória destacavam-se no espaço, divergente e longos, fazendo surgir no
giro amplíssimo - de súbito aclarados e logo desaparecendo — além, os navios de
guerra numa passividade traidora; mais à frente Niterói, adormecida; a Armação,
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sinistra e deserta; e todas as angras, todas as angusturas, todas as ilhas, uma por
uma, repontando e extinguindo-se, no volver da paisagem móvel e fantástica;
distendo, a súbitas, num coruscar repentino de areias claras, a fita de uma praia
remota; resvalando, logo depois, devagar, pelos pendores dos cerros; estirando-se,
por fim, em distenção máxima, ate Magé, ao fundo da baía. E dali voltando, lentos,
perquirindo, na marcha fulgurante, um por um todos os pontos fortificados;
demorando-se um instante sobre a ilha das Cobras, e mostrando uma visão de
Acrópole, meio derruída, naquela ponta de granito arremessada fora das ondas;
deixando-a, e pondo uma nesga de luar errante sobre o convés revolto da
Guanabara; deslizando dali para o costado arrombado da Trajano; e passando a
outros pontos, banhando-os um a um no fulgor tranqüilo e forte - feito um olhar
olímpico da Lei, insistente e fixo, sobre os combatentes...
Admirável quadro. Curvei-me sobre a canhoneira recém-construída.
Contemplei-a e dei largas a fantasia caprichosa...
Imaginei-me, então, obscuríssimo comparsa numa dessas tragédias da
antigüidade clássica, de um realismo estupendo, com os seus palcos desmedidos,
sem telão e sem coberturas, com os seus bastidores de verdadeiras montanhas em
que se despenhavam os heróis de Esquilo, ou o proscênio de um braço de mar,
onde uma platéia de cem mil espectadores pudesse contemplar, singrantes, as
frotas dos fenícios.
A ilusão é completa.
Vai para quatro meses que não fazemos outra coisa senão representar um
drama da nossa história, de desenlace imprevisto e peripécias que dia a dia se
complicam, neste raro cenário que nos rodeia.
A civilização, espectadora incorruptível, observa-nos, dentro de camarotes
cautelosamente blindados: a França, na Arethuse veloz; a Inglaterra, entre as
amuradas da Beagle veleira, cujos passeios diários fora da barra dão tanto que
pensar; e a Alemanha, e os Estados Unidos, e o próprio Portugal sobre o convés
pequeno da Mindello...
Aplaudem-nos?
É duvidoso. Representamos desastradamente. Baralhamos os papéis da
peça que deriva num jogar de antíteses Infelizes, entre senadores armados até aos
dentes, brigando como soldados, e militares platônicos bradando pela paz — diante
de uma legalidade que vence pela suspensão das leis e uma constituição que
estrangulam abraços demasiados apertados dos que a adoram.
Daí as antinomias que aparecem. Neste enredo de Eurípedes, há um contra-
regra — Sardou. Os heróis desmandam-se em bufonerias trágicas. Morrem, alguns,
com um cômico terrível nesta epopéia pelo avesso. Sublimam-se e acalcanham-se.
Se há por aí Aquiles, não é difícil descobrir-lhes no frêmito da voz imperativa a
casquinada hilar de Trimalcião.
E a Esfinge...
Mas interrompi este desfiar de conjecturas.
Aproximavam-se dois vultos. Nada tinham de alarmantes, porque a guarda,
velando à entrada da rua, lhes permitira a passagem. Vinham à paisana. Chegaram
até à borda da plataforma, onde uma lanterna clareava o estrado num raio de dois
metros; e pararam.
Aproximei-me, saudando-os.
Um (reformado do Paraguai que a República retirou de um cartório de
tabelião para o fazer senador e general), com aprumo varonil a despeito da idade,
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correspondeu-me britanicamente, corretíssimo e firme. O outro, murchou-lhe a mão
num cumprimento frio...
À meia penumbra da claridade em bruxoleios, lobriguei um rosto imóvel,
rígido e embaciado, de bronze: o olhar sem brilho e fixo, coando serenidade
tremenda, e a boca ligeiramente refegada num rictus indefinível — um busto de
duende em relevo na imprimidura da noite, e diluindo-se no escuro feito a visão de
um pesadelo.
Reconheci-o e emudeci, respeitando-lhe o incógnito.
Vi-o logo depois abeirar-se da trincheira; e debruçar-se sobre o plano de fogo,
e ali ficar meio minuto, pensativo, a vista cravada entre a afumadura das brumas, na
outra banda da baía.
— Estão tranqüilos... murmurou.
Fez um gesto breve, despedindo-se, e seguiu acompanhado do companheiro
desempenado e vivo, desaparecendo ambos a breve trecho — duas silhuetas
agitando-se um momento, ao longe, ao brilho escasso de um lampião distante e
embebendo-se depois, inteiramente, na noite...
Curvei-me, então, de novo, sobre a canhoneira recém-construída e reatei o
meu sonhar acordado no ponto em que o interrompera: ...e a Esfinge, quebrando a
imobilidade da pedra, veste um paletó burguês e vem — desconfiadamente
confiante — rondar os lutadores...
FAZEDORES DE DESERTOS
É natural que todos os dias chegue do interior um telegrama alarmante
denunciando o recrudescer do verão bravio que se aproxima. Sem mais o antigo
ritmo, tão propício às culturas, o clima de S. Paulo vai mudando.
Não o conhecem mais os velhos sertanejos afeiçoados à passada harmonia
de uma natureza exuberante, derivando na intercadência firme das estações, de
modo a permitir-lhes fáceis previsões sobre o tempo.
As suas regras ingênuas enfeixadas em alguns ditados que tinham, às vezes,
rigorismo de leis, falham-lhes, hoje, em toda a linha: passam-lhes, estéreis, as luas
novas trovejadas; diluem-se-lhes como fumaradas secas as nuvens que ao
entardecer abarreiram os horizontes; varrem-lhes as ventanias súbitas a poeira
líquida das neblinas que se adensam de manhã, pelo topo dos outeiros; e em plena
primavera, agora, sob o alastramento das soalheiras fortes, o aspecto de suas
plantações, esfoliadas e esfloradas, principia a ser desanimador, revelando, antes
do estio franco, esse período máximo à vida vegetativa que, nos países quentes,
estão no desequilíbrio entre a evaporação intensa pelas folhas e a absorção
escassa, e cada vez menor, pelas raízes.
Toda a vegetação estiva, e esgota-se, desfalecida, precisamente na quadra
em que as primeiras chuvas e as primeiras descargas elétricas, já lhe deviam ter, do
mesmo passo, dissolvido os princípios nutritivos do solo e desdobrado, na mais
interessante das reações, os que se disseminam profusamente pelos ares.
Ao invés disto, exaurida dos sóis, cerra o ciclo vital: morrem-lhe improdutivas
as primeiras flores; extingue-se-lhe a função assimiladora dos tecidos superficiais,
exsicados; e a poeira, que lhe entope os estomas e reveste as folhas, asfixia-a e
enfraquece-lhe a reação tonificante da luz.
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Daí o quadro lastimável descortinado pelos que se aventuram, nestes dias, a
uma viagem no interior — varando a monotonia dos campos mal debruados de
estreitas faixas de matas, ou pelos carreadores longos dos cafezais requeimados,
desatando-se indefinidos para todos os rumos — miríades de esgalhos estonados
quase sem folhas ou em varas, dando em certos trechos, às paisagens, um tom
pardacento e uniforme de estepe . . .
Mas é natural o fenômeno. Nem é admissível que ante ele se surpreendam os
nossos lavradores, primeiras vítimas dessa anomalia climática.
Porque há longos anos, com persistência que nos faltou para outros
empreendimentos, nós mesmos a criamos.
Temos sido um agente geológico nefasto, e um elemento de antagonismo
terrivelmente bárbaro da própria natureza que nos rodeia.
É o que nos revela a história.
Foi a princípio um mau ensinamento do aborígene. Na agricultura do
selvagem era instrumento preeminente o fogo. Entalhadas as árvores pelos
cortantes digis de diorito, e encoivarados os ramos, alastravam-lhes por cima as
caitaras crepitantes e devastadoras. Inscreviam, depois, em cercas de troncos
carbonizados a área em cinzas onde fora a mata vicejante; e cultivavam-na.
Renovavam o mesmo processo na estação seguinte, até que, exaurida, aquela
mancha de terra fosse abandonada em caapuera, jazendo dali por diante para todos
sempre estéril, porque as famílias vegetais, renovadas no terreno calcinado, eram
sempre de tipos arbustivos diversos das da selva primitiva.
O selvagem prosseguia abrindo novas roças, novas derribadas, novas
queimas e novos círculos de estragos; novas capoeiras maninhas, vegetando
tolhiças, inaptas para reagir contra os elementos, agravando cada vez mais os
rigores do próprio clima que as flagelava — e entretecidas de carrascais, afogadas
em macegas, espelhando, aqui, o facies adoentado da caatanduva sinistra, além da
braveza convulsiva das caatingas. Veio depois o colonizador e copiou o processo.
Agravou-o ainda com se aliar ao sertanista ganancioso e bravo, em busca do
silvícola e do ouro.
Afogada nos recessos de uma flora que lhe abreviava as vistas e sombreava
as tocaias do tapuaia, dilacerou-a, golpeando-a de chamas, para desvendar os
horizontes e destacar, bem perceptíveis, tufando nos descampados limpos, as
montanhas que o norteavam balizando a rota das bandeiras.
Atacaram a terra nas explorações mineiras a céu aberto; esterilizaram-na com
o lastro das grupiaras; retalharam-na a pontaços de alvião; degradaram-na com as
torrentes revoltas; e deixaram, ao cabo, aqui, ali, por toda a banda, para sempre
áridas, avermelhando nos ermos com o vivo colorido da argila revolvida, a£ catas
vazias e tristonhas com o seu aspecto sugestivo de grandes cidades em ruínas...
Ora, tais selvatiquezas atravessaram toda a nossa história.
Mais violentos no norte, onde se firmou o regime pastoril nos sertões
abusivamente sesmados, e desbravados a fogo — incêndios que duravam meses
derramando-se pelas chapadas em fora — ali contribuíram para que se
estabelecesse, em grandes tratos, o regime desértico e a fatalidade das secas.
O sul subtraiu-se em parte à faina destruidora, que o próprio governo da
metrópole, em sucessivas cartas-régias, procurou refrear, criando mesmo juizes
conservadores das matas que impedissem a devastação.
O mesmo sistema de culturas largamente extensivas, porém, e as lavouras
parasitárias arrancando todos os princípios vitais da terra sem lhe restituir um único,
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foram, a pouco e pouco, remodelando-lhe as paragens mais férteis, transmudando-
as e amaninhando-as.
Não precisamos acompanhar em todas as fases esse aspecto infeliz da nossa
atividade.
Notemos apenas que pouco a alteraram as belas criações da indústria
moderna, os progressos rápidos da biologia e da química, fornecendo-nos todos os
recursos para que se multipliquem as energias do solo. Deixamo-los, de um modo
geral, de parte. Persistimos na tendência primitiva e bárbara, plantando e talando. E
prolongamos ao nosso tempo esse longo traço demolidor, que vimos no passado.
Demos-lhe mesmo novas feições, consoante novas exigências.
E o que observa quem segue, hoje, pelas estradas do oeste paulista? Depara,
de momento em momento, perlongando as linhas férreas, com desmedidas rumas
de madeira em achas ou em toros, aglomeradas em volumes consideráveis de
centenares de ésteres, progredindo, intervaladas, desde Jundiaí ao extremo de
todos os ramais.
São o combustível único das locomotivas. Iludimos a crise financeira e o
preço alto do carvão de pedra atacando em cheio a economia da terra, e diluindo
cada dia no fumo das caldeiras alguns hectares da nossa flora. Deste modo —
reincidentes no erro — a inconveniência provada das lavouras ultra-extensivas e ao
cautério vivo das queimas, aditamos o desnudamento rápido das derribadas em
grande escala.
As conseqüências repontam, naturais.
A temperatura altera-se, agravada nesse expandir-se de áreas de insolação
cada vez maiores pelo poder absorvente dos nossos terrenos desnudados, cuja
ardência se transmite por contato aos ares, e determina dois resultados inevitáveis:
a pressão que diminui tendendo para um mínimo capaz de perturbar o curso regular
dos ventos, desorientando-os pelos quatro rumos do quadrante, e a umidade relativa
que decresce, tornando cada vez mais problemáticas as precipitações aquosas.
De sorte que o sueste — regulador essencial do nosso clima — depois de
transmontar a Serra do Mar, onde precipita grande cópia de vapores, ao estirar-se
pelo planalto, vai encontrando atmosfera mais quente do que dantes, cujo efeito é
aumentar-lhe a capacidade higrométrica, diminuindo na mesma relação as
probabilidades de chuvas.
São fatos positivos, irrefregáveis, e bastam para que se explique a alteração
de um clima.
Mas apontemos um outro.
Neste entrelaçamento de fatores climáticos, introduzimos um — artificial e de
todo fora das indagações meteorológicas normais — a queimada.
É transitória, mas engravece os perigos.
De feito, a irradiação noturna contrabate a insolação: a terra devolve aos céus
o excesso de calor acumulado; resfria; e o orvalho decorrente ilude de algum modo a
carência das chuvas.
Ora, as queimadas impedem esse derivativo único.
As colunas de fumo, rompentes de vários lugares, a um tempo, adensam-se
no espaço e interceptam a descarga do solo. Desaparece o sol e o termômetro
permanece imóvel ou, de preferência, sobe. A noite sobrevem em fogo: a terra
irradia como um sol obscuro, porque se sente uma impressão estranha de faúlhas
invisíveis, mas toda a ardência reflui sobre ela recambiada pelo anteparo espesso da
fumaça; e mal se respira no bochorno inaturável em que toda a adustão golfada
pelas soalheiras e pelos incêndios, se concentra numa hora única da noite.
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Traçamos estas linhas numa dessas noites, certo, desconhecidas pelos
nossos patrícios de há cem anos.
Então a energia solar, descendo, armazenava-se nos ares, criando o influxo
moderador de uma atmosfera benigna, e transformava-se em trabalho no seio das
grandes matas, impulsionando a dinâmica maravilhosa das células.
Esse tempo passou.
Hoje, Thomaz Buckle não entenderia as páginas que escreveu sobre uma
natureza que acreditou incomparável no estadear uma dissipação de forças,
wantonness of power, com esplendor sem par.
Porque o homem, a quem o romântico historiador negou um lugar no meio de
tantas grandezas, não as corrige, nem as domina nobremente, nem as encadeia
num esforço consciente e sério.
Extingue-as.
ENTRE AS RUÍNAS
Quem saltar em qualquer das estações da Central no trecho paulista, a partir
de Cachoeira, entra quase de improviso em lugares que não lhe recordam mais as
bordas pinturescas do Paraíba.
A terra, uma terra antiga cortada pela estrada real três vezes secular que ia
do Rio a S. Paulo, vai tornando-se cada vez mais desabrigada e pobre. Tumultuando
em colinas desnudas, de flancos entorroados; afundando em pequenos vales sem
encantos, onde se rebalsam pauis frechados de tábuas; desatando-se, planas
arenosas e limpas — nada mais revela da opulência incomparável que por três
séculos, da expedição de Glimmer aos dias da Independência, fez do vale do grande
rio, alteado num socalco de cordilheiras e recamado de matas exuberando floração
ridente, o cenário predileto da nossa história.
Por mais incurioso que seja o viajante, ao romper aquelas veredas em
torcicolos, vai sendo invadido pela tristeza daqueles ermos desolados. E deparando
de momento em momento as cruzes sucessivas que a espaços aparecem às
margens do caminho, tem a impressão de calcar um antigo chão de batalhas
esterilizado e revolto pela marcha dos exércitos...
É uma sugestão empolgante.
Ressaltam, a cada passo, expressivos traços de grandezas decaídas.
Os morros escalvados, por onde trepa teimosamente uma flora tolhiça, de
cafezais de 80 anos, ralos e ressequidos, mas revelando os alinhamentos primitivos;
cintados ainda pela faixa parda-avermelhada dos carreadores tortuosos, por onde
subiam, outrora, as turmas dos escravos; tendo ainda pelos topos, à ourela dos
velhos valos divisórios, extensos renques de bambuzais; e ao viés das encostas,
salteadamente, branqueando nas macegas, as vivendas humildes por ali esparsas,
a esmo, dão quase um traço bíblico às paisagens. Sem mais a vestidura protetora
das matas, destruídas na faina brutal das derribadas, desagregam-se, escoriados
dos enxurros, solapados pelas torrentes, tombando aos pedaços nas "corridas da
terra" depois das chuvas torrenciais, e expõem agora, nos barrancos a prumo, em
acervos de blocos, a rígida ossamenta de pedra desvendada, ou alevantam-se
despidos e estéreis, revestidos de restolhos pardos, no horizonte monótono, que
abreviam entre as encostas íngremes...
Os caminhos tornejam-nos, galgam-nos, vingam-nos, descem-nos. Mas os
quadros não se animam.
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Sucedem-se choupanas pobres, em ruínas umas - tetos de sapé caídos sobre
montes de terras e paus, roliços — habitadas, outras, centralizando exíguas roças
maltratadas, à beira dos córregos apaulados, onde os lírios selvagens derramam, no
perfume insidioso, o filtro das maleitas.
As estradas são ermas. De longe em longe um caminhante. Mas é também
um decaído. Não é daqueles caboclos rijos e mateiros, que abriram neste vale as
picadas atrevidas das "bandeiras". O caipira desfibrado, sem o desempeno dos titãs
bronzeados que lhe formam a linha obscura e heróica, saúda-nos com uma
humildade revoltante, esboçando o momo de um sorriso deplorável, deixa-nos mais
apreensivos, como se vivêssemos uma ruína maior por cima daquela enorme
ruinaria da terra.
Seguimos.
Em vários trechos cerradões trançados, guardando ainda no afogado das
embaúbas e dos tabocais alguns raros pés de café de remotas culturas em
abandono, desdobram-se inextricáveis na lenta reconquista do solo, num
ressurgimento da floresta primitiva.
A estrada vara-os entre espinheirais e barrancos, tendo, não raro, ladeando-a
longo tempo, extensos lanços desmoronados de velhos muros de taipa dos sítios
florescentes noutro tempo.
Destes, alguns permanecem ainda animados. Mas sem a azáfama antiga,
sem o mourejar febril das colheitas fartas, sem os requinos festivos dos engenhos,
sem o bulício álacre e estonteador das moendas ruidosas, nos velhos tempos,
quando por aquelas encostas ondulavam e subiam lentamente à melopéia das
cantigas africanas — dezenas de dorsos luzidios rebrilhando ao sol — os cordões
desenvolvidos dos eitos.
Os demais, num decair contínuo, mal avultam nos terreiros desertos. Vão
sendo, lento e lento, afogados na constrição do matagal que se lhe aperta em roda e
cobre-lhes as plantações, e invade-lhes as pastagens, até atingi-los e suplantá-los,
penetrando-os pelas portas e janelas; enraizando-se nas suas paredes de barro e
disjungindo-lhas e derribando-lhas à maneira de uma reação formidável e surda da
natureza contra os que outrora, ali, aplicaram no seu seio, torturando-a, o cáustico
fulgurante das queimadas.
Outros ainda surgem, de improviso, no bolear os cerros, à meia encosta dos
pendores, com a imagem perfeita de uns desgraciosos castelos, sem barbacãs e
sem torres, gizados por essa arquitetura terrivelmente chata em que se esmeravam
os nossos avós de há dois séculos. Entretanto, malgrado o deprimido das linhas,
essas vivendas quadrangulares e amplas, sobranceando as senzalas abatidas, os
moinhos estruídos, os casebres de "agregados", e alteando de chapa para a estrada
os altos muramentos de pedra, que lhe sustentam os planos unidos dos terreiros,
conservam o antigo aspecto senhoril.
Mas jazem para todo o sempre vazias, até que as destrua o absoluto
abandono. Porque o caipira crendeiro, por menos célere que siga e por mais que o
fustiguem os aguaceiros e os ventos, não pára às suas portas.
Segue, desabaladamente, sem desfitar as esporas dos flancos do cavalo,
fazendo o "pelo sinal", e fugindo...
Nem um olhar para a vivenda sinistra e mal assombrada, onde imagina coisas
pavorosas: constante pervagar de sombras; choros plangentes; ulular golpeante de
espectros merencórios; aparições macabras; longos arrastamentos de correntes; e
adoidados sabbats das almas vagabundas; e cabeças, e pernas, e braços, que
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despencam dos tetos e rompem das paredes, fundindo-se, improvisadamente, em
demônios horrorosos...
E quem, curioso e incrédulo, as procura, justifica-lhes os temores.
Aproxima-se do largo portão desquiciado, de umbrais vacilantes, ou tensos;
desapeia e avança pelos terreiros de pedra, arruinados; galga a velha escadaria,
pulando sobre os degraus que faltam; e estaca no patamar, em cima, diante da
porta, escancarada, da entrada, abrindo para o amplo salão deserto. Penetra-o.
Contempla, de relance, as molduras esborcinadas das paredes, e o teto onde
adivinha resquícios de frisos dourados na cimalha de estuque. Enfia pelo longo
corredor afogado no bafio angulhento do ambiente imóvel, para o qual se abrem as
portas de outros repartimentos desertos, onde chiam e revoam desequilibradamente
centenas de morcegos tontos. Chega à sala de jantar, deserta...
E naquela quietude sinistra, se não o amedrontam os ecos dos próprios
passos, longos, reboantes, morrendo vagarosamente na habitação vazia, comove-
os, irresistível, a visão retrospectiva dos belos tempos em que a vivenda senhoril
pompeava triunfalmente no centro dos cafezais floridos.
Então era o tropear ruidoso das cavalgadas que chegavam; a longa escadaria
onde rolavam saudações joviais, risos felizes, subidas e descidas tumultuarias entre
os estrépitos argentinos das esporas; o vasto salão referto de convivas; a velha sala
ornada para os banquetes ricos; e à noite as janelas resplandecendo, abertas para a
escuridão e para o silêncio, golfando claridades e a cadência das danças, enquanto
fora, no terreiro limpo, ao brilho das fogueiras, turbilhonava o samba dos cativos ao
toar, melancólico e bruto, dos cachambus monótonos.
É um contraste comovente.
O viajante deixa a vivenda malsinada com uma emoção maior que a dos
recoveiros: vai como quem foge. Rompe por um matagal bravio, onde adivinha os
restos de um jardim, ou de um pomar; volve ao terreiro orlado de senzalas que
desabam; transpõe o portão encombente; galga o cavalo e parte, disparando-o...
Não voltará mais: segue pelos caminhos em torcicolos, torneja outros morros
escalvados, atravessa outras fazendas antigas, divisa outras vivendas desertas.
depara outros caminhantes taciturnos; e ao encontrar, de momento a momento,
intermináveis, como se andasse pelas avenidas de um velhíssimo cemitério — as
mesmas "santas-cruzes" à orla dos caminhos, sente-se, sem o querer, invadido
pelas crenças ingênuas dos caipiras.
Justifica-se, ao menos, como se, de fato, por ali vagassem, na calada dos
ermos, todas as sombras de um povo que morreu, errantes, sobre uma natureza em
ruínas.
NATIVISMO PROVISÓRIO
O nosso antilocalismo frisa pela parcialidade. Não há aplausos que nos
bastem aos forasteiros disciplinados que nos últimos tempos transfiguraram as
nossas culturas e se vincularam aos nossos destinos, nobilitando o trabalho e
facilitando a maior reforma social do nosso tempo.
Somos adversários do nativismo sentimental e irritante, que é um erro, uma
fraqueza e uma velharia contraposta ao espírito liberal da política contemporânea. A
este pseudopatriotismo, para o qual Spencer, na sua velhice melancólica e
desiludida, criou a palavra "diabolismo", deve antepor-se um lúcido nacionalismo, em
que o mínimo desquerer ao estrangeiro, que nos estende a sua mão experimentada,
se harmonize com os máximos resguardos pela conservação dos atributos
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essenciais da nossa raça e dos traços definidores da nossa qens complexa, tão
vacilantes, ou rarescentes na instabilidade de uma formação etnológica não ultimada
e longa. E ainda quando nos turbasse um esmaniado jacobinismo, todo ele ruiria ao
defrontar o quadro da imigração do Brasil: homens de outros climas que aqui se
nacionalizam consorciados com a terra pelos vínculos fecundos das culturas.
Mesmo sob o aspecto estritamente econômico, pensamos como Louis Couty
— este belo espírito a um tempo imaginoso e prático que com tão largo descortino
prefigurou o nosso desenvolvimento: não podemos ainda dispensar a energia
européia mais ativa e apta, para que se desencadeiem as nossas energias naturais.
O colono, entre nós, é o primeiro, senão o único fator econômico, e, pelo destaque
vivíssimo entre a sua perícia infatigável e a nossa atividade tateante, ele reponta,
transformando a biologia industrial num capitulo interessantíssimo de psicologia
social.
Deste modo, a simpatia pelo estrangeiro, baseamo-la, até movidos pelo
egoísmo, nos nossos interesses imediatos e mais urgentes.
Podemos apreciar com segurança o lado sombrio deste assunto.
De fato, esta imigração que desejamos, não já pelo concurso mecânico do
braço que trabalha, senão também porque carecemos da colaboração artística e do
adiantamento dos outros povos, aparece diante do vacilante da nossa estrutura
política e da nossa formação histórica incompleta como um problema, que não
podemos afastar, que não queremos e não devemos afastar, mas que devemos
resolver com infinitas cautelas. Não podemos encará-lo com o ânimo folgado nem
com o moderantismo com que o enfrentam os naturais de um país onde o forasteiro,
parta de onde partir, depare, a par de um intenso individualismo de raça constituída,
a atmosfera virtual de uma civilização onde ele para viver tenha que se adaptar. A
nossa situação não é ainda esta. O forasteiro de um modo geral — à parte
naturalmente o rebotalho das levas imigrantes - aqui depara um meio intelectual e
moral facilmente complectível, senão inferior àquele onde nasceu; a pouco e pouco
vai trazendo-nos o seu ambiente moral, destruindo pelo continuo implante dos seus
costumes o próprio exílio que procurou e criando-nos ao cabo, graças ao nosso
desapego às tradições, ao cosmopolitismo instintivo e à inseguridade dos nossos
estímulos próprios, um quase exílio paradoxal dentro da nossa própria terra.
É nesta circunstância única que se esboçam inconvenientes capazes das
mais exageradas susceptibilidades patrióticas esclarecidas pelas mais sólidas
inferências positivas.
Falta-nos integridade étnica que nos aparelhe de resistência diante dos
caracteres de outros povos.
O Brasil não é como os Estados Unidos ou a Austrália, onde o inglês, o
alemão ou o francês alteram e cambiam as qualidades nativas ou as refundem e
refinam, originando um tipo novo e mais elevado do que os elementos formadores.
Está numa situação provisória de fraqueza, na franca instabilidade de uma
combinação incompleta de efeitos ainda imprevistos, em que a variedade dos
sangues, que se caldeiam, implica o dispersivo das tendências díspares, que se
entrelaçam.
E isto numa quadra excepcional em que parecem perdidas todas as
esperanças no influxo nivelador do pensamento moderno, cuja circulação poderosa,
contravindo a todos os prognósticos, não refundiu, não misturou e não unificou os
atributos primitivos dos povos, nem destruiu, num desafogado internacionalismo, a
cláusula das fronteiras.
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As últimas páginas de H. Spencer são um diluente do esplêndido rigorismo
das suas mais sólidas teorias. O filósofo que se abalançou a traduzir o
desdobramento evolutivo das sociedades numa fórmula tão concisa e fulgurante
quanto a fórmula analítica em que Lagrange fundiu toda a mecânica racional —
acabou num lastimável desalento. A seu parecer, a civilização desfecha na barbaria.
Depois de presidir ao triunfo das ciências e de caracterizar os seus reflexos
criadores nas maiores maravilhas das indústrias — assombrou-o à última hora,
salteando-o de espantos, o sombrio alvorecer crepuscular do novo século. E
contemplando em toda a parte, de' par com a desorientação científica, um
extravagante renascimento da atividade militar e um imperialismo que denuncia a
tendência das nacionalidades robustas a firmarem a hegemonia política – rematou
uma vida que toda ela foi um hino ao progresso, confessando que assistia à
decadência universal.
Exagerou.
Mas há um fato incontestável: o pendor atual e irresistível das raças fortes
para o domínio, não pela espada, efêmeras vitórias ou conquistas territoriais --mas
pela infiltração poderosa do seu gênio e da sua atividade.
Para este conflito é que devemos preparar-nos, formulando todas as medidas,
de caráter provisório embora, que nos permitam enfrentar sem temores as energias
dominadoras da vida civilizada, aproveitando-as; cautelosamente, sem abdicarmos a
originalidade das; nossas tendências, garantidoras exclusivas da nossa autonomia
entre as nações. Está visto o significado superior desse anelo quase instintivo de
uma revisão constitucional que tanto vai generalizando-se e em breve será a
plataforma única de um partido, o primeiro digno de tal nome a formar-se neste
regime. Reconhece-se, afinal, que o nosso código orgânico não enfeixa as
condições naturais do progresso; e que andamos há quinze anos no convívio das
nações com a aparência pouco apresentável de quem, meão na altura, se revestiu
desastradamente com as vestes de um colosso.
Daí, a maioria dos males.
Fora absurdo atribuí-los à República, numa época em que a preexcelência
das formas de governo é assunto relegado aos donaires da palavra e à brilhante
frivolidade dos torneios acadêmicos. Atribuímo-los ao artificialismo de um aparelho
governamental feito de afogadilho e sem a medida preliminar dos elementos próprios
da nossa vida. Um código orgânico, como qualquer outra construção intelectual,
surge naturalmente da observação consciente dos materiais objetivos do meio que
ele procura definir — e para o caso especial do Brasil exige ainda medidas que
contrapesem, ou equilibrem, a nossa evidente fragilidade de raça ainda incompleta,
com a integridade absorvente das raças já constituídas.
A tarefa dos futuros legisladores será mais social do que política e inçada de
dificuldades, talvez insuperáveis.
Realmente, este velar pela originalidade ainda vacilante de um povo — numa
fase histórica em que se universalizam tendências e ideais, e em que fora absurdo
inclassificável o seqüestro do Paraguai de há cinqüenta anos, eqüivale quase a
impropriar-se ao ritmo acelerado da civilização geral...
Mas se não podemos engenhar medidas que nos salvaguardem, ou amparem
nesta pressão formidável imposta pelo convívio necessário, civilizador e útil dos
demais países, devemos pelo menos evitar as que de qualquer modo facilitem, ou
estimulem, ou abram a mais estreita frincha à intervenção triunfante do estrangeiro
na esfera superior dos nossos destinos.
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É o que sucede, para citarmos um exemplo, com o projeto de reforma
constitucional que neste momento se discute no Congresso paulista.
Lá está um artigo a talho das considerações que alinhamos.
É o que firma a elegibilidade do estrangeiro, dotado com um exíguo
qüinqüênio de vida estadual, para o cargo de presidente do Estado. A reforma, neste
ponto, não altera o estatuto antigo.
Renova-a, O naturalizado, revestido de direitos políticos de pronto adquiridos
na franquia escancarada da grande naturalização, poderá dirigir amanhã os destinos
do Estado mais próspero do Brasil.
Assim, ao plagiar a estrutura política dos ianques, mal cepilhando-lhe as
rebarbas, vamos repeli-la e repudiá-la precisamente no lance onde ela ostenta um
magnífico ciúme nativista, rodeando de tantas exigências, de tantos impeços e de
condições tão severas, até para os mesmos filhos do país, o conseguimento de um
cargo, que é a mais alta concretização da vontade popular, e que se destina a
imprimir uma unidade inteiriça entre os demais órgãos do governo.
Todas as linhas anteriores nos dispensam o comentário mais breve desta
disposição legislativa que irá atrai;, para o ponto mais alto das agitações eleitorais a
arregimentação vigorosa dos que têm a solidariedade espontânea e firme
determinada pelo próprio afastamento da verdadeira pátria. E se considerarmos bem
o quadro desanimador da nossa atual existência política, praticamente definida pela
mais completa indiferença e em que o abstencionismo se erigiu em protesto único e
contraproducente a defrontar os estigmas que debilitam a organização dos poderes
constituídos — o artigo renovado na Constituição do Estado mais cosmopolita do
Brasil não é apenas um erro.
É até uma imprudência.
UM VELHO PROBLEMA
Li há tempos alentada dissertação sobre um singularíssimo direito expresso
em velhas leis consuetudinárias da Borgonha. Direito de roubos...
Recordo-me que, surpreendido com tal antinomia, tão revolucionária,
sobretudo para aquela época, ainda mais alarmado fiquei notando que a patrocinava
o maior dos teólogos, S. Thomaz de Aquino; e com tal brilho e cópia de argumentos,
que a perigosa tese repontava com a estrutura inteiriça de um princípio positivo.
Realmente a repassava uma nobre e incomparável piedade, fazendo que aquela
extravagância resumisse e espelhasse um dos aspectos mais impressionadores da
justiça.
Tratava-se, ao parecer, de um código da indigência; e os graves doutores, no
avantajarem-se tanto, rompendo com nobre rebeldia as barreiras da moral comum,
para advogarem a causa da enorme maioria de espoliados, chegavam à conclusão
de que a opulência dos ricos se traduzia como um delitum legale, um crime
legalizado. Impressionava-os o problema formidável da miséria na sua feição dupla
— material e filosófica — pois é talvez menos doloroso refletido nos andrajos das
populações vitimadas, que na triste inopia de elementos da civilização para o
resolver.
E como lhes faleciam, mais do que hoje nos falecem, elementos para a
extinção do mal, justificavam aos desvalidos num crudelíssimo título de posse a
todos os bens – a fome.
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O indigente tornava-se um privilegiado afrontando impune toda a ortodoxia
econômica. O roubo transmudava-se, do mesmo passo, num direito natural de
legítima defesa contra a Morte e num dever imperioso para com a Vida.
Mas não foram além deste expediente, e dessas declamações, os piedosos
doutores. Tolhia-os, senão a situação mental da Idade Média imprópria a uma
apreciação exata do conjunto do progresso humano, a mesma ditadura espiritual do
catolicismo, na plenitude de força, e para o qual a miséria – eloqüentíssima
expressão concreta do dogma do pecado original — era sempre um horroroso e
necessário capital negativo, avolumando-se com as provações e com os martírios
para a posse anelada da bem-aventurança, nos céus...
Por outro lado, os pensadores leigos do tempo, e os que os encalçaram até
ao século XVIII, não partiram esta tonalidade sentimental Mais sonhadores que
filósofos, o que os atraía era o lado estético do infortúnio, a visão empolgante do
sofrimento humano, a que nos associamos sempre pela piedade. Os seus livros,
pelos próprios títulos hiperbólicos, à maneira dos das novelas do tempo, retratam
uma intervenção brilhante e imaginosa, mas inútil. São como títulos de poemas. De
fato, na Utopia de Thomaz Morus, na Oceana de Hallis, ou na Basilidade de Morelly,
a perspectiva de uma existência melhor, oriunda da riqueza eqüitativamente
distribuída e dos privilégios extintos, irrompe :num fervor de ditirambos, aos quais
não faltam, para maior destaque, prólogos arrepiadores de agruras e tormentas
indescritíveis...
As medidas propostas raiam pelos exageros máximos da fantasia: do
nivelamento absoluto de João Libburne, ao platonismo adorável de Fontenelle e ao
niilismo religioso de Diderot; e para lhes não faltar grotesco, esse cruel e antilógico
grotesco imanente às mais trágicas situações, culmina-as o desvairado comunismo
de Campanella com os seus trezentos monges, trezentos ascetas barbudos e
melancólicos, tentando uma república igualitária que seria o desabamento de todas
as conquistas do progresso.
Ora, tudo isto caracteriza bem o completo desequilíbrio das almas rudemente
trabalhadas pelas doutrinas opostas e de todo desapercebidas, então, de uma
síntese filosófica que ao mesmo passo as emancipasse do apego tradicional ao
catolicismo, cuja missão findara, e dos impulsos demolidores da metafísica
triunfante.
Assim, ao arrebentar a crise decisiva de 1789, não é de estranhar ficasse
inapercebido, e talvez sacrificado, o grande problema que desde Pitágoras e Platão
vinha agitando os espíritos. E que a grande revolução, inspirada pela filosofia social
do século XVIII, oferece o espetáculo singular de repudiar, desde os seus primeiros
atos, os seus próprios criadores. A consideração de Guizot é profunda: nunca uma
filosofia aspirou tanto ao governo do mundo e nunca foi tão despida do império.
Os filósofos foram, de pronto, suplantados, na agitação revolta dos panfletos
e da retórica explosiva dessa literatura política sempre efêmera, com ser modelada
pelos desvarios repentinos da multidão. A sólida estrutura mental de um d’Alembert
antepôs-se o espírito imaginoso e pueril de um Vergniaud, e aos sonhos
desmedidos de Mably e excesso de objetivismo do trágico casquilho que passeou
pelas ruas de Paris :a deusa da Razão...
De sorte que a última pancada do antigo regime - já longamente solapado e
prestes a cair por si mesmo — se fez com excesso de energias que atirou sobre os
destroços da ordem antiga as ruínas da ordem nova planeada. Exclusivamente
atraída pelo programa, que se lhe afigurava enorme e pouco valia, de derruir as
classes privilegiadas, a Revolução firmou, nos “direito:; do homem”, um duro
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individualismo que na ordem espiritual significava a negação dos seus melhores
princípios e na ordem prática equivalia a destruir as corporações populares, isto é, a
única criação democrática da Idade Média.
“Os direitos do homem... No entanto, a fórmula superior daquela filosofia,
visava, de preferência, através da solidariedade humana crescente, exatamentc o
contrário – os deveres do homem”. Mas era exigir muito à loucura política do
momento. Fazia-se mister, antes de tudo, que as franquias recém-adquiridas
tivessem um traço incisivamente antiaristocrático. Que o camponês, absolutamente
livre, fosse absolutamente dono da quadra de terra onde nascera e onde tanto
tempo jazera aguilhoado à gleba feudal; enquanto o burguês das cidades pudesse
agir libérrimo, dispondo a bel-prazer de todos os seus bens, despeado do liame das
jurandes.
E o trono vazio dos Capetos teve em roda a concorrência tumultuária de não
sei quantos milhões de liliputinianos reis...
Despojados o clero e a aristocracia de suas propriedades (não raro precárias
como privilégios sujeitos aos caprichos do poder monárquico) ficou em seu lugar —
intangível, absoluta e sacratíssima — a propriedade burguesa, para a qual o ilustre
Condorcet não encontrara limites no texto que forneceu à Convenção.
Por isto, a breve trecho, se patenteou a inanidade das reformas executadas;
ao invés de um número restrito de privilegiados, nos quais o egoísmo se atenuava
com as tradições cavalheirescas da nobreza, um outro, maior e formado pela
burguesia vitoriosa, mais inapta ainda a compreender a missão social da
propriedade,. .ávida por dominar na arena livre que se lhe abria, e tornando maior o
contraste entre a sua opulência recente e a situação inalterável do proletariado sem
voto — naquele tumulto e destinada apenas a colaborar anonimamente na epopéia
napoleônica, quando em breve, culminando a catástrofe revolucionária, o mais
pequenino dos grandes homens surgisse, concretizando a reação disfarçada do
antigo regime, e fosse restaurar, entre os — fulgores de uma glória odiosa, o
anacronismo da atividade militar.
Destruída desta maneira a obra memorável da Convenção, vê-se, contudo,
que ela tinha latentes e aguardando apenas um meio propício, os princípios de uma
distribuição mais eqüitativa da fortuna. Para o rígido Camus a propriedade “não era
um direito natural, era um direito social”; acompanhava-o neste conceito o romântico
Saint Just; e sobre todos, mais incisivamente, num dizer claríssimo que lhe dá as
honras de um precursor do coletivismo moderno, o incomparável Mirabeau atirava
na anarquia das assembléias estas palavras singularmente austeras: “Le proprietarie
n’est lui-même que le premier des salariés. Ce que nous appelons vulgairement la
proprieté n’est autre chose que le prix qui lui paye la societé pour les distribuitions
qu’il est chergé de faire aux autres individus par ses consommations et ses
depenses. Les proprietaires sont les agents, les economes du corps social”.
Estas frases admiráveis, porém, que ainda hoje, transcorridos cento e tantos
anos, são a síntese de todo o programa econômico de socialismo, ninguém as
escutou. De modo que à massa infelicíssima do povo, a quem a revolução libertara
para a morte despeando-a da gleba para jungi-la ao carro triunfal de um alucinado,
restavam ainda, como nos velhos tempos, apenas as fórmulas enérgicas, mas
inócuas, de alguns doutores canonizados; e em pleno repontar do século XIX –
quando a filosofia natural já aparelhara o homem para transfigurar a terra — um
triste, um repugnante, um deplorável, e um horroroso direito: o direito do roubo
Mas esta filosofia natural, tão crescentemente revigorada e favorecendo tanto,
no século que passou, o ascendente industrial, era por si mesma – isolada no
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campo das suas investigações — inapta à verdadeira solução do problema. Dizem-
no os insucessos de todos os que o consideraram esteando-se nela, das
estupendas utopias de Saint-Simon e dos seus extraordinários discípulos, às
alienações de Proudhon, às tentativas bizarras de Fourier e ao soçobro completo da
política de Luiz Blanc.
Fora logo acompanhá-los. Se o fizéssemos, veríamos que, malgrado todos os
recursos das ciências, eles pouco se avantajaram aos sonhadores medievais: o
mesmo agitar de medidas fantásticas, e tão radicais, algumas, abalando tanto os
fundamentos da sociedade, a começar pela organização da família, que
acerretavam ante novos elementos perturbadores e novas faces à questão, dando-
lhe um caráter por igual revolucionário e complexo capaz de a tornar perpetuamente
insolúvel.
Assim ela chegou até meados do último século — até Karl Marx — pois foi,
realmente, com este inflexível adversário de Proudhon que o socialismo científico
começou a usar uma linguagem firme, compreensível e positiva.
Nada de idealizações: fatos; e induções inabaláveis resultantes de uma
análise rigorosa dos materiais objetivos; e a experiência e a observação, adestradas
em lúcido tirocínio ao través das ciências inferiores; e a lógica inflexível dos
acontecimentos; e essa terrível argumentação terra-a-terra, sem tortuosidades de
silogismos, sem o idiotismo transcendental da velha dialética, mas toda feita de
axiomas, de verdadeiros truísmos, por maneira a não exigir dos espíritos o mínimo
esforço para a alcançarem, porque ela é quem os alcança independentemente da
vontade, e os domina e os arrasta com a fortaleza da própria simplicidade.
A fonte única da produção e do seu corolário imediato, o valor, é o trabalho.
Nem a terra, nem as má quinas, nem o capital, ainda coligados, as produzem sem o
braço do operário. Daí uma conclusão irredutível: – a riqueza produzida deve
pertencer toda aos que trabalham. E um conceito dedutivo: o capital é uma
espoliação.
Não se pode negar a segurança do raciocínio.
De efeito, desbancada a lei de Malthus, ante a qual nem se explicaria a
civilização, e demonstrada a que se lhe contrapõe consistindo em que “cada homem
produz sempre mais do que consome persistindo os frutos do seu esforço além do
tempo necessário à sua reprodução” – põe-se de manifesto o traço injusto da
organização econômica do nosso tempo.
A exploração capitalista é assombrosamente clara, colocando o trabalhador
num nível inferior ao da máquina. De fato, esta, na permanente passividade da
matéria, é conservada pelo dono; impõe-lhe constantes resguardos no trazê-la
íntegra e brunida, corrigindo-lhe os desarranjos; e quando morre — digamos assim
— fulminada pela pletora de força de uma explosão ou debilitada pelas vibrações
que lhe granulam a musculatura de ferro, origina a mágoa real de um desfalque, a
tristeza de um decréscimo da fortuna, o luto inconsolável de um dano. Ao passo que
o operário, adstrito a salários escassos demais à sua subsistência, é a máquina que
se conserva por si, e mal; as suas dores recalca-as forçadamente estóico; as suas
moléstias, que, por uma cruel ironia, crescem com o desenvolvimento industrial — o
fosforismo, o saturnismo, o hidrargirismo, o oxicarborismo — cura-as como pode,
quando pode; e quando morre, afinal, às vezes subitamente triturado nas
engrenagens da sua sinistra sócia mais bem aquinhoada, ou lentamente
esverdinhado pelos sais de cobre e de zinco, paralítico delirante pelo chumbo,
inchado pelos compostos de mercúrio, asfixiado pelo óxido de carbônico, ulcerado
pelos cáusticos dos pós arsenicais, devastado pela terrível embriaguez petrólica ou
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fulminado por um coup de plomb — quando se extingue, ninguém lhe dá pela falta
na grande massa anônima e taciturna, que enxurra todas as manhãs à porta das
oficinas.
Neste confronto se expõe a pecaminosa injustiça que o egoísmo capitalista
agrava, não permitindo, mercê do salário insuficiente, que se conserve tão bem
como os seus aparelhos metálicos, os seus aparelhos de músculos e nervos; e está
em grande parte a justificativa dos socialistas no chegarem todos ao duplo princípio
fundamental:
Socialização dos meios de produção e circulação;
Posse individual somente dos objetos de uso.
Este princípio, unanimemente aceito, domina toda a heterodoxia socialista —
de sorte que as cisões, e são numerosas, existentes entre eles, consistem apenas
nos meios de atingir-se aquele objetivo. Para alguns, e citam-se apenas João Ligg e
Ed. Vaillant, os privilégios econômicos e políticos devem cair ao choque de uma
revolução violenta. É o socialismo demolidor que, entretanto, menos aterroriza a
sociedade burguesa. Outros, como Emílio Vendervelde, se colocam numa atitude
expectante: as reformas serão violentas ou não, segundo o grau de resistência da
burguesia. Finalmente, outros ainda – os mais tranqüilos e mais perigosos – como
Ferri e Colajanni, corretamente evolucionistas, reconhecendo a carência de um
plano já feito de organização social capaz de substituir, em bloco, num dia, a ordem
atual das coisas, relegam a segundo plano as medidas violentas, sempre infecundas
e só aceitáveis transitoriamente, de passagem, num ou noutro ponto, para abrirem
caminho à própria evolução.
Ferri, em belíssimo paralelo entre o desenvolvimento social e o terrestre,
mostra como os imaginosos cataclismos de Cuvier, perturbaram, sem efeito, a
geologia para explicarem transformações que se realizam sob o nosso olhar, sendo
os grandes resultados, que mal compreendemos no estreito círculo da vida
individual, uma soma de efeitos parcelados acumulando-se na amplitude das idades
do globo. Deslocando à sociedade este conceito, aponta-nos o processo normal das
reformas lentas, operando-se na consciência coletiva e refletindo-se pouco a pouco
na prática, nos costumes e na legislação escrita, continuamente melhoradas.
Nada mais límpido. Realmente, as catástrofes sociais só podem provocá-las
as próprias classes dominantes, as tímidas classes conservadoras, opondo-se a
marcha das reformas - como a barragem contraposta a uma corrente tranqüila pode
gerar a inundação. Mesmo nesse caso, porém, a convulsão é transitória; é um
contrachoque ferindo a barreira governamental. Nada mais. Porque o caráter
revolucionário do socialismo está apenas no seu programa radical. Revolução:
transformação. Para a conseguir, basta-lhe erguer a consciência do proletário, e —
conforme a norma traçada pelo Congresso Socialista de Paris, em 1900 — aviventar
a arregimentação política e econômica dos trabalhadores.
Porque a revolução não é um meio, é um fim; embora, às vezes, lhe seja
mister um meio, a revolta. Mas esta sem a forma dramática e ruidosa de outrora. As
festas do primeiro de maio são, quanto a este último ponto, bem expressivas. Para
abalar a terra inteira, basta que a grande legião em marcha pratique um ato
simplíssimo: cruzar os braços...
Porque o seu triunfo é inevitável.
Garantem-no as leis positivas da sociedade que criarão o reinado tranqüilo
das ciências e das artes, fontes de um capital maior, indestrutível e crescente,
formado pelas melhores conquistas do espírito e do coração...
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AO LONGO DE UMA ESTRADA
Margem do Turvo Novembro de 901
Considero, à porta da capuaba de pau-a-pique e taipa em que abriguei, este
trecho torturante da estrada de Taboado, onde me colheu a noite.
E penso, desapontado, nas três mil léguas das quarenta e oito estradas
romanas, estendidas, irradiantes, pela terra feito uma rede aprisionadora e forte
desenrolada em roda da coluna fulgente do miliarum aureum, que centralizava o
Forum.
O viajante abalava por uma delas, a Via Flaminia, por exemplo, e contorneava
todo o norte da Itália; entrava na Panonia; varava, adiante, a Moeda e a Tracia,
seguindo por Heracléa até Constantinopla; e daí para a Bitínia, para a Capadócia,
para Antióquia, atravessando o Tauros, e para a Sina, a Palestina e o Egito;
inflectindo, afinal, vivamente, à. direita, perlongando todo o norte da África, de
Alexandria a Tanger.
Neste longo percurso — atravessando pantanais e montanhas sobre
paredões de pedra ou galerias subterrâneas, pisava o chão duro dos stracta
enrijados, a cimento, cobertos pelas glareas de saibro sobre que se estendiam os
ladrilhos largos dos silhares.
Por ali disparavam as quadrigas velozes, como sobre raias unidas, e o
pedestre desviava-se, a salvo, sobre as calçadas laterais de basalto, das margines,
ladeadas de bancos intervalados e cômodos.
A viagens transcorriam rápidas naquelas avenidas continentais, animadas e
vibrantes, onde estrepitava a galopada dos correios precipitando-se para as Gálias
ou para a Síria, e derivavam, vagarosas, as caravanas dos mercadores, estacando
às vezes para que de permeio lhe passassem céleres, no ritmo acelerado da
estratégia de Cesar, as cortes das legiões.
Há dois mil e tantos anos.
É natural que nos entristeçam hoje, contemplando este trecho medonho de
estrada, tortuoso e estreito, invadido de mato, rolando em aclives vivos, afundando
em grotões, enfiando, feito num túnel, pelos tabocais que o cobrem, ou diluindo-se,
impraticável, em tremedais extensos; — um picadão malgradado, de dezenas de
léguas, atravessando todo o Estado de S. Paulo até ao Mato Grosso.
Dir-se-á que os tempos são outros, outros os nossos recursos, e que a linhas
férreas substituem com vantagem aquelas construções monumentais da engenharia
antiga, com maior economia de esforços e resultados incomparavelmente maiores.
Mas esta estrada de Taboado que, pelo seu traçado, é a mais importante não
já de S. Paulo mas do Brasil inteiro, merecia trabalhos excepcionais. Tem um caráter
continental tão frisante que devíamos, tanto quanto possível, aproximá-la de uma
estrada romana.
Desenvolvendo-se do Jaboticabal ao porto do Paraná, que a batiza, o seu
prolongamento levá-la-ia, recortando o divortium aquarum do Amazonas e do
Paraguai, a Cuiabá, quase no centro geométrico da América do Sul. Teria, então, um
comprimento de duzentas léguas escassas e se fosse construída — não diremos
com o luxo estupendo dos caminhos antigos, nem mesmo como os modernos
planck-roads do Canadá — mas larga e abaulada, declives atenuados, atoleiros
para sempre desfeitos com aterros firmes e drenagem completa, faixas reforçadas
por uma macadamizacão pouco espessa embora, pontes que não constringissem a
vazão do rio nas estreitezas de uma economia extravagante, e tendo, regularmente
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espaçados, estações e postos de segurança garantindo e policiando o tráfego;
assim constituída, aquela estrada duplicaria em poucos anos a vitalidade nacional.
Não idealizamos.
Entre os coeficientes de redução do nosso progresso, avulta uma condição
geográfica, que toda a gente conhece.
O Brasil é compacto. Falta-lhe penetrabilidade. Falta-lhe esse articulado fundo
das costas, essa diferenciação do espaço que em todos os tempos e lugares da
Grécia antiga a Inglaterra de hoje e ao Japão, reage vigorosamente sobre as
civilizações locais.
Por outro lado, completando os inconvenientes de um aparelho litoral inteiriço,
a sua estrutura geológica, matriz do facies topográfico — antemurais graníticas
precintando planaltos — impropria-o ainda mais ao domínio franco.
Dai todo o esforço despendido para se modificar esta fatalidade geográfica.
Em torno do problema da viação geral do Brasil tem-se travado discussões
entre as mais interessantes de toda a engenharia.
Começaram em 1870. Tiveram a princípio, como objetivo exclusivo, o
abandono do perigoso desvio pelo Prata que, de 1850 a 1866, através de longa
série de desastres diplomáticos enfeixados afinal numa campanha feroz, tornava
precárias as comunicações com o Mato Grosso.
Apareceram, então, os traçados de Palm e Lloyd, B. Rohan, Antonio
Rebouças e outros que variando apenas no escolher os diversos vales como linhas
naturais de penetração, visavam, estreitamente estratégicos, alcançar o Paraguai,
pelo sul daquele Estado remoto. Apenas Monteiro Tourinho ampliou o problema,
sem o melhorar, com a idealização ousada de uma linha férrea das Sete-Quedas, do
Paraná, ao porto de Anca, no Pacifico.
Depois a questão se esclareceu melhor. Sem perder o ponto de vista militar,
tornou-o apenas incidente de aspiração mais alta.
Surge o nome de Pimenta Bueno. O grande engenheiro firma, em 76,
acompanhando a divisória das águas do Tietê e do Mogi-Guaçu, com o ponto
obrigado de Santa Ana do Paranaíba, o rumo realmente prático das nossas
comunicações com a capital de Mato Grosso.
Os que se sucederam, a própria comissão de cinco notáveis — Rio Branco,
Beaurepaire Rohan, Buarque de Macedo, Raposa e Honório Bicalho não encararam
com maior lucidez o assunto.
A linha planeada, que a Companhia Paulista, infelizmente, acompanhou
somente até Araraquara, permaneceu inteiriça, completa, sem comportar a variante
mais breve, e cortando mesmo, vitoriosamente, depois, as paralelas desse grande
trângulo da viação geral, que André Rebouças ideou, como um desafio ao nosso
progresso máximo, no futuro.
Não pormenorizaremos estes vários traçados.
Notemos apenas que em todos eles os dignos mestres tiveram a obsessão
permanente da locomotiva, rápida e triunfante, suplantando tão desmarcadas
distâncias. Agiram num plano superior demais. Foram sobremaneira teóricos, e
olvidando o aspecto econômico, dominante na questão, parece terem imaginado que
a simples chegada das vias férreas bastasse para que surgissem os elementos vitais
e a matéria-prima da mais civilizadora das indústrias: o povoamento, a produção
intensa e o tráfego continuo.
Mas este despertar de energias em regiões despovoadas requer um prazo
longo demais para os capitais que nele se arriscam, jogando contra o futuro.
Mostra-o, entre nós, uma experiência de trinta anos.
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78
As nossas duas melhores estradas de penetração, aparelhadas pelos
recursos acumulados de um progresso crescente, a Paulista e a Mogiana,
inauguradas em 72 e 75, no avançarem para Mato Grosso e Goiás mal ultrapassam,
hoje, um terço e a metade das distâncias.
Entretanto, organizaram-se na quadra certo mais pujante do nosso
desenvolvimento econômico, que o gênio do Visconde do Rio Branco domina, e
tiveram, nos anos subsequentes, o amparo da riqueza crescente de S. Paulo.
A primeira afastou-se do mesmo traçado civilizador de Pimenta Bueno,
seguindo ilogicamente para Barretos, desviando-se de uma rota entregue hoje ao
avançamento, naturalmente moroso, da estrada de Ribeirãozinho. Mas dado que
persistisse no primitivo rumo e fosse encontrando sempre nas novas paragens
atingidas as mesmas condições de vida, só alcançaria Cuiabá num prazo mínimo de
sessenta anos.
E ainda quando, escandalosamente otimistas diante do nosso desfalecimento
econômico, reduzíssemos aquele prazo, não pagaríamos o traço bem pouco
animador que caracteriza a distensão das nossas redes de estradas de ferro.
De fato, nenhuma busca o centro do país visando despertar as energias
latentes que o afastamento do litoral amortece. Progridem arrebatadas por uma
lavoura extensiva que se avantaja no interior à custa do esgotamento, da pobreza, e
da esterilização das terras que vai abandonando.
Povoam despovoando. Não multiplicam as energias nacionais, deslocam-nas.
Fazem avançamentos que não são um progresso. E alongando para a frente os
trilhos, à medida que novas terras roxas abrolham em novos cafezais, vão, ao
acaso, nesse seguir o sulco das derribadas, deixando atrás um espantalho de
civilização tacanha nas cidades decaídas circundadas de fazendas velhas ...
Este fato, que ninguém contesta, define bem as anomalias de um
desenvolvimento e de um progresso contestáveis. Reflete o vício de uma expansão
em que não colaboram as forças profundas do país, porque vai da periferia para o
centro, sobre não ter o caráter francamente nacional, a pouco e pouco extinto no
vigor das correntes intensivas de imigrantes que, diante da nossa indiferença
fatalista pelo futuro, já vão assumindo o aspecto de uma invasão de bárbaros
pacíficos.
Deste modo uma estrada de rodagem digna de tal nome, para o Mato Grosso,
principalmente agora que o automobilismo libertou a velocidade do trilho, não seria
apenas o melhor leito para a futura via férrea e o melhor meio de nos emanciparmos
do Prata, neste fase incandescente da política sul-americana, mas ainda, sob
aspecto mais grave, um belo laço de solidariedade prendendo-nos aos patrícios dos
sertões e revigorando uma integração étnica, já consideravelmente comprometida.
E a tarefa é, relativamente, fácil.
Temos um termo de comparação expressivo na única estrada de rodagem de
todo o Brasil, a da "União e Indústria".
Desenvolvida de Juiz de Fora a Petrópolis, com um percurso de 147
quilômetros, esta admirável avenida, macadamizada de feldspato e quartzo, que
outrora faria inveja às melhores ruas das nossas capitais, é uma grande lição.
Surgiu da vontade de ferro de um homem — Mariano Procópio — e foi
executada em condições desfavoráveis: de um lado as dificuldades técnicas
decorrentes da feição alpestre do Rio de Janeiro e Minas, de outro a carência de
aparelhos e maquinismos, que hoje existem, sendo o próprio britamento das pedras
feito desvantajosamente, à mão, o que encarecia sobremodo os materiais
empregados.
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Mas foi feita — larga, de oito metros, abaulado o leito resistente e firme
perfeitamente drenado, decorado de obras de arte em que se salienta a ponte das
Garças sobre o Paraíba, e inflectindo em curvas capazes dos maiores retângulos de
atrelagem, ou atenuando, malgrado o acidentado dos lugares, os esforços de tração,
graças a um máximo de 3% para os declives.
E natural que sobre ela as diligências de cerca de três toneladas, corressem,
rápidas, com a velocidade média de 17 quilômetros por hora, o que permitia o
percurso total das suas vinte e duas léguas em muito menos de um dia.
Ora, uma estrada identicamente modelada, para Mato Grosso, seria apenas
oito vezes e meia maior.
Realmente, dando-se aos caminhos de Jaboticabal a Cuiabá, um
desenvolvimento de 0,20 sobre a linha reta, o que não é pouco para uma estrada de
rodagem, vemos que a sua extensão total importará em 1.250 quilômetros ou 190
léguas.
Com estes dados, confrontadas as duas empresas, verifica-se que todas as
vantagens são pela última.
Dois Estados, o de Mato Grosso e o de S. Paulo, e a União, por igual
interessados, certo balanceiam numa proporção maior, a energia única de um
homem, sobretudo considerando-se que a intervenção da última acarretará a
diminuição da mão-de-obra pelo emprego de engenharia militar e contingentes do
exército. Além disso, os tempos mudaram, estando a engenharia aparelhada de
elementos incomparavelmente mais eficazes.
Ainda mais, o dilatado do desenvolvimento seria em grande parte
compensado pela disposição mais acessível do terreno.
De fato, percorridos os 435 quilômetros que vão de Jaboticabal à margem
direita do Paraná, fronteira ao Taboado, mercê de uma ponte de 880 metros sobre o
grande rio, a única obra de arte dispendiosa a executar, a estrada se desdobrará, a
partir de Santa Ana, pelo vale do Aporé; e, deixando-o, irá deparar regiões ainda
mais praticáveis, estendendo-se em cheio sobre esse divortium aquarum do
Amazonas e do Paraguai, tão pouco acentuado e de relevos tão breves que os
tributários dos dois rios quase se anastomosam em nascentes comuns. E se
considerarmos que em todo este percurso lhe sobejam, nos seixos rolados de
inumeráveis cursos de água e nos afloramentos de quartzitos, materiais que
suplantam na facilidade do britamento, e na duração, o gnaisse granítico da "União e
Indústria", vemos que, de feito, numerosíssimas condições favoráveis rodeiam a
abertura desse caminho admirável, imposto por exigências sociais e políticas tão
imprescindíveis e urgentes.
Quando isto suceder — dando-nos mesmo às diligências, numa marcha diária
de dez horas, uma velocidade média de doze quilômetros, a travessia de Jaboticabal
a Cuiabá será feita, folgadamente, em dez dias — precisamente um terço, portanto,
do que hoje se gasta na volta de quinhentas léguas pelo Prata.
Ademais, ficaram por uma vez removidos todos os embaraços, todos os
empeços inesperados da travessia num rio que, pelos atritos perigosos que tem
originado, e despertará, é o Bósforo alongado na América do Sul.
E se isto não acontecer — então, parafraseando uma frase célebre, é que
decididamente nos faltam "um grande engenheiro, um grande ministro e um grande
chefe de Estado", para a realização das grandes obras.
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CIVILIZAÇÃO
Convenha-se em que Spencer — Spencer o da última hora, o Spencer
valetudinário e misantropo que chegou aos primeiros dias deste século para o
amaldiçoar e morrer - desgarrou da verdade ao afirmar que há nestes tempos, um
recuo para a barbaria. Viu a vida universal com a vista cansada dos velhos. Não a
compreendeu. Não lhe aprendeu os aspectos variadíssimos e novos. Certo, faltou-
lhe às células cerebrais, exauridas pela idade, senão pelo mesmo acúmulo das
imagens que se refletiram, a primitiva receptividade diante da época indescritível e
bizarra em que as almas se dobram à sobrecarga de maravilhas e vacilam,
deslumbradas, ora entre prodígios da indústria tão delicados, às vezes, que
recordam uma materialização do espírito criador, ora entre as magias da ciência, tão
poderosas que espiritualizam a matéria dinamizando-a na idealização tangível do
rádio...
Ou, então, afligiu-o um duro ferrotoar da inveja. Ia-se-lhe a vida, próxima a
estagnar-se no emperramento das artérias — e ficavam-lhe na frente, maior e
crescente, prefigurando novos encantos, novas revelações e novos ideais, o
esplendor da civilização vitoriosa. Não se conteve. Partiu-se-lhe o aprumo de
filósofo. Vestiu desastradamente a pele da raposa desapontada, e entrou na
imortalidade através de uma fábula de La Fontaine.
Que mais desejava o sábio?...
Maior amplitude na ciência?
Mas esta é, hoje, tal que obriga a inteligência a diferenciar-se numa
especialização indefinida. O mais desvalioso, o mais tíbio aspecto particularíssimo
de uma existência, exige uma existência inteira. Em torno da criptogama mais
rudimentar arma-se uma biblioteca. A mais afanosa vida não basta a estudar todas
as algas.
Breve se organizarão academias para os zoóptos. O martelo do geólogo bate,
nesta hora, na última aresta rochosa do último recanto perdido na anfratuosidade de
um contraforte sem nome de uma montanha da África central. Aos sismógrafos,
armados em toda a parte, não escapa o mínimo tremor, a mais célere crispadura da
terra. A ocultação da estrela mais imperceptível, sem nome ou apequenada nas
últimas letras do alfabeto grego, não se opera sem que a acompanhe o olhar
perspícuo de um astrônomo — do astrônomo que não induz como Newton, Kepler,
nem calcula como Gauss, porque lhe é escassa a vida para a infinitas minúcias que
repontam e fulguram na poeirada cósmica dos asteróides. Neste momento, um
oceanógrafo, um NN imortal qualquer, arranca o brilho de uma revelação da vasa
secular de um dos tenebrosos abismos do Atlântico; ou pompeia, vaidoso, o fruto de
vinte anos de análises, descrevendo rigorosamente o movimento respiratório das
nereidas.
E um anatomista, encanecido a estudar o grande zigomático, levanta-se
gravemente numa academia real austera ou num instituto sisudo, e, diante da
austera academia, que se edifica, ou do sisudo instituto, que se deslumbra, faz a
psicologia do riso e a dinâmica hilariante da alegria...
Maior idealização artística?
Mas Shakespeare imortalizou-se, universalizando-se: foi a grande voz
assombradora da natureza, ressoando com todas as tonalidades, da gagueira
terrível de Caliban ao correntio harmonioso do rouxinol do Capuleto — ao passo que
hoje os poemas irrompem, a granel, de um retalho qualquer da vida mais prosaica —
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e um largo, irresistível misticismo baralha na mesma ebriez espiritualista os
cientistas e os poetas.
Os raios não fulminam a positividade das ciências. E a crítica inexorável, que
espantara os duendes e anulara o milagre, recua, por sua vez, surpreendida ante a
ciência imaginária, que surge sobre os destroços da teoria atômica — e mostra-nos,
em destaque, num quase eclipse da lei suprema da conservação da energia – o
espiritista esmaniado ao lado do químico reportado, e a física de Roentgen
desfechando nos mistérios telepáticos.
Maior expansão industrial?
Mas, posto de lado o indescritível das primorosas glorificações do trabalho,
devia bastar-lhe, para aquilatar o império do homem sobre as coisas, este
aproveitamento genial do solenóide terrestre na telegrafia sem fios: a Terra inteira
transmudada em serva submissa do pensamento humano, e toda penetrada dele, e
absorvendo-o, irradiando-o, e expandindo-o no consórcio maravilhoso da sua força
magnética imensurável com as vibrações ideais da inteligência...
Maior alevantamento moral?
Aqui se nos emperra a pena, a ranger, trada e acobardada. O assunto é
complexo e pregueia-se de inumeráveis refolhos. Não há abrangê-lo. O movimento
industrial, ou científico, pode ao menos ser imaginado. Pode condensar-se num
"bloc" resplandecente como essa Exposição de S. Luiz, que inscreve num
quadrilátero de palácios o melhor de toda a atividade humana. Mas o progresso da
moral...
Entre os atrativos da Exposição de S. Luiz, um há, interessantíssimo. Não se
trata de algum novo motor, ou de uma nova aplicação elétrica. Trata-se de uma
pantomina heróica. Imagine-se o drama esquiliano da guerra do Transvaal sobre o
palco amplíssimo de um vasto barracão de feira. A terra lendária, com o revesso dos
seus alcantis arremessados e a angustura de seus desfiladeiros longos, aparece, à
luz das gambiarras, na paisagem morta de lona chapada de largos borrões de tinta
variadas e cruas ajustadas sobre pernas de serra e sarrafos.
Ali, desenrola-se a luta nos estouros dos cartuchos de festim, no coruscar das
espadas de papelão prateado, nos assaltos aos redutos de papier-maché, e no
estavanado, e no tropear tumultuário dos guerreiros de rostos afogueados de
vermelhão ou empalidecidos de pós-de-arroz, e ouvidos armados dos apitos do
contra-regra...
O ianque aplaude. A ilusão é completa. Vê-se a celeridade nervosa de De
Wet, a calma patriarcal de Krueger, a tardeza ameaçadora de Botha... E, vibrando
na distensão repentina dos atiradores, ou concentrando-se em cargas violentas e
compactas, dispersas em escaramuças ou fundidas, de golpe, no tumulto convulsivo
da batalha, as brigadas impetuosíssimas dos boers.
Depois Ladsmith, Kimberley, Magersfontain, todos os lugares refeitos de
reminiscência gloriosa.
Por fim, o assalto de Paardeberg e a bravura espantosamente tranqüila de
Cronje.
Nesta ocasião a imagem real da campanha é absoluta e o protagonista surge
como o não representaria o Fregoli mais protéico e plástico. Porque é o mesmo
Cronje, o Cronje autêntico, palpável — com a sua linha magnifica de herói de
envergadura atlética, aparecendo aos clarões da ribalta, entre explosões de palmas
e gritos entusiásticos que lhe bisam as façanhas.
Um cronista do Figaro, comentando o caso do único modo por que pode ele
ser comentado — com um humorismo laivado de melancolia — declarou "que é
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preciso viver e que desgraçadamente ainda não há incompatibilidade entre a glória e
a miséria"...
Não comentemos, nós. Admiremos, absortos, este traço adorável e utilitário
dos tempos.
Acabou-se o tipo tradicional do herói transfigurado pela desfortuna; do herói
importuno e triste; do herói que pede esmola ou morre escaveirado e tiritante,
passando das palhas de uma enxerga para o mármore dos panteões. Não mais
Camões e Belisários...
Rompe o herói político, esplendidamente burguês; o herói que faz o trust do
ideal; o herói que aluga a glória e que, antes de pedir um historiador, reclama um
empresário.
Alevantamento moral...
Não prossigamos. Decididamente Spencer viu, pela última vez, este mundo
com o olhar bruxoleante de um velho.
O mestre errou; errou palmarmente, desastrosamente, escandalosamente.
Os tempos que vão passando são, na verdade, admiráveis.
Fim
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